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Edição 1 791 - 26 de fevereiro de 2003
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Quem é o inimigo?

Vilma Gryzinski

 
AFP
O NINHO DOS FALCÕES
Bush e sua turma da pesada: ataque preventivo e colapso diplomático


Veja também
Nesta edição
Por que eles odeiam Bush?
O que vem depois de Saddam
 

Em profundidade

As guerras dos EUA

Para não haver dúvidas, esclareça-se desde o início: George W. Bush não é maluco, nem energúmeno, nem um monstro sedento de sangue. Também não está indo à guerra contra o Iraque para passar a mão no petróleo do país. Isso para ficar nas concepções mais primárias a respeito do presidente americano, fartamente expostas nas manifestações de protesto contra a guerra. Se Bush não é isso tudo, como é que tem sido visto e tratado como o verdadeiro inimigo do mundo civilizado? Por que é seu retrato, com dentes de vampiro ou chifres satânicos, que circula pelas ruas das metrópoles mundo afora? Por que não o retrato de Saddam Hussein, um tirano que manda torturar criancinhas na frente dos pais e tem na sua conta umas 500.000 almas de seus próprios compatriotas, entre mortos em guerras que provocou e vítimas da repressão? Por que, com essa folha corrida, Saddam é deixado em paz pela fina flor das consciências compassivas – quando não tratado quase como uma vítima do imperialismo ianque?

O antiamericanismo automático tem seu peso, que não é pouco, mas a imagem do presidente americano como inimigo do mundo também é fruto da inabilidade política e da radicalização operada no interior da Casa Branca. A formação política incompleta de Bush, a falange de falcões de que se cercou e a influência crescente da chamada direita cristã em sua maneira de pensar são os três pilares sobre os quais se assenta esse fenômeno. Em condições normais, não deveriam produzir mais do que habitualmente se espera de um governo conservador: menos impostos para os ricos, mais dinheiro para as Forças Armadas e mais conversa sobre Deus. A radicalização desse conjunto de características propiciada pelo 11 de setembro se reflete agora na animosidade despertada pelo governo Bush. Em menos de um ano e meio, o mundo civilizado, que se mobilizou em manifestações de simpatia à sociedade e ao governo americanos, está dividido entre os que mantêm o apoio aos Estados Unidos, embora se assustem com a reação negativa da opinião pública (caso da Inglaterra), e os que protagonizam um racha sem precedentes na aliança ocidental sobre a qual se assentou a estabilidade planetária nos últimos sessenta anos. O chefe da reação à guerra prometida contra o Iraque é Jacques Chirac, o presidente da França, político de direita e sujeito pragmático que nunca teve pretensões de grandeza à la Charles de Gaulle. Um jornalista da revista Time ouviu recentemente, sob sigilo, as opiniões de um ex-ministro inglês, hoje parlamentar da oposição conservadora, sobre Bush. Os termos que usou: "assustador", "ignorante" e "prisioneiro da direita religiosa" que age "como uma criança que sai correndo com uma granada sem pino na mão". Repita-se, foi um político com impecáveis credenciais de direita que empregou tais adjetivos, provavelmente não muito diferentes dos que circulam nas esferas do poder por todo o mundo.

A visão de Bush como o cowboy simplório com uma abordagem maniqueísta de um mundo dividido entre bons e maus é alimentada pelo tom messiânico de seus pronunciamentos e também por decisões políticas, concernentes não só a Saddam e Osama bin Laden como ao conflito entre Israel e palestinos. Bush pratica uma política de tolerância quase incondicional em relação ao governo de Israel, comandado pelo virulento general Ariel Sharon. Tem nisso o apoio da opinião pública americana, em que as simpatias pendem maciçamente para o lado israelense, e também a bizarra influência da direita cristã fundamentalista. Ao contrário da direita tradicional, que tem um viés antiisraelense, quando não infiltrações anti-semitas, essa vertente evangélica vê na recriação do Estado judeu um sinal divino de que a volta do Messias está próxima. Com base nessa leitura pré-Iluminismo da Bíblia, urge apoiar Israel enquanto se aguarda a chegada do Anticristo (Saddam? Osama?) que precederá a batalha final para a instauração do reino de Deus.

Não é preciso ter uma mente muito sofisticada para se arrepiar com o lugar que esses profetas do apocalipse conquistaram no coração do presidente americano. Mas o cerne da política externa de corte imperial vem sendo definido por um punhado de intelectuais sofisticados, gente saída da universidade e dos centros de estudos da elite. Eles são chamados de neoconservadores – o sufixo neo, no caso, significando muito mais conservadores do que seus pares tradicionais. Na esfera do governo, os dois nomes mais típicos dessa corrente são Richard Perle (apelidos: Príncipe das Trevas, Darth Vader) e Paul Wolfowitz. Perle preside um conselho consultivo do Pentágono e Wolfowitz é o subsecretário da Defesa. Ambos são os mais veementes defensores da eliminação do tirano iraquiano pela força.

Logo depois do 11 de setembro, Wolfowitz, ex-professor na universidade de Yale, propôs uma reação que parecia maluca na época: atacar logo o Iraque, que não tinha nada a ver com os atentados, em lugar do Afeganistão, o teatro de operações de Osama bin Laden e sua trupe de fanáticos homicidas. Ele achava que as tropas americanas se meteriam numa enorme enrascada no Afeganistão (estava errado) e que a maior ameaça à segurança dos Estados Unidos provinha de Bagdá. Acabou convencendo Bush, que é quem importa, da justeza da causa. O secretário de Defesa Donald Rumsfeld e o vice-presidente Dick Cheney nem precisaram ser convencidos. São falcões por natureza. Condoleezza Rice, a assessora de Segurança Nacional, outra intelectual sofisticada, especialista em assuntos da antiga União Soviética, abraçou a causa sem nem tentar colocá-la no contexto das relações dos Estados Unidos com o resto do mundo. Colin Powell, o secretário de Estado, general da reserva que levou chumbo no Vietnã, ao contrário dos guerreiros de gabinete que o cercam, foi o último a ceder. Mas cedeu.

A mudança de foco de Osama bin Laden para Saddam Hussein é um dos aspectos mais difíceis de engolir da atual doutrina Bush. O sinistro chefe do terrorismo fundamentalista, Bin Laden, que provavelmente continua em atividade e incentivando atos imediatos contra os americanos e todo o resto do mundo ocidental, simplesmente desapareceu do radar do governo americano. Foi substituído pela ameaça em potencial do Iraque de Saddam. A política de ataque preventivo, de golpear antes que o adversário aumente sua capacidade de causar estragos, assusta muitos interlocutores dos Estados Unidos. Não é tanto o destino reservado a Saddam que perturba esses interlocutores. A preocupação concentra-se mais na potencialização da hegemonia americana, propiciada pela idéia dos ataques preventivos. Fora dos Estados Unidos, é difícil encontrar opiniões majoritárias em favor da guerra. Ao tentar defendê-la, com zero de concessão à opinião alheia, o governo Bush protagonizou um verdadeiro colapso diplomático. "Cada vez que Rumsfeld abre a boca, eu penso: 'Lá se vai um aliado'", definiu Fareed Zakaria, especialista em política externa que escreve para a revista Newsweek.

O combate ao radicalismo islâmico é uma atitude que só não interessa aos radicais do Islã. Interessa a todos que não querem ver nenhum outro atentado de Osama bin Laden. Interessa ainda aos que não toleram a propagação do fanatismo religioso. E também aos que detestam assistir ao anulamento das mulheres como acontece em certos países que fazem uma leitura reacionária do livro sagrado dos muçulmanos. Por fim, devem torcer para a derrocada do fanatismo islâmico todos aqueles que não aceitam colocar em risco valores universais como democracia e liberdade de expressão. Todos esses devem ter interesse máximo no sucesso de uma política americana de combate ao radicalismo islâmico. As críticas mais sensatas ao curso atual do governo Bush, no entanto, se ancoram justamente no receio de que os Estados Unidos estejam insuflando a causa do inimigo da civilização. "Uma guerra americana contra o Iraque, mesmo que terminada em vitória, pode aumentar o sentimento de afronta, humilhação, ódio e desejo de vingança que grande parte do mundo nutre em relação aos Estados Unidos", afirma o escritor israelense Amós Oz. "A iminência da guerra já está rachando a aliança dos Estados democráticos e as bases das Nações Unidas. Em última instância, isso vai beneficiar somente as forças violentas e fanáticas que ameaçam a paz do mundo." É bem possível que haja exagero nessa análise e que os fatos a desmintam. Ninguém quer imaginar um mundo em que o xeque Osama e o aiatolá George sejam remotamente parecidos em matéria de perigo.

 
 
   
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