
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Não deu certo
Sistema
de cotas para negros, pardos
e alunos de escolas públicas desmoraliza
o vestibular da Universidade
do Estado
do Rio de Janeiro
Ronaldo França
Fotos Oscar Cabral
 |
|
"Acho
que isso não está resolvendo nada. Apenas dá
um privilégio a algumas pessoas em detrimento do direito
de outras. A lei vai contra a Constituição."
|
REPROVADO
Nome: Nino Donato Oliva
Idade: 17
anos
Cor
declarada: branca
2º
grau: escola particular
Vestibular: direito
Pontuação: 81,5
pontos |
O Brasil das ruas é, em grande parte, negro ou pardo. O Brasil
das universidades é quase que integralmente branco. É um
dos resultados mais visíveis e vergonhosos do apartheid
social que ainda vitima os descendentes de escravos africanos. Para tentar
reverter esse quadro de injustiça, foi estabelecido recentemente
em algumas universidades do país o regime de cotas. Por esse sistema,
fica reservado a estudantes negros e pardos um determinado número
de vagas. Alunos provenientes de escolas públicas, teoricamente
mais pobres do que os de escolas particulares, também foram contemplados
com essa garantia. Uma das instituições que adotaram as
cotas foi a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), por força
de leis aprovadas pela Assembléia Legislativa fluminense. No vestibular
deste ano, reservaram-se 40% das vagas para candidatos negros. Outra cota,
de 50%, foi destinada aos da rede pública. A princípio,
os dois critérios não deveriam somar-se. Mas, quando foram
divulgados os resultados dos exames, confirmou-se a previsão feita
pelos críticos do sistema: houve uma certa superposição
de ambos, o que fez com que 57% dos aprovados no vestibular da Uerj entrassem
pelo sistema de cotas. Em alguns cursos, como o de medicina, um dos mais
disputados, esse número atingiu 76%. A superposição
ocorreu porque, entre os aprovados provenientes de escolas públicas,
não havia negros suficientes para atingir a cota de 40%. A fim
de preenchê-la, a universidade foi buscar na lista de candidatos,
por ordem de classificação, os negros que haviam ficado
de fora. Desse modo, acabaram entrando na Uerj candidatos com notas bem
aquém da linha de corte dos diferentes cursos. E, conseqüentemente,
foram reprovados estudantes que, sem pertencer a nenhuma cota, obtiveram
uma pontuação magnífica no vestibular. Até
o fim da semana passada, três liminares já haviam sido concedidas
pela Justiça, obrigando a universidade a aceitar a matrícula
de alunos prejudicados.
 |
| "Sou
totalmente a favor das cotas, porque o sistema dá oportunidade
a quem sempre foi excluído. O vencedor do Big Brother
talvez não fique tão feliz quanto eu quando soube da
minha aprovação." |
APROVADA
Nome: Juliana Alves de Oliveira
Idade: 20
anos
Cor
declarada: negra
2º
grau: escola pública
Vestibular: psicologia
Pontuação: 54
pontos |
É
louvável que se procure minorar os estragos causados por séculos
de racismo e discriminação. Mas as cotas do jeito que foram
estipuladas no Rio não são a melhor forma de fazer isso.
Na verdade, trata-se de um regime que cria uma nova forma de discriminação
a discriminação contra o mérito. Nos Estados
Unidos, o primeiro país a colocar em prática políticas
compensatórias para amenizar as desigualdades entre brancos e negros,
o sistema de cotas foi julgado inconstitucional pela Suprema Corte. Não
ontem, note-se, mas em 1978. O que existe em muitas instituições
universitárias americanas são pontuações que,
no processo de admissão (lá não há vestibular),
visam a bonificar candidatos que fazem parte de minorias. Dessa forma,
compensa-se quem se viu prejudicado pela origem étnica ou social,
sem criar vagas cativas.
Fotos Reginaldo Teixeira
 |
|
"Venho
de uma família simples, estudei em escola particular com bolsa e
em colégio público. Se tivesse me inscrito como pardo, estaria entre
os primeiros lugares."
|
|
REPROVADO
Nome: Wagner Alves Pimenta
Idade: 16
anos
Cor
declarada: branca
2º
grau: escola pública
Vestibular: medicina
Pontuação: 91
pontos
|
Há ainda um outro aspecto a ser discutido: os efeitos no padrão
de ensino de uma universidade obrigada a ter uma grande quantidade de
alunos que, pelo exclusivo critério escolar, não estariam
aptos a freqüentá-la. Os defensores do sistema de cotas dizem
que o problema poderia ser sanado com a criação, dentro
da universidade, de cursos que suprissem as lacunas desses estudantes.
É mais uma idéia fora do lugar, evidentemente. Na prática,
significaria reservar uma parte da carga horária das faculdades
para aulas de matérias de 2º grau. Como isso é impossível,
já que forçosamente aumentaria a duração dos
cursos, o resultado do sistema de cotas será, a médio prazo,
a erosão na qualidade de ensino das instituições
que o adotaram. Decorrem daí dois danos: ao próprio estudante,
que não terá uma formação à altura
para praticar a profissão que escolheu, e à sociedade, que
terá de se haver com profissionais menos gabaritados. Tudo isso
acarretará, por fim, mais discriminação. Corre-se
o risco do surgimento das expressões "médico de cota" ou
"advogado de cota", para designar profissionais de formação
supostamente pouco confiável.
O imbróglio
das cotas na Uerj teve mais um fermento. Para ser considerado negro ou
pardo, bastava que o candidato se autodeclarasse como tal. Isso proporcionou
uma série de abusos, que vieram à luz depois que saiu a
lista dos aprovados. Um dos casos mais surpreendentes é o de Rachel
Grynszpan, que passou no vestibular para o curso de medicina. Judia de
origem polonesa, na hora de inscrever-se no vestibular da Uerj, ela resolveu
incluir-se entre negros e pardos. Para tirar proveito do regime de cotas,
vários candidatos brancos recorreram a longínquos antepassados
negros. Ao mesmo tempo, muitos estudantes pardos, ao se declararem brancos,
deixaram de usufruir do benefício que a lei lhes deu.
 |
| "Tenho
a típica mistura brasileira no DNA: português, negro e índio. Fiquei
na dúvida, mas optei por me declarar parda. Não sei se a cota é justa.
Ela pode fazer o nível da universidade cair." |
|
APROVADA
Nome: Lorena Gomes Rocha
Idade: 17
anos
Cor
declarada: parda
2º
grau: escola pública
Vestibular: relações
públicas
Pontuação: 50
pontos
|
A cota reservada
a alunos de escolas públicas também causou distorções
na lista de aprovados da Uerj. É uma bobagem imaginar que todos
os estudantes de escola particular são privilegiados. A maior parte
deles pertence a famílias de classe média baixa, que se
esfalfam para manter seus filhos em estabelecimentos de ensino privados.
Inúmeros candidatos que se enquadram nesse perfil foram prejudicados.
"Só estudei em escola particular porque consegui uma bolsa. É
inacreditável que tenha sido reprovado por isso", diz Wagner Alves
Pimenta, que conseguiu fazer 91 pontos no vestibular da Uerj, uma marca
excelente, e mesmo assim não entrou em medicina.
Os especialistas
em educação realmente sérios são unânimes
em afirmar que a única política compensatória efetiva
é o investimento pesado na escola pública. É numa
escola pública que proporcione formação sólida
que negros, pardos e pobres poderão encontrar a base necessária
para ascender profissional e socialmente. O abandono da escola pública
perpetua a discriminação e dá margem a iniciativas
demagógicas como a que colocou a Universidade do Estado do Rio
de Janeiro no noticiário. "Cotas ajudam apenas a mudar a cor na
universidade, não a classe social. Os pobres continuarão
excluídos", resumiu o ministro da Educação, Cristovam
Buarque.
Com
reportagem de
Silvia Rogar
|
|
 |
|
 |

|
 |