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"O Ministério do Desenvolvimento Agrário não é instituição policial. Não é tarefa do ministério reprimir manifestações" |
O MST voltou a atacar. Já marchou sobre cidades, invadiu fazendas e depredou repartições públicas. Enfrentá-lo sempre foi um desafio para as autoridades. O encarregado de lidar com o problema na gestão de Lula é o gaúcho Miguel Rossetto, ministro do Desenvolvimento Agrário. Ex-líder do sindicato dos petroleiros, ex-deputado federal pelo PT e vice-governador do Rio Grande do Sul na gestão de Olívio Dutra, Rossetto tem experiência política, credencial número 1 para ocupar um cargo explosivo como esse. Sua nomeação, no entanto, mexeu com os nervos dos produtores rurais. Motivo: para muitos fazendeiros, ficou a impressão de que Rossetto fala e age como se defendesse interesses dos sem-terra. Os exemplos citados são estes. Ao comentar as ações do MST, Rossetto não usa a palavra invasão. Prefere o vocábulo mais suave difundido pelo movimento: ocupação. No governo, distribuiu entre lideranças sem-terra diretorias do Incra, o órgão que trata das desapropriações. Numa de suas primeiras entrevistas, o ministro falou em anular a lei que impede desapropriações de terras invadidas, dispositivo que derrubou o número de invasões. Nesta entrevista a VEJA, Rossetto foi um pouco mais longe. Disse que contrataria Stedile para trabalhar no Incra e revelou uma idéia de estatizar terras.
Veja
O senhor costuma usar o verbo ocupar quando os sem-terra entram
em fazendas sem ser convidados. Qual a diferença entre ocupar e
invadir?
Rossetto A
idéia é que se ocupa o vazio, portanto o uso desse termo
se faz pelo reconhecimento da ocupação de terras improdutivas.
Veja
Então quando o MST entra em uma terra produtiva faz uma
invasão?
Rossetto
Isso é o que se tem afirmado nas decisões judiciais. É
muito difícil falar em tese sobre isso.
Veja
Para os donos de imóveis, o problema é muito prático
e objetivo. Sua visão sobre o assunto é importante até
para orientar outras autoridades. Quando o MST entra em uma terra que
produz, faz uma ocupação ou uma invasão?
Rossetto O
termo invadir ou ocupar é secundário. Cumpram-se as decisões
da Justiça. As autoridades precisam buscar um padrão de
cumprimento das decisões que não seja gerador de mais violência.
O exercício do estado democrático de direito não
pode ser gerador e ampliador de violência. Os manifestantes que
lutam por terra são brasileiros como nós que lutam de uma
forma positiva pelo direito de trabalho no campo.
Veja
Que diferença existe entre um sem-terra que invade uma
fazenda, um "sem-saúde" que invade um hospital, um "sem-comida"
que invade um restaurante e um desempregado que invade a fábrica?
Rossetto
Na condição de cidadão que luta pela garantia de
direitos fundamentais à sobrevivência, nenhuma.
Veja
Por exemplo, uma pessoa que invade um hospital para exigir tratamento
está agindo de forma legítima?
Rossetto Eu
penso que sim. O que não quer dizer que seja legal.
Veja
Mas como definir os limites? Se todos começarem a praticar
invasões para fazer valer suas exigências, a sociedade vira
de cabeça para baixo.
Rossetto
Os limites são tênues. O pressuposto é que a legalidade
guarde a legitimidade. Infelizmente esse pressuposto não encontra
adequação na realidade social do Brasil. A sociedade já
está de cabeça para baixo. Olhe os padrões de criminalidade,
mortalidade infantil, desrespeito aos idosos e desemprego. Temos 50 milhões
de pessoas que passam fome.
Veja
Uma das primeiras medidas do presidente Lula foi fazer uma desapropriação.
A maioria dos assentamentos está na miséria, por falta de
recursos. Qual a lógica de distribuir mais terra em vez de melhorar
a vida dos assentados?
Rossetto
Precisamos fazer as duas coisas. Não é justo cobrar tantos
resultados dos assentamentos. Nos últimos anos, muitos negócios
faliram, até mesmo grandes empresas. Isso ocorreu por conta de
um ambiente de baixo crescimento econômico, juros altos e diminuição
do mercado interno.
Veja
Mas qual a finalidade de novos assentamentos? O governo não
está apenas mudando a miséria de lugar?
Rossetto Esse
raciocínio é frágil. Há hospitais ruins, e
mesmo assim o governo constrói outros.
Veja
Estamos falando de assentamentos sem nada. São como hospitais
sem leitos. Como a vida de uma família melhora quando ela sai do
acampamento da beira de estrada e vai para um desses assentamentos sem
nada?
Rossetto
Ela conquista segurança.
Veja
Não há dinheiro para fazer tudo. Esse não
é um jogo de faz-de-conta só para responder às pressões
do MST?
Rossetto
Evidentemente, os recursos são insuficientes. Estamos trabalhando
em formas de adquirir terras sem custo das massas falidas nem do poder
público.
Veja O governo tem a obrigação de dar terra
a todo mundo que entra na fila do MST?
Rossetto
Claro. Essa é uma política pública, e cabe ao governo
realizá-la, assim como outras políticas, em outras áreas.
Nossa prioridade são as 80 000 famílias acampadas. Mas calculamos
que a demanda por terra é muito maior que isso. É razoável
falar em 4 milhões de pessoas.
Veja
Antes da posse de Fernando Henrique havia 40 000 famílias
acampadas esperando terra. Foram assentadas 600 000, e ainda existem 80
000 na fila. O que aconteceu?
Rossetto Nos
últimos anos, nós vimos a expulsão do homem do campo
pela grande agricultura mecanizada e pela falência das pequenas
propriedades.
Veja
Os pesquisadores dizem que o latifúndio acabou, que essas
terras só existem no sertão e na Amazônia. O senhor
saberia apontar onde estão algumas dessas fazendas?
Rossetto Posso.
Depois eu posso lhe dar esses dados.
Veja
Como o senhor espera que, usando enxadas, os assentados consigam
competir com fazendas que utilizam máquinas guiadas por satélite?
Rossetto
É evidente que temos limites. Mas nós possuímos recursos
para dar início a um processo vigoroso. Minha percepção
é que existe enorme vontade de trabalho por parte das famílias
que resistiram. Hoje se fala em acesso à terra. Em breve a demanda
será por acesso a conhecimento. Ainda convivemos com uma estrutura
fundiária de natureza feudal. FHC fez uma reforma agrária
do século XIX, com assentamentos dispersos por todo o Brasil. O
resultado desse projeto é dramático: 88% dos assentamentos
não têm luz, 92% não têm água e 81% não
têm estradas.
Veja
O governo FHC gastou 25 bilhões de reais na aquisição
de terra e na instalação de assentamentos e chegou a resultados
que o senhor critica. Quanto seria preciso gastar a mais para melhorar
a vida dos assentados?
Rossetto
Com o mesmo dinheiro poderia ser feito um trabalho melhor. Para isso bastaria
se preocupar com a viabilidade econômica dos assentamentos.
Veja
Como fazer isso?
Rossetto
Os novos assentamentos precisarão ser potências econômicas.
Veja
O governo passado também dizia isso. Não entendo
a diferença.
Rossetto O
discurso pode ter sido semelhante em algum momento, mas os resultados
alcançados deixaram a desejar. Além do mais, não
penso que o foco do último governo tenha sido a integração
econômica dos assentamentos. O centro da discussão foi a
distribuição de terras.
Veja
O senhor espera que os assentamentos se integrem perfeitamente
à economia de mercado e que os assentados subam degraus na pirâmide
social. É isso?
Rossetto
Queremos os assentamentos integrados à estrutura produtiva e condições
de vida dignas para as famílias assentadas.
Veja
Como o senhor fará isso?
Rossetto
Lutaremos para obter os recursos necessários.
Veja
A reforma agrária é um projeto econômico
ou social?
Rossetto Pela
minha compreensão, é um projeto de desenvolvimento econômico
e social, mas não é uma política de assistência
social. Tem de ser gerador de renda, produtor de riqueza e auto-sustentado.
Veja
Existe algum ponto de conflito entre o que o senhor pensa e
o que o MST defende para a reforma agrária no Brasil?
Rossetto
Do ponto de vista estratégico de uma visão para a reforma
agrária, não. Tenho dito que tenho uma grande divergência
com o João Pedro Stedile. Ele é gremista e eu sou colorado,
o que para um gaúcho é muita coisa.
Veja
O senhor nomearia Stedile para um cargo no governo?
Rossetto Sim,
claro, se ele se dispusesse, pela sua experiência.
Veja
Uma iniciativa polêmica de sua gestão foi a indicação
de líderes do MST para cargos de direção no Incra.
Em que essas indicações melhoram o diálogo entre
produtores e sem-terra?
Rossetto
O Incra não é um espaço neutro. Ele tem a responsabilidade
de fazer a reforma agrária.
Veja
O MST já esteve por trás de depredação,
seqüestros, saques e até mortes. O senhor acha que os líderes
do MST respeitam os valores democráticos e o Estado de direito?
Rossetto As
lideranças que eu conheço, sim.
Veja
Toda a sociedade está dando um voto de confiança
ao governo. Em sua opinião, por que o MST foi para a rua protestar?
Rossetto Em
parte, os integrantes do movimento são a parcela mais sofrida e
angustiada da sociedade. Existem algumas situações de urgência.
Porém, as manifestações localizadas que aconteceram
não traduzem uma conduta orientada politicamente pela direção
dos movimentos.
Veja
O senhor falou em anular a lei que impede desapropriações
de terras invadidas. Em que essa mudança vai melhorar o relacionamento
entre os sem-terra e os setores produtivos?
Rossetto
O problema dessa lei é que ela confunde medidas agrárias
e penais. Nós somos contra.
Veja
Mas só o MST ganha alguma coisa com a anulação
dessa regra. Aparentemente, acabar com ela só favorece os que invadem.
Rossetto Qualquer
cidadão que comete atos ilegais deve responder perante a Justiça.
Essa lei tem um conjunto de artigos inadequados.
Veja
Ela foi eficiente para conter invasões. Quem, além
dos invasores, serão os beneficiados com essa alteração?
Rossetto
Ocuparam-se terras produtivas para reivindicar terras improdutivas e,
em alguns casos, os próprios proprietários invadiram para
se proteger de uma desapropriação.
Veja
Acabando com essa lei, o senhor pretende adotar alguma medida
contra invasões?
Rossetto
Os dispositivos para coibir invasões já existem no ordenamento
jurídico brasileiro. O Ministério do Desenvolvimento Agrário
não é uma instituição policial e não
pode substituir o Judiciário em suas competências. Não
é tarefa do ministério reprimir manifestação.
Veja
As famílias de assentados mais bem-sucedidas desejam
comprar os lotes dos vizinhos que vão mal, porém são
proibidas. Por quê?
Rossetto Quem
conseguir acumular recursos pode comprar terras fora do assentamento.
Dentro do assentamento, não. O acordo do Estado é assegurar
uma parcela de terra para garantir um padrão de vida mínimo.
Quem quiser mais que vá à luta.
Veja
O senhor falou muito sobre o que não fazer e condenou
o que os governos anteriores fizeram de errado. Qual será sua contribuição
para o debate?
Rossetto Estamos
estudando a adoção de um novo modelo de reforma agrária.
Os pontos principais são os seguintes: em vez de fazer um número
expressivo de pequenos assentamentos dispersos pelo Brasil, vamos organizar
um número menor de assentamentos maiores. Teremos um projeto de
reforma agrária diferente, para atender às necessidades
de cada região do país. Por fim, nosso foco será
a produção. Antes de assentar vamos discutir com as famílias
o que elas poderão produzir.
Veja
Pelo que o senhor diz, não se deve esperar nenhuma mudança
muito profunda na forma de abordar o problema?
Rossetto Tenho
algumas idéias, mas são apenas idéias, que nem cheguei
a apresentar. Uma delas é não entregar o título de
propriedade da terra aos assentados. O governo seria o dono das terras,
os assentados não teriam a posse, só o direito de uso. A
vantagem desse sistema é que quem não produzir pode perder
o direito de usar a terra.
Veja O senhor está falando em estatizar terra.
Rossetto Como
disse, essa é apenas uma divagação de minha parte.
Portanto, não comporta comentários. Ninguém no governo
está estudando isso.
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