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Roberto
Pompeu de Toledo
De
volta à lógica do
senhor de engenho
No
mais recente escândalo brasileiro, sai
pisoteada a noção de dignidade da mulher
A lascívia fez de nós a sua pátria, como se sabe.
O Brasil do calor e da preguiça, dos banhos de rio, da rede de
balançar e das índias peladas distinguiu-se, desde o alvorecer,
como a terra prometida do gozo. "Para homens que vinham da Europa policiada,
o ardor do temperamento, a amoralidade dos costumes, a ausência
do pudor civilizado e toda a contínua tumescência
voluptuosa da natureza virgem era um convite à vida solta
e infrene em que tudo era permitido", escreveu Paulo Prado, no clássico
Retrato do Brasil. Abundam, na literatura do e sobre o período
colonial, raciocínios e relatos semelhantes. Os holandeses que
se abalaram para a conquista do Nordeste vinham impulsionados pela crença
de que não havia pecado abaixo do Equador. E nessa bíblia
dos costumes coloniais que é Casa-Grande e Senzala, de Gilberto
Freyre, a cada página que se vira é uma bolinação
roubada a uma escrava ou um esfregão numa índia.
O Brasil colonial, tal qual emerge de tais fontes, deixa para trás
a orgia romana e é de fazer inveja ao harém dos turcos.
Mesmo porque não se limita a acontecer de vez em quando, como a
orgia, nem se confina a um lugar preciso, como o harém. A safadeza
brasileira não tinha hora nem lugar. Não se pense, porém,
que isso só resultasse em liberdade e alegria. Há um lado
de opressão, nesse quadro. De dominação do fraco
pelo forte. Considere-se a figura do dono do engenho. Ele não suja
as mãos no trabalho. Também não força os pés
nas agruras das caminhadas. Tem as extremidades atrofiadas, por causa
disso. Mas a libido serve-se fartamente da vasta escravaria, das agregadas,
das parentes, e ai de quem lhe resistir aos impulsos. Escreve Gilberto
Freyre: "No senhor branco o corpo quase que se tornou exclusivamente o
membrum virile. Mãos de mulher; pés de menino; só
o sexo arrogantemente viril".
Isso foi em outro tempo. Mas, vez por outra, como uma herança invencível,
o Brasil colônia emerge de volta. É o caso do episódio
que esteve nas manchetes na semana passada, envolvendo famoso senador,
dono de reconhecidos e temidos poderes, e suas aventuras priápicas.
Eis um episódio que acrescenta dimensão extra ao comum dos
escândalos brasileiros. Montar espionagem telefônica por motivo
econômico ou político é grave, mas que fazer?
é item já inserido na banalidade dos costumes nacionais.
Montar espionagem eletrônica para fins amorosos, e lançar
mão dos recursos do Estado para tal fim, como se diz que ocorreu,
eis algo que registra novo recorde de prepotência. E não
foi só, nem o pior. Seguiu-se uma campanha de perseguição
e intimidação das vítimas da cólera do senador,
minuciosamente relatada na última edição desta revista.
De novo não houve escrúpulo em usar, para tais fins, instrumentos
do Estado, como os agentes e os carros da polícia. Eis o senhor
feudal, atualizado para os tempos do telefone e do automóvel, mas
igualmente zeloso em vingar-se da castelã que lhe escapou do leito.
Ou, para continuar fiel ao passado colonial brasileiro, eis o senhor de
engenho a soltar os capitães-do-mato atrás da negra que
ousou negar-lhe os favores.
Há outro aspecto da questão, e este começa com um
problema de linguagem. Ficou feio falar em "amante". A palavra invoca
trampolinagem de mau gosto, libertinagem de subúrbio. Só
não é mais brega que "amásia". Então, usa-se
"namorada", ou "ex-namorada", para qualificar a mulher que incorreu na
fúria do poderoso senador. Pelos padrões atuais de bom gosto,
a língua talvez não ofereça mesmo melhor alternativa.
Mas surge um problema. Namorar, pelo que sempre se entendeu, e ainda em
geral se entende, é para pessoas livres e desimpedidas. Ora, o
personagem em questão é homem casado, pai de filhos e avô
de netos. Pode-se falar com tanta naturalidade que tem, ou tinha, namorada?
Se se pode, é porque estamos no Islã e não sabíamos.
Caiu mais um tabu, e está liberada a poligamia. Ou então,
para outra vez recorrer à herança colonial, é porque
ainda não saímos da casa-grande, dentro da qual o senhor
"namora" à vontade e a mulher, digamos, oficial, a "esposa", tem
mais é de ficar quieta em seu canto, conformar-se com as urgências
de macho do pai de seus filhos e dar-se por satisfeita com as funções
de comandante da escolha das rendas para adornar a casa e dos pratos para
servir à mesa.
Há uma diferença entre os tempos coloniais e os de hoje.
Nos tempos coloniais, ser perseguida pelo capitão-do-mato, quando
se ousava escapar do leito do senhor, ou, no caso da mulher oficial, ser
tratada como se não tivesse mais direitos do que os móveis
da casa, não despertava senão resignação.
Quem manda ser mulher? Entendia-se como parte da condição
feminina a obrigação de dobrar-se à soberania do
macho. Hoje a opressão pode ser a mesma, mas, pelo menos, reina
a consciência de que não merece passar despercebida. Tem-se
a noção de dignidade da mulher, algo que aparece pisoteado
como inseto nocivo, desprezado como vira-lata de beira de estrada, no
escândalo que envolve o famoso senador.
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