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As provas do crime
Quatro
anos depois da falência da
Encol, relatório da Kroll revela as
provas dos golpes que lesaram
42 000 famílias
Eduardo
Salgado
Claudio Rossi
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Dida Sampaio/AE
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| Promotora
Maria Bernadete Crispim, a acusadora: novas ações |
Pedro
Paulo de Souza, dono da Encol, o acusado: silêncio sobre operações
antes da quebradeira |

Veja também |
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As 42.000
famílias que foram vítimas da falência da construtora
Encol acompanharam a derrocada da maior incorporadora e construtora do
Brasil na segunda metade da década de 90. Em maior ou menor grau,
todas sentiram no bolso a crise da empresa que abalou a confiança
de milhões de brasileiros no mercado imobiliário. Das dificuldades
financeiras em 1995 à decretação da falência,
em 1999, sempre surgiram acusações de desvios de patrimônio
por parte de Pedro Paulo de Souza, presidente e o maior acionista da Encol,
e de seus diretores. Essas acusações não prosperaram
na Justiça por falta de provas. Agora, a poucas semanas do quarto
aniversário da falência, no dia 16 de março, as provas
de diversas irregularidades já estão nas mãos das
autoridades. Um time de especialistas da agência internacional de
investigações Kroll passou quase dois anos mergulhado em
quatro galpões cheios até o teto de documentos da Encol.
Os investigadores emergiram dos documentos com evidências da existência
de um caixa dois da empresa, falsificação dos livros de
contabilidade e manobras internas para fazer desaparecer patrimônio
valioso antes que pudesse ser usado para saldar as dívidas da construtora.
Os investigadores acreditam ter conseguido parte das provas para explicar
o sumiço de uma fortuna calculada em 2,5 bilhões de reais
o que faz do caso Encol a maior falência de uma empresa não
bancária na América do Sul.
Claudio Rossi
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| Sérvio
Túlio Caetano da Costa, da massa falida: três anos para encontrar
as provas |
Na sexta-feira passada, Sérvio Túlio Caetano da Costa, o
síndico da massa falida da Encol, entregou um relatório
de cerca de 5 000 páginas distribuídas em quinze volumes
com as principais provas obtidas pela Kroll ao juiz Carlos Alberto França,
titular da 6ª Vara Cível de Goiânia. O documento será
acrescentado ao processo da Encol na Justiça, que já tem
cerca de 75.000 folhas, o suficiente para produzir
uma trilha de papel de 22 quilômetros de comprimento. Com as novas
provas juntadas aos autos na sexta-feira pelo síndico da massa
falida, abre-se uma janela de esperança para que os milhares de
credores recuperem, pelo menos em parte, o investimento perdido na Encol.
"Com o patrimônio desviado irregularmente da massa falida haverá
condições de pagar boa parte dos valores perdidos pelos
mutuários", diz Maria Bernadete Crispim, a promotora do Ministério
Público do Estado de Goiás responsável pelo caso.
Só a parte do dinheiro dos mutuários desviado irregularmente
da construção dos prédios chega a 689 milhões
de reais. VEJA teve acesso às provas entregues pela Kroll ao síndico
da massa falida. Os repórteres da revista procuraram Pedro Paulo
de Souza e outros ex-diretores da Encol. Eles não quiseram se pronunciar.
"O doutor Pedro Paulo não quer falar sobre esses assuntos", disse
a VEJA Luís Alexandre Rassi, advogado do empresário.
"Assim que
cheguei à sede da massa falida, em 1999, e vi os quatro galpões
cheios de papéis misturados até o teto, deu-me certo desânimo",
lembra Caetano da Costa, o síndico da falência. O desalento
inicial foi seguido de euforia quando começaram a brotar provas
da análise dos documentos. Dez contadores e duas dezenas de estagiários
se dedicaram em tempo integral à tarefa de organizar papel por
papel durante um ano. Depois que a papelada foi separada por data e classificada
por sua importância, entraram em campo sete investigadores da Kroll.
Eles trabalharam cinqüenta horas por semana, durante quase dois anos,
examinando tudo que parecia ser relevante para provar o envolvimento dos
diretores em irregularidades e, assim, facilitar o processo judicial que
pode obrigá-los a devolver parte do patrimônio.
Entre os
documentos encontrados pelos investigadores estão cheques e anotações
que permitiram ao síndico da massa falida da Encol descrever em
detalhes ao juiz como vigorava o caixa dois da empresa. Apelidado internamente
de Diger, o esquema de caixa dois funcionava de modo que os diretores
podiam vender apartamentos aos mutuários sem que o dinheiro entrasse
no caixa da empresa. Para fechar um negócio em que os recursos
iam para o caixa dois, os vendedores recebiam comissões gordas
e os superintendentes regionais embolsavam gratificações.
Os investigadores descobriram uma folha de pagamentos paralela para os
funcionários envolvidos no esquema Diger. Também encontraram
bilhetes e anotações que mostram que as vendas feitas por
fora e que lesavam a empresa eram recompensadas com comissões cujos
valores médios chegavam ao dobro das recompensas normais.
Claudio Rossi
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| A
sala com pilhas de documentos da Encol que chegam ao teto: matéria-prima
dos investigadores |
Os investigadores
obtiveram documentos que provam a existência de pelo menos uma conta
bancária que não aparecia na contabilidade da empresa. Ela
era movimentada por João Batista Rezende, assessor da diretoria
da Encol. A conta corrente número 42.900-0 da agência 0522
do Banco Itaú de Brasília recebia depósitos da matriz
e das regionais da Encol. Entre 30 de dezembro de 1994 e 23 de janeiro
de 1996, os depósitos nessa conta totalizaram por volta de 13 milhões
de reais. Em dois recibos de depósito, os especialistas da Kroll
encontraram a inscrição Diger, que outros documentos comprovam
ser a senha para o dinheiro seguir rumo ao caixa dois. Os investigadores
localizaram cerca de 1.000 cheques assinados
pelo assessor Rezende. Da lista dos principais beneficiários da
conta 42.900-0, a prova da existência do caixa dois, constam o nome
de Pedro Paulo, de sua então mulher Glayds, de sua mãe,
Edith, e do diretor Marcos Antonio Borela.
Os documentos
entregues ao juiz em Goiânia na sexta-feira passada contam a história
secreta de como os diretores da Encol decidiram sair ricos do negócio
à custa da falência da empresa e do prejuízo dos mutuários.
No começo dos anos 90, a Encol já enfrentava dificuldades
financeiras. Os diretores optaram pela estratégia de aumentar o
ritmo dos lançamentos e expandir a empresa. A idéia era
atrair mais mutuários dispostos a entregar dinheiro à Encol
a um custo zero enquanto esperavam a conclusão de seus imóveis.
O número de lançamentos da Encol pulou de 93 em 1992 para
210 no ano seguinte. Em 1994, chegou a 259 empreendimentos. Nessa época,
os documentos mostram que os diretores já sabiam que não
poderiam entregar a maior parte dos imóveis vendidos ao público.
As atas das reuniões nesse período mostram que os diretores
aconselhavam os gerentes a "maliciar" a situação dos prédios
de modo a dar a entender que as obras estavam andando, quando não
estavam. No fim de 1994, o número de obras inacabadas chegou a
636, o dobro de 1992.
 |
O
CAIXA DOIS
Os cheques acima são da conta corrente número 42.900-0,
da agência 0522, do Banco Itaú em Brasília. A
conta recebia depósitos da matriz e das regionais da Encol,
mas não aparece na contabilidade da empresa. Entre 30 de dezembro
de 1994 e 23 de janeiro de 1996, os depósitos nessa conta totalizaram
cerca de 13 milhões de reais. Entre os beneficiados estão
Pedro Paulo, o dono da Encol, e familiares. |
No dia 26
de abril de 1994, Pedro Paulo convocou uma reunião do conselho
diretor no salão ouro do luxuoso hotel Bonaparte Residence, em
Brasília. A pauta era a prestação de contas e a apresentação
de diretrizes para a solução da crise financeira da empresa.
A reunião começou por volta de 8h30 e durou até as
6h30 da tarde com um intervalo de duas horas para o almoço. Entre
os 26 participantes estavam os principais executivos da empresa. A estratégia
aprovada foi manipular o ritmo das obras para adequá-lo ao grau
de endividamento da empresa. "A idéia era aprontar a parte externa
dos prédios e mascarar o fato de as obras estarem parando", diz
Eduardo Gomide, o coordenador da equipe da Kroll. A ata da reunião
diz textualmente: "O cliente acompanha, em geral, os itens que aparecem
externamente (início da obra, execução da estrutura,
início da alvenaria, acabamento das fachadas e acabamentos externos).
Temos que bem administrar esses itens de maneira a atender o aspecto cliente".
"O programa foi claramente montado para enganar os clientes", diz a promotora
do caso Encol, Maria Bernadete Crispim.
Graças
a esses lançamentos, a Encol registrou lucro em 1994. Ainda assim,
as atas das reuniões lidas pelos investigadores mostram que os
diretores sabiam que os problemas financeiros da empresa eram insolúveis.
Isso, no entanto, não foi obstáculo à distribuição
de dividendos. No dia 6 de março de 1995, dois meses antes de os
protestos de títulos chegarem ao ponto de dissolver a imagem pública
da Encol, uma assembléia geral aprovou a distribuição
de dividendos de 865.000 reais para os acionistas.
Entre junho e setembro de 1995, mais de 15 milhões de reais de
dividendos foram distribuídos. "As provas materiais mostram que
todo o esforço dos diretores estava direcionado para salvar o próprio
patrimônio e não a empresa", diz Carlos Alberto Muneratti,
perito da Kroll. O golpe interno mais comum nesse período consistia
na manobra clássica feita por Pedro Paulo e outros diretores de
comprar e vender entre si equipamentos valiosos da Encol e suas subsidiárias.
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ADMINISTRAÇÃO
COM "MALÍCIA"
O relatório da Kroll destaca a ata da reunião do conselho
da Encol de 26 de abril de 1994 em que está registrada a intenção
de "maliciar a situação" (acima). Os
investimentos eram feitos majoritariamente nas fachadas dos edifícios.
"Esse programa foi montado para enganar os clientes", diz
a promotora Maria Bernadete Crispim. |
Um dos casos
em que os investigadores chegaram mais perto das provas materiais do crime
diz respeito à empresa Teccon, construtora com sede em Goiânia.
Num documento assinado, Jales Lucas Machado, assessor de planejamento
tributário da Encol, descreve os passos de uma operação
para desviar parte do patrimônio da empresa. Usando os créditos
dos dividendos, Pedro Paulo comprou equipamentos e máquinas de
empreiteiras da Encol e, em seguida, vendeu-os com desconto de mais de
800 000 reais a Miguel Ferreira Tartuce, membro do conselho de administração
da incorporadora. De posse das máquinas e equipamentos, Tartuce
tornou-se sócio da Teccon. Na falência da Encol, a Teccon
ficou de fora da massa falida. Tartuce se nega a falar sobre o desconto
camarada e a participação de Pedro Paulo na transação.
"Algumas coisas do passado são difíceis de explicar", diz
Tartuce.
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O
GOLPE DA TECCON
O documento ao lado relata as instruções de como desviar
o patrimônio da Encol sem chamar a atenção. Para
a Kroll, o desvio foi implementado com sucesso em 1995, ano em que
os protestos dos títulos se tornaram críticos. Máquinas
e equipamentos trocaram de mãos na cúpula da Encol e
apareceram na Teccon, uma construtora de Goiânia. |
Em 1992,
a Encol recebeu uma linha de crédito do Banespa no valor de 10
milhões de dólares. A Encol International Limited, a subsidiária
em Londres, teve acesso aos créditos em contas bancárias
no exterior. De acordo com as investigações, esse dinheiro
nunca entrou no Brasil. Pior: as operações desapareceram
misteriosamente dos livros contábeis da empresa a partir de 1993.
Segundo o relatório da Kroll, há muitas provas de que os
livros contábeis apresentados no pedido de concordata em novembro
de 1997 não são os mesmos entregues na decretação
da falência em 1999. "Falsificar livros contábeis é
em si um crime muito grave", diz a promotora Maria Bernadete Crispim.
Os volumes de janeiro a outubro de 1997 apresentados na falência
estão assinados por Frederico José Navarrete Lavers. "Em
1997 estava na Espanha e assumi o cargo de diretor da Encol apenas em
abril de 1998", estranha Lavers. De posse das provas, autoridades e o
síndico da massa falida acreditam que podem recuperar parte do
patrimônio desviado por Pedro Paulo e diretores. As 42.000
famílias lesadas pela Encol esperam que esse processo seja rápido.
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CONTABILIDADE
FALSIFICADA
A Kroll destaca que o documento ao lado mostra uma flagrante irregularidade
na contabilidade da Encol. O diretor Frederico José Navarrete
Lavers assinou o livro de janeiro de 1997, um ano antes de assumir
o cargo. A lista de evidências que indicam a falsificação
dos livros da contabilidade é enorme. |
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