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Edição 1 791 - 26 de fevereiro de 2003
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Caça às bruxas

Chávez desiste de diálogo e aumenta
a pressão sobre seus opositores



Reuters
Hugo Chávez: de acordo com pesquisas, seria derrotado num plebiscito


O presidente Hugo Chávez sobreviveu a uma greve geral contra seu governo que durou dois meses. Na terça-feira da semana passada, num esforço para permitir que a vida na Venezuela retorne à normalidade, o governo e a oposição assinaram um acordo que prevê o abandono da violência e da retórica agressiva por ambas as partes. Não valeu a tinta usada nas assinaturas. Chávez voltou imediatamente a demonstrar, em pronunciamentos públicos, que não está nem um pouco a fim de diálogo ou consenso. Na quinta-feira, a polícia pôs na cadeia um dos líderes da greve geral, Carlos Fernández, presidente da maior associação empresarial do país. A ordem foi expedida por um juiz por crime de "rebelião civil e traição à pátria". Não é coincidência, assim, que Chávez tenha dito publicamente que os opositores mereciam ir para a cadeia. Ao desistir de qualquer diálogo político, o presidente desmoraliza a diplomacia brasileira, que tanto se esforçou para mediar o impasse entre os venezuelanos. Também fica sem sentido o Clube de Amigos da Venezuela, capitaneado pelo Brasil e Luiz Inácio Lula da Silva. Esse clube reúne países interessados na busca de uma solução negociada para a crise política em Caracas.

Hugo Chávez sente-se fortalecido pela vitória sobre a greve geral e acha que deve aproveitar o momento para esmagar de vez seus adversários políticos. Se prefere o confronto, é porque as pesquisas dizem que será derrotado se aceitar o referendo sobre seu mandato que a oposição quer realizar em agosto. "Finalmente aparecem juízes de coragem. Esse aí já foi preso tarde", disse Chávez, em relação ao empresário detido. "Fui dormir com um sorriso na boca." A prisão de Fernández mostra o clima de caça às bruxas pilotado pelo governo Chávez. Na quarta-feira, Fernández foi detido por oito agentes do serviço secreto venezuelano enquanto jantava em um restaurante de Caracas. Na mesma noite, era dada a ordem de prisão a Carlos Ortega, líder da maior confederação sindical da Venezuela, que conseguiu fugir. Para piorar a situação, foram encontrados na periferia de Caracas os cadáveres de três militares que pregaram a desobediência ao regime. A oposição insiste em que eles foram vítimas de homens armados pelos círculos bolivarianos, os grupos de apoio a Chávez criados nas periferias venezuelanas.

AP
O empresário Carlos Fernández: prisão por liderar a greve


Muita gente que participou da greve está sendo vítima da revanche do regime bolivariano. Na gigante estatal do petróleo, PDVSA, as demissões punitivas atingem um terço dos 12.000 funcionários. Em vão, os remanescentes realizam manifestações diárias exigindo a readmissão dos punidos. Chávez diz que eles não terão o emprego de volta. "Merecem cadeia", ameaça ele. O presidente ainda está longe, contudo, de poder proclamar vitória. Na semana passada, a oposição já havia recolhido 4,5 milhões de assinaturas exigindo um referendo que encurte o mandato do presidente de seis anos para quatro. Sem nenhum sinal de estabilidade à vista, a economia definha. Trinta anos atrás, a Venezuela era tão rica quanto a Espanha. Hoje, a situação é de total penúria. O PIB venezuelano caiu 7% em 2002. Neste ano, prevê o Banco Santander, deverá encolher outros 15%.

 
 
   
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