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Edição 1 791 - 26 de fevereiro de 2003
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Roberto Pompeu de Toledo

De volta à lógica do
senhor de engenho

No mais recente escândalo brasileiro, sai
pisoteada a noção de dignidade da mulher

A lascívia fez de nós a sua pátria, como se sabe. O Brasil do calor e da preguiça, dos banhos de rio, da rede de balançar e das índias peladas distinguiu-se, desde o alvorecer, como a terra prometida do gozo. "Para homens que vinham da Europa policiada, o ardor do temperamento, a amoralidade dos costumes, a ausência do pudor civilizado – e toda a contínua tumescência voluptuosa da natureza virgem – era um convite à vida solta e infrene em que tudo era permitido", escreveu Paulo Prado, no clássico Retrato do Brasil. Abundam, na literatura do e sobre o período colonial, raciocínios e relatos semelhantes. Os holandeses que se abalaram para a conquista do Nordeste vinham impulsionados pela crença de que não havia pecado abaixo do Equador. E nessa bíblia dos costumes coloniais que é Casa-Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, a cada página que se vira é uma bolinação roubada a uma escrava ou um esfregão numa índia.

O Brasil colonial, tal qual emerge de tais fontes, deixa para trás a orgia romana e é de fazer inveja ao harém dos turcos. Mesmo porque não se limita a acontecer de vez em quando, como a orgia, nem se confina a um lugar preciso, como o harém. A safadeza brasileira não tinha hora nem lugar. Não se pense, porém, que isso só resultasse em liberdade e alegria. Há um lado de opressão, nesse quadro. De dominação do fraco pelo forte. Considere-se a figura do dono do engenho. Ele não suja as mãos no trabalho. Também não força os pés nas agruras das caminhadas. Tem as extremidades atrofiadas, por causa disso. Mas a libido serve-se fartamente da vasta escravaria, das agregadas, das parentes, e ai de quem lhe resistir aos impulsos. Escreve Gilberto Freyre: "No senhor branco o corpo quase que se tornou exclusivamente o membrum virile. Mãos de mulher; pés de menino; só o sexo arrogantemente viril".

Isso foi em outro tempo. Mas, vez por outra, como uma herança invencível, o Brasil colônia emerge de volta. É o caso do episódio que esteve nas manchetes na semana passada, envolvendo famoso senador, dono de reconhecidos e temidos poderes, e suas aventuras priápicas. Eis um episódio que acrescenta dimensão extra ao comum dos escândalos brasileiros. Montar espionagem telefônica por motivo econômico ou político é grave, mas que fazer? – é item já inserido na banalidade dos costumes nacionais. Montar espionagem eletrônica para fins amorosos, e lançar mão dos recursos do Estado para tal fim, como se diz que ocorreu, eis algo que registra novo recorde de prepotência. E não foi só, nem o pior. Seguiu-se uma campanha de perseguição e intimidação das vítimas da cólera do senador, minuciosamente relatada na última edição desta revista. De novo não houve escrúpulo em usar, para tais fins, instrumentos do Estado, como os agentes e os carros da polícia. Eis o senhor feudal, atualizado para os tempos do telefone e do automóvel, mas igualmente zeloso em vingar-se da castelã que lhe escapou do leito. Ou, para continuar fiel ao passado colonial brasileiro, eis o senhor de engenho a soltar os capitães-do-mato atrás da negra que ousou negar-lhe os favores.

Há outro aspecto da questão, e este começa com um problema de linguagem. Ficou feio falar em "amante". A palavra invoca trampolinagem de mau gosto, libertinagem de subúrbio. Só não é mais brega que "amásia". Então, usa-se "namorada", ou "ex-namorada", para qualificar a mulher que incorreu na fúria do poderoso senador. Pelos padrões atuais de bom gosto, a língua talvez não ofereça mesmo melhor alternativa. Mas surge um problema. Namorar, pelo que sempre se entendeu, e ainda em geral se entende, é para pessoas livres e desimpedidas. Ora, o personagem em questão é homem casado, pai de filhos e avô de netos. Pode-se falar com tanta naturalidade que tem, ou tinha, namorada? Se se pode, é porque estamos no Islã e não sabíamos. Caiu mais um tabu, e está liberada a poligamia. Ou então, para outra vez recorrer à herança colonial, é porque ainda não saímos da casa-grande, dentro da qual o senhor "namora" à vontade e a mulher, digamos, oficial, a "esposa", tem mais é de ficar quieta em seu canto, conformar-se com as urgências de macho do pai de seus filhos e dar-se por satisfeita com as funções de comandante da escolha das rendas para adornar a casa e dos pratos para servir à mesa.

Há uma diferença entre os tempos coloniais e os de hoje. Nos tempos coloniais, ser perseguida pelo capitão-do-mato, quando se ousava escapar do leito do senhor, ou, no caso da mulher oficial, ser tratada como se não tivesse mais direitos do que os móveis da casa, não despertava senão resignação. Quem manda ser mulher? Entendia-se como parte da condição feminina a obrigação de dobrar-se à soberania do macho. Hoje a opressão pode ser a mesma, mas, pelo menos, reina a consciência de que não merece passar despercebida. Tem-se a noção de dignidade da mulher, algo que aparece pisoteado como inseto nocivo, desprezado como vira-lata de beira de estrada, no escândalo que envolve o famoso senador.

 
 
   
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