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Edição 1 795 - 26 de março de 2003
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Sérgio Abranches

Guerra sem fim?

"Politicamente está claro: Bagdá
é a
primeira estação de uma vasta
guerra pela hegemonia mundial"



Sérgio Abranches


Enquanto os mísseis atingem Bagdá e as tropas de terra avançam em direção à capital iraquiana, continuam as especulações sobre como será o desfecho dessa operação e, depois dela, o que virá.

Há três cenários para a marcha da coalizão Estados Unidos/Grã-Bretanha sobre Bagdá. Um, parte da guerra de informação, imaginava que os soldados entrariam triunfalmente, como libertadores do Iraque. Quem é contra Saddam fala, como o governo Bush, em liberação do país. Mas o Iraque não está ocupado por tropas estrangeiras. Está sob o domínio de um ditador, que não se diferencia muito de outros ditadores da região, a não ser por sua brutalidade.

Um outro cenário seria, em escala ampliada, similar à invasão – bem-sucedida – do Panamá, para depor e prender Manuel Noriega. Ela implicou batalhas urbanas duras, mas com uma vitória incontestável. O final seria parecido: a deposição, a prisão ou a morte de Saddam Hussein.

O terceiro cenário, cogitado apenas por aqueles – poucos – que acreditam na possibilidade de um fiasco, seria como o fracassado raid a Mogadíscio, na Somália, em 1993. Há uma versão cinematográfica bastante fiel aos fatos, de Ridley Scott, o mesmo de Blade Runner, chamada Falcão Negro em Perigo e disponível em videolocadoras. Os analistas são unânimes sobre a remota probabilidade de repetição de um fiasco daqueles. A única similaridade admissível seria a de duríssimas batalhas, rua a rua, casa a casa, com muitas baixas e duração maior que a prevista, se a Guarda Republicana de Saddam opuser muita e eficaz resistência aos atacantes.

O fato de especialistas sérios estarem discutindo possibilidades tão díspares, que podem ser ou não superadas em questão de horas, chega a ser mais relevante do que se os fatos reais se conformarão a essas ou a outras hipóteses. Guerras são eventos extremos, trazem embutidas em sua lógica elevadas taxas de risco e probabilidades nada desprezíveis de ocorrências inesperadas que podem transformar o teatro de operações em um tabuleiro de movimentos imprevistos. O próprio presidente George W. Bush disse, em seu ultimato, que guerra é incerteza. E é mesmo.

O que significará, então, a tomada de Bagdá, se e quando ela ocorrer? O fim da guerra? Certamente não, do ponto de vista de alguns setores militares e de segurança nacional dos EUA, que contam, provavelmente, com a concordância de seu presidente. Para eles, a guerra é contra o terrorismo de organizações como a Al Qaeda, abrigado e/ou incentivado por algumas nações islâmicas. O ataque ao Iraque seria parte de uma campanha contra esses Estados simpatizantes ou coniventes, de quantas batalhas ainda não se sabe. A guerra continuaria após a queda de Hussein.

A pergunta essencial passaria a ser: qual o próximo teatro de guerra? Há especialistas dizendo que poderia ser o Irã, suspeita que inquieta também os dirigentes desse país e vários de seus vizinhos. O Irã não pode ser acusado de envolvimento direto nem de hospedar a Al Qaeda, mas teria cometido o pecado de não reagir efetivamente contra os terroristas.

Se a tomada de Bagdá significar apenas o começo de uma longa guerra, uma campanha vencida, estaremos diante de um cenário de enorme incerteza e alto risco de instabilidade crescente da (des)ordem mundial. A deposição de Saddam Hussein seria um objetivo acessório, que talvez pudesse ser obtido com menos risco e menor sacrifício de vidas.

Qualquer que seja o seu destino, Bagdá já ajudou a escrever várias novas páginas da história geopolítica de superação da ordem estabelecida ao longo do século XX. Suas ruínas terão sido precedidas pelos escombros do Conselho de Segurança da ONU, desacreditado e desautorizado. Pôde assistir à Europa unificada se dividir e mergulhar na batalha em curso pelo controle político de suas instituições na ordem mundial por vir. Viu Tony Blair jogar e ganhar uma cartada política doméstica de alto risco. Ele entrou na campanha do Iraque como se fosse um presidente – igual a Bush –, mas teve de se defender no Parlamento, em uma sessão memorável, como primeiro-ministro que é. E convenceu. Apesar de ter tido mais de 100 votos contrários de seu próprio partido, conquistou uma rara maioria, composta por trabalhistas, conservadores e liberal-democratas. Jacques Chirac confronta Blair e Bush, em busca de um espaço para a França na era pós-pós-moderna.

O significado da tomada de Bagdá se tornou mais uma questão moral. Politicamente está claro: Bagdá é a primeira estação de uma vasta guerra pela hegemonia mundial. A guerra do Iraque teve efeitos duradouros sobre a geopolítica global, antes que o primeiro tiro fosse disparado.

 

Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)


 
 
   
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