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Luiz
Felipe de Alencastro
O ocaso do Ocidente
"A
eleição de Bush e
o pós-11 de
setembro puseram a
nu a crua realidade:
a hiperpotência americana, beneficiando-se
de uma supremacia inigualada por nenhum
império antigo ou moderno, dispensa o aval
da ONU ou da Otan"
Ilustração Ale Setti
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Por mais de meio século, os Estados Unidos exerceram o comando
consentido e inconteste do campo ocidental. Essa preeminência apoiava-se
no exercício combinado do poderio militar americano e dos tratados
internacionais endossados pelo pacto de defesa da Otan e pelas ações
coletivas na ONU. O bloco das democracias ocidentais ganhava consistência
no enfrentamento com o Pacto de Varsóvia, formado pelos países
comunistas da Europa do Leste e pela União Soviética. A
queda do muro de Berlim e o fim da URSS extinguiram a razão de
ser do sistema de alianças ocidental, mas os efeitos do desequilíbrio
não foram imediatos.
Os dois
mandatos do presidente Clinton ex-estudante em Oxford e partidário
da política pró-européia limitaram o antagonismo
crescente entre o poderio americano e alguns de seus aliados europeus.
A eleição de Bush e o pós-11 de setembro puseram
a nu a crua realidade: a hiperpotência americana, beneficiando-se
de uma supremacia inigualada por nenhum império antigo ou moderno,
dispensa o aval da ONU ou da Otan. Essa nova política, que prescinde
dos países aliados (que pedem explicações) e prefere
os países cupinchas (que seguem o líder sem discutir), é
explicitada por autores conservadores americanos, como Robert Kagan, e
resumida pela frase do secretário de Defesa, Donald Rumsfeld: "Não
é a coalizão que deve definir a missão, é
a missão que deve definir a coalizão". A doutrina já
havia sido ilustrada com tom mais pitoresco e cara-de-pau no artigo "O
Oeste selvagem" ("The Wild, Wild West", The New York Times, 22
de fevereiro de 2002), do ex-diretor da CIA James Woolsey, que tomava
como exemplo o dilema de Gary Cooper no faroeste Matar ou Morrer (High
Noon, 1952). Xerife de uma cidadezinha, Gary Cooper tenta organizar
um grupo de cidadãos armados para enfrentar a bandidagem das vizinhanças.
Diante da hesitação e do egoísmo dos outros, o xerife
sai sozinho para o tiroteio e vence os maus. Quando os habitantes vão
cumprimentá-lo, aliviados e contentes, Gary Cooper olha-os com
desprezo, joga sua estrela de xerife no chão e abandona a cidadezinha.
Isto é, para estabelecer a ordem no pedaço, os EUA devem
desprezar os possíveis aliados covardes (Woolsey menciona a França)
e mandar bala na bandidagem.
A crise
do Iraque desenrola-se num cenário mais complexo que o do faroeste.
De saída, é preciso deixar claro um fato básico.
É a ameaça de um ataque esmagador e unilateral dos EUA que
faz o tirano Saddam Hussein autorizar as buscas e a desativação
das armas de destruição maciça organizadas pelos
inspetores da ONU. Ou seja, a dupla Bush-Blair, favorável ao ataque
imediato, facilita a postura da dupla Chirac-Schroeder, favorável
ao desarmamento do Iraque sob a direção da ONU. Trata-se
de uma ilustração do tema da "astúcia da Razão",
exposto pelo filósofo Hegel: guiados por suas obsessões
e seus interesses particulares, os homens e as nações executam
objetivos universais. O pensamento de Hegel irá certamente inspirar
os historiadores futuros que estudarão a atual crise internacional.
Mas nós, que vivemos no meio da crise, temos de entender as conseqüências
imediatas da história.
Mesmo sem
desembocar ainda numa guerra aberta, a crise do Iraque já modificou
as bases da política internacional elaborada após a II Guerra.
O racha opondo os EUA ao eixo ParisBerlim desdobra-se num enfrentamento
no interior da União Européia entre países euro-americanos
e países euro-europeus. Ao mesmo tempo, os milhões de pacifistas
que atravessaram as grandes capitais nas maiores manifestações
de massa das últimas décadas anunciam uma nova polarização.
A opinião pública mundial poderá contrabalançar
a hiperpotência americana?
De todo
modo, já está patente que a noção de Ocidente,
definindo a comunidade de países europeus e americanos liderados
pelos Estados Unidos num sistema de alianças políticas e
militares, tornou-se obsoleta.
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris Sorbonne (abomey@uol.com.br)
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