
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Fome
no socialismo
Ditador
da Coréia do Norte
se esbalda em luxo enquanto
o povo morre de fome
Gabriela
Carelli
Fotos AP
 |
 |
| Criança
subnutrida num orfanato da Coréia do Norte. À direita,
os fogos da festa de aniversário do ditador Kim Jong Il: economia
em frangalhos |

Veja também |
|
|
|
A
Coréia do Norte é um dos últimos dois bastiões
do socialismo em estado mais puro. No aspecto rigidez ideológica,
lembra a ilha de Cuba. Diferentemente da China e do Vietnã, países
que, apesar de governados por marxistas, aderiram à economia de
mercado e prosperam em ritmo acelerado, norte-coreanos e cubanos se mantêm
firmes na trincheira do verdadeiro socialismo. Mesmo que isso signifique
a opção preferencial pela pobreza. Em comum, ambos os países
têm presidente perpétuo Fidel Castro e Kim Jong Il.
Outra característica compartilhada é a incapacidade de alimentar
a própria população. Nesse aspecto, vale ressaltar
que os norte-coreanos estão muito mais esfomeados que os cubanos.
Mais de 3 milhões de pessoas morreram devido à fome na Coréia
do Norte nos últimos dez anos. Estima-se que entre 6 e 8 milhões,
de uma população de 22 milhões de habitantes, dependam
da ajuda internacional para se alimentar. Quase 50% das crianças
abaixo de 5 anos sofrem de subnutrição crônica.
O que deu errado por lá foi a aplicação prática
do socialismo de acordo com a cartilha mais radical. O planejamento central
da economia não gerou uma indústria que se preze. A coletivização
do campo resultou numa agricultura precária. Um ciclo perverso
de secas e inundações nos últimos anos completou
o serviço iniciado pela opção ideológica do
regime. País mais isolado que existe, a Coréia do Norte
praticamente só mantém relações comerciais
com a vizinha China. Seu produto interno bruto é de 22 bilhões
de dólares equivalente a 3% do PIB da Coréia do Sul,
a parte capitalista da península. É espantoso que, apesar
desse estado de penúria, o país tenha parado na semana passada
para celebrar, em escala monumental, os 61 aninhos de Kim Jong Il, chamado
por lá de "Estimado Líder". Seu pai, Kim Il Sung, de quem
herdou o cargo, era o "Grande Líder". Como numa monarquia, o aniversário
do manda-chuva vermelho é uma data magna da pátria.
Reuters
 |
AFP
 |
|
Desfile oficial nas comemorações
do nascimento do ditador e, à direita,
alimentos doados pelo Japão: fome
matou 3 milhões numa década
|
King
Jong Il está envolvido num jogo perigoso internacional. Nos últimos
meses, admitiu que vem enriquecendo urânio e que recomeçou
a produzir plutônio. Também expulsou do país os inspetores
da Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea) e se retirou
do tratado de não-proliferação nuclear. Em outras
palavras, o país dos mortos de fome dá indícios de
que está tocando um programa de armas nucleares. Os Estados Unidos,
que incluem a Coréia do Norte no Eixo do Mal, ao lado do Iraque
e do Irã, suspeitam que Kim já possa ter duas bombas nucleares
em estoque. Na semana passada, a Aiea relatou as transgressões
ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, que agora
estuda a adoção de sanções. O ditador, que
já avisou que considerará qualquer punição
internacional como uma declaração de guerra, também
ameaçou retirar-se do acordo de armistício que pôs
fim à Guerra da Coréia, em 1953. Para parar de brincar com
bombas, o regime exige maior ajuda econômica de Washington. Se não
receber algum dinheiro, Kim já deixou bem claro que está
disposto a lutar contra os 37.000 soldados americanos que protegem a última
fronteira da Guerra Fria uma cerca de arame farpado de 200 quilômetros
de extensão que separa a capitalista Coréia do Sul de sua
irmã stalinista Coréia do Norte.
Os Estados Unidos, que em represália cessaram o envio de petróleo
para a Coréia do Norte há quatro meses, decidiram ampliar
as sanções nos últimos quinze dias. A pior delas
foi a suspensão das remessas de comida à população
norte-coreana através do Programa Mundial de Alimentos, braço
da ONU para arrecadação e distribuição de
alimentos. Os americanos contribuíram com mais da metade dos 3,3
milhões de toneladas de alimentos entregues pela ONU aos norte-coreanos
desde 1995. Sem a participação deles, só serão
distribuídas neste ano 77.000 toneladas, em vez das 511.000 toneladas
previstas. "Há rumores de que Kim Jong Il esteja desviando comida
para seu Exército, e os americanos não vão voltar
atrás até que isso se resolva", disse a VEJA James Morris,
diretor-geral do Programa Mundial de Alimentos.
A preocupação de Morris e de outros funcionários
das Nações Unidas que se empenham em ajudar a alimentar
os norte-coreanos é que o número de pessoas atingidas pela
falta de comida aumenta a cada dia. Não, evidentemente, na mesa
da caciqueria socialista. As velinhas do aniversário de Kim Jong
Il foram sopradas num jantar cinematográfico em seu palácio
de sete andares, na capital do país. Na mesa estavam algumas das
iguarias que o Estimado Líder importa da Europa em aviões
destacados especialmente para abastecer as despensas palacianas. Os convidados,
membros da elite, levaram como lembrancinhas bebidas e biscoitos. Trabalhadores
das fazendas estatais que abastecem o palácio também ganharam
um presente especial no dia da festa: eles desfrutaram luz elétrica
por 24 horas seguidas, um luxo na Coréia do Norte. A maioria de
esfomeados não sentiu sequer o cheiro das guloseimas.
O repórter inglês Clive Myrie, da BBC, esteve recentemente
na Coréia do Norte. Foi disfarçado de turista, pois o país
não permite a entrada de jornalistas. Num determinado momento,
aproveitando-se da distração dos agentes secretos que vigiavam
os turistas, ele visitou uma série de lojas a poucos passos da
Praça Kim Il Sung, a principal da capital. O que encontrou foram
prateleiras vazias. Numa loja havia apenas algumas maçãs.
Em outra, todo o estoque se constituía de fatias de pão.
Por fim, ele achou um supermercado de verdade, abarrotado de comida importada,
eletrodomésticos e bebidas mas com entrada permitida apenas
aos manda-chuvas do regime, que pagam suas compras com dólares
ou euros. Um vidro de café instantâneo custava o equivalente
a 7 dólares, em alguns casos metade do salário mensal de
um trabalhador norte-coreano.
A situação do país já era difícil no
governo de Kim Il Sung, o fundador da dinastia. Mas então a Coréia
do Norte se beneficiava do comércio camarada com os países
do bloco soviético. A derrocada do comunismo no Leste Europeu foi
um golpe mortal. Desde 1994, quando o Estimado Líder herdou a Presidência
perpétua, a economia só piora. "Foi justamente nos anos
seguintes à posse de Kim Jong Il que os indicadores econômicos
pioraram", disse a VEJA o americano Derek Mitchell, do Centro de Estudos
Internacionais e Estratégicos, em Washington. De acordo com um
estudo coordenado por Mitchell sobre as diferenças entre as duas
Coréias, em oito anos a mortalidade infantil no norte disparou
155%. Há 5.100 telefones para cada 100.000 norte-coreanos. A Coréia
do Sul tem mais telefones que habitantes. Se existem riquezas no reino
do Camarada Kim, elas pertencem a ele e a sua indústria bélica.
Apesar de não poder alimentar seu povo, ele continua a torrar recursos
na construção de instalações nucleares e no
sustento do quarto maior Exército do mundo, com 1,2 milhão
de soldados.
Vista do exterior, a festança de aniversário parece de mau
gosto. Na Coréia do Norte, a extravagância faz parte de um
culto de personalidade enraizado na cultura local. Apesar da ideologia
démodé, o líder é visto como o descendente
de uma dinastia. É algo que se encaixa perfeitamente nas tradições
imperiais da Coréia. "Kim pai misturou os valores do filósofo
chinês Confúcio com o socialismo para construir um Estado
comunista-religioso", diz Derek Mitchell. "Ele devia ser cultuado como
um Deus." Há três anos, o ditador saiu pela primeira vez
de seu isolamento imperial para um encontro histórico com o presidente
da Coréia do Sul. De lá para cá, Kim Jong Il deixou
de ser o misterioso ditador do norte e conquistou certa popularidade no
exterior. Seu estilo inusitado de se vestir e de cortar os cabelos na
forma de porco-espinho faz sucesso na Coréia do Sul. Um grupo de
sul-coreanos até abriu um fã-clube só para ele na
internet. Óculos iguaizinhos aos de Kim Jong Il são vendidos
por 400 dólares em Seul. Há dois anos, ele viajou para Moscou
num trem blindado. Um de seus acompanhantes, um guarda-costas russo, escreveu
mais tarde um livro com detalhes picantes da viagem. Contou que o líder
norte-coreano tem uma equipe de moçoilas para servi-lo sexualmente,
morre de medo de viajar de avião e adora andar de barquinho na
piscina de ondas artificiais de seu palácio.
|
|
 |