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Quem
é o inimigo?
Vilma Gryzinski
AFP
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O
NINHO DOS FALCÕES
Bush e sua turma da pesada: ataque preventivo e colapso diplomático |

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Para
não haver dúvidas, esclareça-se desde o início:
George W. Bush não é maluco, nem energúmeno, nem
um monstro sedento de sangue. Também não está indo
à guerra contra o
Iraque para passar a mão no petróleo do país. Isso
para ficar nas concepções mais primárias a respeito
do presidente americano, fartamente expostas nas manifestações
de protesto contra a guerra. Se Bush não é isso tudo, como
é que tem sido visto e tratado como o verdadeiro inimigo do mundo
civilizado? Por que é seu retrato, com dentes de vampiro ou chifres
satânicos, que circula pelas ruas das metrópoles mundo afora?
Por que não o retrato de Saddam Hussein, um tirano que manda torturar
criancinhas na frente dos pais e tem na sua conta umas 500.000 almas de
seus próprios compatriotas, entre mortos em guerras que provocou
e vítimas da repressão? Por que, com essa folha corrida,
Saddam é deixado em paz pela fina flor das consciências compassivas
quando não tratado quase como uma vítima do imperialismo
ianque?
O
antiamericanismo automático tem seu peso, que não é
pouco, mas a imagem do presidente americano como inimigo do mundo também
é fruto da inabilidade política e da radicalização
operada no interior da Casa Branca. A formação política
incompleta de Bush, a falange de falcões de que se cercou e a influência
crescente da chamada direita cristã em sua maneira de pensar são
os três pilares sobre os quais se assenta esse fenômeno. Em
condições normais, não deveriam produzir mais do
que habitualmente se espera de um governo conservador: menos impostos
para os ricos, mais dinheiro para as Forças Armadas e mais conversa
sobre Deus. A radicalização desse conjunto de características
propiciada pelo 11 de setembro se reflete agora na animosidade despertada
pelo governo Bush. Em menos de um ano e meio, o mundo civilizado, que
se mobilizou em manifestações de simpatia à sociedade
e ao governo americanos, está dividido entre os que mantêm
o apoio aos Estados Unidos, embora se assustem com a reação
negativa da opinião pública (caso da Inglaterra), e os que
protagonizam um racha sem precedentes na aliança ocidental sobre
a qual se assentou a estabilidade planetária nos últimos
sessenta anos. O chefe da reação à guerra prometida
contra o Iraque é Jacques Chirac, o presidente da França,
político de direita e sujeito pragmático que nunca teve
pretensões de grandeza à la Charles de Gaulle. Um jornalista
da revista Time ouviu recentemente, sob sigilo, as opiniões
de um ex-ministro inglês, hoje parlamentar da oposição
conservadora, sobre Bush. Os termos que usou: "assustador", "ignorante"
e "prisioneiro da direita religiosa" que age "como uma criança
que sai correndo com uma granada sem pino na mão". Repita-se, foi
um político com impecáveis credenciais de direita que empregou
tais adjetivos, provavelmente não muito diferentes dos que circulam
nas esferas do poder por todo o mundo.
A visão de Bush como o cowboy simplório com uma abordagem
maniqueísta de um mundo dividido entre bons e maus é alimentada
pelo tom messiânico de seus pronunciamentos e também por
decisões políticas, concernentes não só a
Saddam e Osama bin Laden como ao conflito entre Israel e palestinos. Bush
pratica uma política de tolerância quase incondicional em
relação ao governo de Israel, comandado pelo virulento general
Ariel Sharon. Tem nisso o apoio da opinião pública americana,
em que as simpatias pendem maciçamente para o lado israelense,
e também a bizarra influência da direita cristã fundamentalista.
Ao contrário da direita tradicional, que tem um viés antiisraelense,
quando não infiltrações anti-semitas, essa vertente
evangélica vê na recriação do Estado judeu
um sinal divino de que a volta do Messias está próxima.
Com base nessa leitura pré-Iluminismo da Bíblia,
urge apoiar Israel enquanto se aguarda a chegada do Anticristo (Saddam?
Osama?) que precederá a batalha final para a instauração
do reino de Deus.
Não é preciso ter uma mente muito sofisticada para se arrepiar
com o lugar que esses profetas do apocalipse conquistaram no coração
do presidente americano. Mas o cerne da política externa de corte
imperial vem sendo definido por um punhado de intelectuais sofisticados,
gente saída da universidade e dos centros de estudos da elite.
Eles são chamados de neoconservadores o sufixo neo, no caso,
significando muito mais conservadores do que seus pares tradicionais.
Na esfera do governo, os dois nomes mais típicos dessa corrente
são Richard Perle (apelidos: Príncipe das Trevas, Darth
Vader) e Paul Wolfowitz. Perle preside um conselho consultivo do Pentágono
e Wolfowitz é o subsecretário da Defesa. Ambos são
os mais veementes defensores da eliminação do tirano iraquiano
pela força.
Logo depois do 11 de setembro, Wolfowitz, ex-professor na universidade
de Yale, propôs uma reação que parecia maluca na época:
atacar logo o Iraque, que não tinha nada a ver com os atentados,
em lugar do Afeganistão, o teatro de operações de
Osama bin Laden e sua trupe de fanáticos homicidas. Ele achava
que as tropas americanas se meteriam numa enorme enrascada no Afeganistão
(estava errado) e que a maior ameaça à segurança
dos Estados Unidos provinha de Bagdá. Acabou convencendo Bush,
que é quem importa, da justeza da causa. O secretário de
Defesa Donald Rumsfeld e o vice-presidente Dick Cheney nem precisaram
ser convencidos. São falcões por natureza. Condoleezza Rice,
a assessora de Segurança Nacional, outra intelectual sofisticada,
especialista em assuntos da antiga União Soviética, abraçou
a causa sem nem tentar colocá-la no contexto das relações
dos Estados Unidos com o resto do mundo. Colin Powell, o secretário
de Estado, general da reserva que levou chumbo no Vietnã, ao contrário
dos guerreiros de gabinete que o cercam, foi o último a ceder.
Mas cedeu.
A mudança de foco de Osama bin Laden para Saddam Hussein é
um dos aspectos mais difíceis de engolir da atual doutrina Bush.
O sinistro chefe do terrorismo fundamentalista, Bin Laden, que provavelmente
continua em atividade e incentivando atos imediatos contra os americanos
e todo o resto do mundo ocidental, simplesmente desapareceu do radar do
governo americano. Foi substituído pela ameaça em potencial
do Iraque de Saddam. A política de ataque preventivo, de golpear
antes que o adversário aumente sua capacidade de causar estragos,
assusta muitos interlocutores dos Estados Unidos. Não é
tanto o destino reservado a Saddam que perturba esses interlocutores.
A preocupação concentra-se mais na potencialização
da hegemonia americana, propiciada pela idéia dos ataques preventivos.
Fora dos Estados Unidos, é difícil encontrar opiniões
majoritárias em favor da guerra. Ao tentar defendê-la, com
zero de concessão à opinião alheia, o governo Bush
protagonizou um verdadeiro colapso diplomático. "Cada vez que Rumsfeld
abre a boca, eu penso: 'Lá se vai um aliado'", definiu Fareed Zakaria,
especialista em política externa que escreve para a revista Newsweek.
O
combate ao radicalismo islâmico é uma atitude que só
não interessa aos radicais do Islã. Interessa a todos que
não querem ver nenhum outro atentado de Osama bin Laden. Interessa
ainda aos que não toleram a propagação do fanatismo
religioso. E também aos que detestam assistir ao anulamento das
mulheres como acontece em certos países que fazem uma leitura reacionária
do livro sagrado dos muçulmanos. Por fim, devem torcer para a derrocada
do fanatismo islâmico todos aqueles que não aceitam colocar
em risco valores universais como democracia e liberdade de expressão.
Todos esses devem ter interesse máximo no sucesso de uma política
americana de combate ao radicalismo islâmico. As críticas
mais sensatas ao curso atual do governo Bush, no entanto, se ancoram justamente
no receio de que os Estados Unidos estejam insuflando a causa do inimigo
da civilização. "Uma guerra americana contra o Iraque, mesmo
que terminada em vitória, pode aumentar o sentimento de afronta,
humilhação, ódio e desejo de vingança que
grande parte do mundo nutre em relação aos Estados Unidos",
afirma o escritor israelense Amós Oz. "A iminência da guerra
já está rachando a aliança dos Estados democráticos
e as bases das Nações Unidas. Em última instância,
isso vai beneficiar somente as forças violentas e fanáticas
que ameaçam a paz do mundo." É bem possível que haja
exagero nessa análise e que os fatos a desmintam. Ninguém
quer imaginar um mundo em que o xeque Osama e o aiatolá George
sejam remotamente parecidos em matéria de perigo.
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