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O que vem depois
de Saddam
AP
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ECONOMIA
EM FRANGALHOS
Comércio de rua em Bagdá: a maioria dos iraquianos depende
das cestas básicas distribuídas pelo governo |

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O plano de
batalha do presidente George W. Bush é bem conhecido. Exceto por
um milagre que leve Saddam Hussein a entregar pacificamente o poder, em
breve o Exército dos Estados Unidos vai invadir o Iraque e depor
o ditador. Menos claro é o que os EUA preparam para o dia seguinte,
quando Bagdá amanhecer ocupada pelos militares americanos. Aí
começará a maior de todas as encrencas: o que fazer com
o Iraque depois da queda de Saddam. A princípio, o país
deverá ser comandado por um general americano por um período
máximo de dezoito meses. Caberia ao militar a tarefa de iniciar
um processo de democratização e reconstrução
na linha do que ocorreu com a Alemanha e o Japão depois
da II Guerra capaz de servir de modelo aos outros países
da região. Em vista da turbulenta história do Iraque, em
vez de lembrar os exemplos da Alemanha e do Japão, exaustivamente
citados pela Casa Branca, seria mais prudente recordar as desastrosas
experiências de remodelação política tentadas
por Washington no Haiti, no Afeganistão e na ex-Iugoslávia.
Depois da intervenção armada americana em 1994, o Haiti
continuou mergulhado no caos político e econômico.
No Afeganistão, na Bósnia e em Kosovo, só as forças
de paz da ONU impedem que as etnias rivais voltem a matar umas às
outras. Não será surpresa se já no primeiro dia da
era pós-Saddam o Iraque se transformar na Iugoslávia do
Oriente Médio.
Muito
do que vai acontecer depende do modo como terminará o atual regime.
Se a população civil e a infra-estrutura forem devastadas
pelo ataque americano, os Estados Unidos terão trabalho dobrado
para ganhar a confiança dos iraquianos. Caso um general iraquiano
tome a iniciativa de um golpe de Estado (a opção dos sonhos
em Washington), os expurgos sangrentos dos quadros do antigo regime serão
inevitáveis e, por conseqüência, pode-se arquivar
a idéia de democracia e reconciliação nacional. Em
qualquer circunstância, o súbito colapso do regime de terror
mantido por Saddam pode escancarar as portas para um brutal acerto de
contas entre grupos étnicos e clãs oprimidos e seus antigos
algozes. Apesar do tamanho da encrenca em que está se metendo,
o governo americano ainda não tem um plano fechado de como vai
conduzir a transição para a democracia após a queda
de Saddam. Por enquanto, os esforços se resumem a uma tentativa
de aproximar a fragmentada oposição no exílio para
que ela chegue a um acordo sobre uma pauta de discussões. Uma idéia
é a nomeação de uma comissão de notáveis
iraquianos e representantes dos três principais grupos étnicos
(xiita, sunita e curdo). "Não queremos um general americano comandando
um país islâmico por muito tempo", disse o secretário
de Estado Colin Powell, na semana passada. Outra idéia para evitar
que as facções saiam a campo para saldar as dívidas
de sangue é transformar o Iraque numa federação com
seis regiões autônomas, de acordo com afinidades étnicas.
O risco da proposta é incentivar incêndios separatistas por
todo o Oriente Médio.
O Iraque
nasceu de uma costura malfeita no fim da I Guerra. Para criá-lo,
a Inglaterra reuniu três províncias do antigo Império
Otomano, cada uma dominada por um grupo étnico tradicionalmente
inimigo dos outros dois. Esses três grupos majoritários,
que se subdividem em tribos e clãs, convivem precariamente. Dois
deles são árabes e muçulmanos divididos entre
a maioria xiita, concentrada no sul do Iraque, e os sunitas, no centro.
Os curdos, que são muçulmanos mas não árabes,
vivem no norte. Há também minorias de cristãos, assírios
e turcomanos. A minoria sunita, à qual pertence Saddam, conquistou
o poder político, militar e econômico reprimindo os demais.
O que tira o sono de Saddam é a sina geográfica que concentrou
as reservas petrolíferas exatamente nas áreas em que curdos
e xiitas são majoritários. Ele tentou mudar essa realidade
com uma limpeza étnica na região curda, que culminou, em
1988, com uma ofensiva com armas químicas. Os curdos estão
hoje protegidos num enclave autônomo no norte do Iraque, vigiado
pela aviação dos Estados Unidos. No sul, uma revolta da
população xiita, sempre tratada como gente de segunda classe,
foi abafada com um banho de sangue depois da Guerra do Golfo, em 1991.
Não
será fácil apagar as feridas abertas pelo legado de perseguições
e massacres ocorridos ao longo de 23 anos de ditadura. Além dos
200.000 iraquianos perseguidos, barbaramente torturados
e mortos pelo regime, 1 milhão deles foram expulsos de sua terra
e outros 3 milhões fugiram para o exílio. Em Washington,
muitos figurões do governo Bush vêem a guerra como uma oportunidade
de espalhar o vírus da democracia numa região dominada por
tiranias corruptas. Um cenário mais realista é o de que
o conflito provoque uma crise de instabilidade no Oriente Médio,
com desordens antiamericanas nas ruas, um novo surto de terrorismo islâmico
e a revisão das atuais fronteiras. Em tais circunstâncias
é mais provável que as ditaduras, muitas delas amigas dos
Estados Unidos, sejam derrubadas por fanáticos muçulmanos
do que pela vontade popular expressa nas urnas. Turquia, Síria
e Irã, que contam com minorias curdas, temem que os curdos iraquianos
fomentem a criação de um Curdistão independente.
O Irã, que é governado por uma teocracia xiita, prevê
a chegada de levas de refugiados. A Arábia Saudita vê com
preocupação uma aproximação dos xiitas iraquianos
com o governo do vizinho Irã, seu arquiinimigo. Quem vai impor
ordem em tais lugares?
Para se
tornar um país viável, o Iraque terá de recomeçar
praticamente do zero, pois nunca teve instituições sólidas
nem liberdade de expressão premissas básicas para
reorganizar as forças políticas nacionais, discutir a forma
de governo e criar uma nova Constituição. A economia está
arruinada por uma década de sanções econômicas
internacionais e pela roubalheira da família Saddam. Estima-se
que a recuperação da indústria de petróleo
do Iraque, que está em frangalhos, levará três anos,
a um custo mínimo de 5 bilhões de dólares. A maioria
da população depende totalmente das cestas básicas
distribuídas pelo governo. A ONU calcula que a guerra irá
criar mais de 1 milhão de refugiados, que precisarão ser
abrigados e alimentados pelo exército de ocupação.
Um estudo preparado pelo americano William Nordhaus, economista da Universidade
Yale, estima que uma intervenção militar dentro do cenário
mais otimista custaria 121 bilhões de dólares aos Estados
Unidos por um período de dez anos. O cálculo inclui o impacto
inicial da guerra no mercado de petróleo e gastos com tropas de
combate e de manutenção de paz, ajuda humanitária
e reconstrução da infra-estrutura básica do Iraque.
No cenário mais perturbador previsto por Nordhaus, que inclui uso
de armas de destruição de massa por Saddam, muitas baixas,
a destruição dos poços de petróleo do Iraque
e uma megacrise econômica mundial, o custo da guerra chegaria a
estratosférico 1,6 trilhão de dólares em uma década.
Quando buscam
aliados para a guerra, os Estados Unidos não estão pensando
em ajuda no campo de batalha, pois dão conta facilmente do exército
de Saddam. Querem parceiros para dividir a conta e o ônus moral
da ocupação. O maior temor do Pentágono é
que Saddam parta para a tática de terra arrasada ao pressentir
a derrota. Além da possibilidade do uso de armas químicas
e biológicas contra as forças invasoras, os poços
de petróleo iraquianos podem se tornar um alvo fácil de
vingança para o ditador. Seria a repetição da estratégia
usada durante a retirada das tropas iraquianas do Kuwait, em 1991, quando
os poços do emirado foram incendiados por ordem de Saddam. Na época,
foram necessários oito meses e 2 bilhões de dólares
para apagar os incêndios. A CIA dispõe de informes segundo
os quais pelo menos 1.500 poços iraquianos
foram minados o dobro dos existentes no Kuwait. O estrago seria
suficiente para comprometer a produção iraquiana por três
anos e causar profunda crise mundial de petróleo. O impacto econômico
para os Estados Unidos seria ainda mais devastador, pois a produção
de petróleo do Iraque deverá ser usada pelo governo americano
para abater os custos da guerra e da reconstrução. Ninguém
sabe como vai terminar a faxina americana no Oriente Médio.
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