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Edição 1 791 - 26 de fevereiro de 2003
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Luiz Felipe de Alencastro

O ocaso do Ocidente

"A eleição de Bush e o pós-11 de
setembro puseram
a nu a crua realidade:
a hiperpotência americana, beneficiando-se
de uma supremacia inigualada por nenhum
império antigo ou moderno, dispensa o aval
da ONU ou da Otan"



Ilustração Ale Setti


Por mais de meio século, os Estados Unidos exerceram o comando consentido e inconteste do campo ocidental. Essa preeminência apoiava-se no exercício combinado do poderio militar americano e dos tratados internacionais endossados pelo pacto de defesa da Otan e pelas ações coletivas na ONU. O bloco das democracias ocidentais ganhava consistência no enfrentamento com o Pacto de Varsóvia, formado pelos países comunistas da Europa do Leste e pela União Soviética. A queda do muro de Berlim e o fim da URSS extinguiram a razão de ser do sistema de alianças ocidental, mas os efeitos do desequilíbrio não foram imediatos.

Os dois mandatos do presidente Clinton – ex-estudante em Oxford e partidário da política pró-européia – limitaram o antagonismo crescente entre o poderio americano e alguns de seus aliados europeus. A eleição de Bush e o pós-11 de setembro puseram a nu a crua realidade: a hiperpotência americana, beneficiando-se de uma supremacia inigualada por nenhum império antigo ou moderno, dispensa o aval da ONU ou da Otan. Essa nova política, que prescinde dos países aliados (que pedem explicações) e prefere os países cupinchas (que seguem o líder sem discutir), é explicitada por autores conservadores americanos, como Robert Kagan, e resumida pela frase do secretário de Defesa, Donald Rumsfeld: "Não é a coalizão que deve definir a missão, é a missão que deve definir a coalizão". A doutrina já havia sido ilustrada com tom mais pitoresco e cara-de-pau no artigo "O Oeste selvagem" ("The Wild, Wild West", The New York Times, 22 de fevereiro de 2002), do ex-diretor da CIA James Woolsey, que tomava como exemplo o dilema de Gary Cooper no faroeste Matar ou Morrer (High Noon, 1952). Xerife de uma cidadezinha, Gary Cooper tenta organizar um grupo de cidadãos armados para enfrentar a bandidagem das vizinhanças. Diante da hesitação e do egoísmo dos outros, o xerife sai sozinho para o tiroteio e vence os maus. Quando os habitantes vão cumprimentá-lo, aliviados e contentes, Gary Cooper olha-os com desprezo, joga sua estrela de xerife no chão e abandona a cidadezinha. Isto é, para estabelecer a ordem no pedaço, os EUA devem desprezar os possíveis aliados covardes (Woolsey menciona a França) e mandar bala na bandidagem.

A crise do Iraque desenrola-se num cenário mais complexo que o do faroeste. De saída, é preciso deixar claro um fato básico. É a ameaça de um ataque esmagador e unilateral dos EUA que faz o tirano Saddam Hussein autorizar as buscas e a desativação das armas de destruição maciça organizadas pelos inspetores da ONU. Ou seja, a dupla Bush-Blair, favorável ao ataque imediato, facilita a postura da dupla Chirac-Schroeder, favorável ao desarmamento do Iraque sob a direção da ONU. Trata-se de uma ilustração do tema da "astúcia da Razão", exposto pelo filósofo Hegel: guiados por suas obsessões e seus interesses particulares, os homens e as nações executam objetivos universais. O pensamento de Hegel irá certamente inspirar os historiadores futuros que estudarão a atual crise internacional. Mas nós, que vivemos no meio da crise, temos de entender as conseqüências imediatas da história.

Mesmo sem desembocar ainda numa guerra aberta, a crise do Iraque já modificou as bases da política internacional elaborada após a II Guerra. O racha opondo os EUA ao eixo Paris–Berlim desdobra-se num enfrentamento no interior da União Européia entre países euro-americanos e países euro-europeus. Ao mesmo tempo, os milhões de pacifistas que atravessaram as grandes capitais nas maiores manifestações de massa das últimas décadas anunciam uma nova polarização. A opinião pública mundial poderá contrabalançar a hiperpotência americana?

De todo modo, já está patente que a noção de Ocidente, definindo a comunidade de países europeus e americanos liderados pelos Estados Unidos num sistema de alianças políticas e militares, tornou-se obsoleta.

 

Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris – Sorbonne (abomey@uol.com.br)


 
 
   
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