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A
vida como ela é
Nos contos de Tchekov, não há
lugar
para heroísmo,
sentimentalismos
e embelezamentos
Marilia
Pacheco Fiorillo

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Numa
carta de 1890, Anton Tchekov fez a lista dos maiores talentos russos de
sua época: em primeiro lugar colocou o escritor Leon Tolstoi. Em
segundo, o compositor Tchaikovsky. A si mesmo reservou um insignificante
98º lugar. Hoje considerado o mestre no gênero "conto",
além de um dos maiores dramaturgos modernos, por peças como
O Jardim das Cerejeiras, Tchekov não estava fazendo fita.
Sua modéstia era sincera e desinteressada, a ponto de tornar-se
traço marcante de seu estilo. Pois tudo em seus contos é
recatado, pequeno, sucinto, anti-heróico, como se pode constatar
em O Assassinato e Outras Histórias (tradução
de Rubens Figueiredo; Cosac & Naify; 263 páginas; 37 reais).
Quando
são de classe média, os protagonistas são medíocres
e artificiais. Se camponeses, mostram-se embrutecidos pela miséria,
a religiosidade vazia e o alcoolismo. As situações são
corriqueiras, e as tragédias apenas uma sucessão de fracassos
e frustrações, sem grandes desfechos. Aliás, não
há um desfecho que seja em Tchekov, pois suas histórias
acabam como tinham começado, no eterno retorno da mesma desolação
e banalidade. É assim com a punição do sectarismo
religioso de O Assassinato, de 1895, que não leva à
redenção dos criminosos. O idílio doméstico
em Professor de Letras perde o disfarce e vira legítima
canastrice. As veleidades do médico Iônitch, no conto que
leva o nome do personagem, tornam-se, com o tempo, indolência moral.
Mas os dois textos que ilustram o melhor do autor são os dedicados
à vida rural, Os Mujiques (1897) e No Fundo do Barranco
(1900). No primeiro, a fidelidade com que é retratada a brutalidade
e a ignorância dos camponeses rendeu-lhe a censura oficial de trechos,
numa primeira edição. E o ainda mais amargo No Fundo
do Barranco impressionou o escritor Máximo Gorki pela "arguta
compreensão do caos e estupidez da vida camponesa".
Contrastando com a idealização da vida e da alma mujique
feita pelo conde Tolstoi, Tchekov não embeleza sua gente. Pudera:
antes de se tornar escritor, ele já era médico, e como médico
passou boa parte da vida cuidando das vítimas da fome camponesa
de 1891-1892 e da epidemia de cólera. É com esse olho clínico,
sem sentimentalismos, e com a delicadeza e precisão de um cirurgião
que ele assesta o bisturi sobre suas paisagens humanas.
Filho de um servo liberto, boa parte do que Tchekov escreveu foi para
pagar suas contas e da família que sustentava. Chegou a publicar
100 crônicas jornalísticas por ano, ritmo que só apaziguou
quando suas peças começaram a render. Detestava as pseudoprofundidades
dos intelectuais de plantão, numerosos então como agora.
Numa das cinco cartas que também constam dessa coletânea,
endereçada ao editor Suvorin, ele ridiculariza os rompantes de
uma colega escritora, pretensamente maravilhada com o "ser humano": "Isso
não é um modo de encarar a vida, é um bolo confeitado",
desabafa. Se alguém podia desancar dogmas e preciosismos, era ele.
Tchekov destila impessoalidade e resignação, frieza e compaixão
excepcionais ferramentas para descrever a vida como ela é.
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No
fundo do poço
"O
garçom Sergei Nicanoritch, em outros tempos, possuíra
muito dinheiro e tivera uma cantina em uma estação
de primeira classe, em uma capital de província. Naquela
época, vestia fraque e usava um relógio de ouro. Mas
os negócios correram mal, ele gastou todo o dinheiro em um
luxuoso serviço de mesa, os empregados o roubaram e, vendo
as coisas cada vez mais complicadas, acabou mudando para outra estação,
menos movimentada; lá, sua esposa fugiu e levou consigo toda
prataria, e ele se transferiu para uma terceira estação,
um pouco pior, onde os pratos já não eram servidos
quentes. Em seguida, foi para uma quarta estação.
Mudando de lugar com freqüência e baixando de nível
cada vez mais, por fim foi cair na estação de Progónaia
e ali só vendia chá, vodca barata e, como entrada,
servia ovos cozidos e um chouriço duro, que tinha gosto de
piche."
Trecho
do conto O Assassinato
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