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Edição 1 791 - 26 de fevereiro de 2003
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O que vem depois
de Saddam


AP
ECONOMIA EM FRANGALHOS
Comércio de rua em Bagdá: a maioria dos iraquianos depende das cestas básicas distribuídas pelo governo


Veja também
Nesta edição
Por que eles odeiam Bush?
Quem é o inimigo?
 

Em profundidade

As guerras dos EUA

O plano de batalha do presidente George W. Bush é bem conhecido. Exceto por um milagre que leve Saddam Hussein a entregar pacificamente o poder, em breve o Exército dos Estados Unidos vai invadir o Iraque e depor o ditador. Menos claro é o que os EUA preparam para o dia seguinte, quando Bagdá amanhecer ocupada pelos militares americanos. Aí começará a maior de todas as encrencas: o que fazer com o Iraque depois da queda de Saddam. A princípio, o país deverá ser comandado por um general americano por um período máximo de dezoito meses. Caberia ao militar a tarefa de iniciar um processo de democratização e reconstrução – na linha do que ocorreu com a Alemanha e o Japão depois da II Guerra – capaz de servir de modelo aos outros países da região. Em vista da turbulenta história do Iraque, em vez de lembrar os exemplos da Alemanha e do Japão, exaustivamente citados pela Casa Branca, seria mais prudente recordar as desastrosas experiências de remodelação política tentadas por Washington no Haiti, no Afeganistão e na ex-Iugoslávia. Depois da intervenção armada americana em 1994, o Haiti continuou mergulhado no caos político e econômico. No Afeganistão, na Bósnia e em Kosovo, só as forças de paz da ONU impedem que as etnias rivais voltem a matar umas às outras. Não será surpresa se já no primeiro dia da era pós-Saddam o Iraque se transformar na Iugoslávia do Oriente Médio.

Muito do que vai acontecer depende do modo como terminará o atual regime. Se a população civil e a infra-estrutura forem devastadas pelo ataque americano, os Estados Unidos terão trabalho dobrado para ganhar a confiança dos iraquianos. Caso um general iraquiano tome a iniciativa de um golpe de Estado (a opção dos sonhos em Washington), os expurgos sangrentos dos quadros do antigo regime serão inevitáveis – e, por conseqüência, pode-se arquivar a idéia de democracia e reconciliação nacional. Em qualquer circunstância, o súbito colapso do regime de terror mantido por Saddam pode escancarar as portas para um brutal acerto de contas entre grupos étnicos e clãs oprimidos e seus antigos algozes. Apesar do tamanho da encrenca em que está se metendo, o governo americano ainda não tem um plano fechado de como vai conduzir a transição para a democracia após a queda de Saddam. Por enquanto, os esforços se resumem a uma tentativa de aproximar a fragmentada oposição no exílio para que ela chegue a um acordo sobre uma pauta de discussões. Uma idéia é a nomeação de uma comissão de notáveis iraquianos e representantes dos três principais grupos étnicos (xiita, sunita e curdo). "Não queremos um general americano comandando um país islâmico por muito tempo", disse o secretário de Estado Colin Powell, na semana passada. Outra idéia para evitar que as facções saiam a campo para saldar as dívidas de sangue é transformar o Iraque numa federação com seis regiões autônomas, de acordo com afinidades étnicas. O risco da proposta é incentivar incêndios separatistas por todo o Oriente Médio.

O Iraque nasceu de uma costura malfeita no fim da I Guerra. Para criá-lo, a Inglaterra reuniu três províncias do antigo Império Otomano, cada uma dominada por um grupo étnico tradicionalmente inimigo dos outros dois. Esses três grupos majoritários, que se subdividem em tribos e clãs, convivem precariamente. Dois deles são árabes e muçulmanos – divididos entre a maioria xiita, concentrada no sul do Iraque, e os sunitas, no centro. Os curdos, que são muçulmanos mas não árabes, vivem no norte. Há também minorias de cristãos, assírios e turcomanos. A minoria sunita, à qual pertence Saddam, conquistou o poder político, militar e econômico reprimindo os demais. O que tira o sono de Saddam é a sina geográfica que concentrou as reservas petrolíferas exatamente nas áreas em que curdos e xiitas são majoritários. Ele tentou mudar essa realidade com uma limpeza étnica na região curda, que culminou, em 1988, com uma ofensiva com armas químicas. Os curdos estão hoje protegidos num enclave autônomo no norte do Iraque, vigiado pela aviação dos Estados Unidos. No sul, uma revolta da população xiita, sempre tratada como gente de segunda classe, foi abafada com um banho de sangue depois da Guerra do Golfo, em 1991.

Não será fácil apagar as feridas abertas pelo legado de perseguições e massacres ocorridos ao longo de 23 anos de ditadura. Além dos 200.000 iraquianos perseguidos, barbaramente torturados e mortos pelo regime, 1 milhão deles foram expulsos de sua terra e outros 3 milhões fugiram para o exílio. Em Washington, muitos figurões do governo Bush vêem a guerra como uma oportunidade de espalhar o vírus da democracia numa região dominada por tiranias corruptas. Um cenário mais realista é o de que o conflito provoque uma crise de instabilidade no Oriente Médio, com desordens antiamericanas nas ruas, um novo surto de terrorismo islâmico e a revisão das atuais fronteiras. Em tais circunstâncias é mais provável que as ditaduras, muitas delas amigas dos Estados Unidos, sejam derrubadas por fanáticos muçulmanos do que pela vontade popular expressa nas urnas. Turquia, Síria e Irã, que contam com minorias curdas, temem que os curdos iraquianos fomentem a criação de um Curdistão independente. O Irã, que é governado por uma teocracia xiita, prevê a chegada de levas de refugiados. A Arábia Saudita vê com preocupação uma aproximação dos xiitas iraquianos com o governo do vizinho Irã, seu arquiinimigo. Quem vai impor ordem em tais lugares?

Para se tornar um país viável, o Iraque terá de recomeçar praticamente do zero, pois nunca teve instituições sólidas nem liberdade de expressão – premissas básicas para reorganizar as forças políticas nacionais, discutir a forma de governo e criar uma nova Constituição. A economia está arruinada por uma década de sanções econômicas internacionais e pela roubalheira da família Saddam. Estima-se que a recuperação da indústria de petróleo do Iraque, que está em frangalhos, levará três anos, a um custo mínimo de 5 bilhões de dólares. A maioria da população depende totalmente das cestas básicas distribuídas pelo governo. A ONU calcula que a guerra irá criar mais de 1 milhão de refugiados, que precisarão ser abrigados e alimentados pelo exército de ocupação. Um estudo preparado pelo americano William Nordhaus, economista da Universidade Yale, estima que uma intervenção militar dentro do cenário mais otimista custaria 121 bilhões de dólares aos Estados Unidos por um período de dez anos. O cálculo inclui o impacto inicial da guerra no mercado de petróleo e gastos com tropas de combate e de manutenção de paz, ajuda humanitária e reconstrução da infra-estrutura básica do Iraque. No cenário mais perturbador previsto por Nordhaus, que inclui uso de armas de destruição de massa por Saddam, muitas baixas, a destruição dos poços de petróleo do Iraque e uma megacrise econômica mundial, o custo da guerra chegaria a estratosférico 1,6 trilhão de dólares em uma década.

Quando buscam aliados para a guerra, os Estados Unidos não estão pensando em ajuda no campo de batalha, pois dão conta facilmente do exército de Saddam. Querem parceiros para dividir a conta e o ônus moral da ocupação. O maior temor do Pentágono é que Saddam parta para a tática de terra arrasada ao pressentir a derrota. Além da possibilidade do uso de armas químicas e biológicas contra as forças invasoras, os poços de petróleo iraquianos podem se tornar um alvo fácil de vingança para o ditador. Seria a repetição da estratégia usada durante a retirada das tropas iraquianas do Kuwait, em 1991, quando os poços do emirado foram incendiados por ordem de Saddam. Na época, foram necessários oito meses e 2 bilhões de dólares para apagar os incêndios. A CIA dispõe de informes segundo os quais pelo menos 1.500 poços iraquianos foram minados – o dobro dos existentes no Kuwait. O estrago seria suficiente para comprometer a produção iraquiana por três anos e causar profunda crise mundial de petróleo. O impacto econômico para os Estados Unidos seria ainda mais devastador, pois a produção de petróleo do Iraque deverá ser usada pelo governo americano para abater os custos da guerra e da reconstrução. Ninguém sabe como vai terminar a faxina americana no Oriente Médio.

 
 




   
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