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Por que eles odeiam Bush? |
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Sentimento em geral inconseqüente, o antiamericanismo ressurgiu na semana passada como uma força política global. Em diversas capitais do mundo, milhões de pessoas foram às ruas manifestar seu descontentamento com a decisão unilateral e, aparentemente, irreversível do governo americano de invadir o Iraque e depor à força o ditador Saddam Hussein. Embora convocadas por tradicionais adversários dos Estados Unidos, as manifestações não foram orquestradas. Elas receberam a adesão espontânea das multidões até mesmo em metrópoles americanas, como Nova York e Los Angeles. O surgimento de uma opinião pública mundial, poderosa e enfurecida, contra a guerra é uma variável incômoda com a qual Bush e os generais do Pentágono não contavam. Na semana passada, ao mesmo tempo que consideravam inaceitável a idéia de trazer de volta os quase 200 000 soldados que cercam o Iraque, Bush e o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, tradicional aliado dos EUA, reuniram seus assessores para avaliar o significado do julgamento que as ruas estão ecoando.
Os governantes guerreiros conhecem há milênios o fogo da opinião pública. Na Roma antiga, nem o imperador podia salvar do ostracismo um general que voltava humilhado de uma campanha malsucedida. Napoleão convocava as multidões para apupar chefes militares desastrados. Como forma de apaziguar a opinião pública, recompensando-a pelo esforço de guerra, o imperador obrigava seus soldados a remeter para casa, na França, o resultado dos saques feitos em território inimigo. A Guerra do Vietnã não foi perdida pelos americanos na selva sufocante do sudeste asiático. Os militares americanos venceram todas as batalhas contra o Exército regular do Vietnã do Norte. A guerra foi perdida nas ruas largas de Washington, Nova York e Filadélfia, onde as passeatas pacifistas tornaram a campanha bélica politicamente insustentável na frente interna.
Na semana passada, sob o fogo do movimento antiguerra, tanto Bush quanto Blair sinalizavam que podem aguardar mais um pouco antes de disparar as ordens de ataque a Bagdá. Blair falou em dar mais três semanas a Saddam para que ele entregue aos inspetores internacionais seu arsenal de armas biológicas e químicas. Comentário do historiador inglês John Keegan, a maior autoridade viva em guerras: "Enquanto as passeatas foram apenas orquestrações anticapitalistas, antiglobalização e antiamericanas, seu poder de influenciar decisões em Washington era nulo. Agora elas têm um peso maior. A história mostra que nenhuma vitória militar pode ser saboreada sem o apoio das ruas". Ninguém espera que o presidente Bush segure os tanques apenas por pressão das ruas, mas, tanto na guerra quanto na política, questões imateriais como oportunidade e psicologia social têm de ser levadas em conta mesmo pelo ocupante do Salão Oval da Casa Branca. Foram esses fatores intangíveis que tornaram impossível para Richard Nixon aprofundar o envolvimento militar americano no Vietnã no começo dos anos 70.
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| VIETNÃ
ONTEM E HOJE Há trinta anos o exército vietnamita lutou uma guerra sangrenta contra as Forças Armadas dos Estados Unidos (foto). Hoje os vietnamitas se esforçam ao máximo para copiar o modelo econômico e o estilo de vida dos americanos nas ruas de Ho Chi Minh |
A questão central a enfrentar consiste numa resposta à pergunta: essa guerra dos americanos ao Iraque é justa? E a resposta, por enquanto, é que ela não é justa. Saddam Hussein é um criminoso, sempre se soube. Provocou guerras contra os vizinhos porque tem sede de expandir seu império petrolífero. Já praticou extermínios em massa de grupos dentro do próprio Iraque, por considerá-los hostis a seu governo, como os da etnia curda, que vivem no norte do Iraque. Saddam, além disso, mandou matar políticos que se opuseram a sua tirania, matou membros de sua própria família por considerar que o tinham traído pessoalmente, mandou torturar rivais das formas mais cruéis e, comenta-se, teria até mesmo assistido a sessões de tortura. Mantém-se no poder há duas décadas usando o medo como instrumento. Vinga-se não apenas no corpo dos desafetos. As famílias desses infelizes às vezes também vão para o calabouço aprender os caminhos do martírio. Comparar Bush e Saddam, concluindo que o americano é o Hitler da dupla, traduz má-fé ou ignorância. Os Estados Unidos possuem 8.000 ogivas nucleares estocadas e mísseis capazes de fazê-las explodir na sala de estar de qualquer governante do planeta e ninguém perde o sono com a suposição de que essas bombas estejam a caminho de sua casa. Saddam talvez tenha algumas armas biológicas e químicas, e apenas essa suposição já faz dele um risco concreto para todos os vizinhos.
Tirar Saddam do poder, com assassinato ou prisão, é uma medida justa, mas fazer uma guerra total ao povo iraquiano não é. Os inspetores da ONU encarregados de achar armas químicas ou biológicas supostamente escondidas no Iraque ainda não as encontraram. Não significa que elas não existam. Mas, até agora, não foram vistas pela ONU. E a existência dessas armas é o grande pretexto para a invasão do Iraque. É por isso que França, Alemanha e outros países querem dar mais tempo aos inspetores em sua busca, retardando uma eventual invasão. Ocorre que Bush e os guerreiros que o cercam como assessores na Casa Branca têm certeza de que há armas escondidas e que elas podem ser usadas contra os países vizinhos. Acreditam também que, mais cedo ou mais tarde, deixado impunemente no comando do Iraque, Saddam Hussein encontrará um jeito de provocar ou auxiliar um atentado terrorista contra os Estados Unidos ou outro país que considere inimigo. As conseqüências negativas de uma guerra são, no entanto, de tal envergadura que o simples impulso dos corações que habitam a Casa Branca não justifica moralmente um ataque total ao povo iraquiano.
Washington julga que tem o dever de combater o mal no mundo, especialmente o mal do tipo contagioso. Acha que a guerra contra o Iraque e sua transformação num regime decente . é uma oportunidade de combater o vírus do radicalismo no mundo islâmico e de espalhar o exemplo da democracia numa região dominada por tiranias medievais. Muitos dos que pensam com frieza a respeito desse tema acreditam que as conseqüências poderão ser as opostas das desejadas: multiplicação do ódio aos EUA e criação de um caldo de cultura para a multiplicação do radicalismo no Islã.
Impedindo ou não a guerra, a atual torrente pacifista já causou danos à imagem de Bush e dos Estados Unidos. A resistência antiamericana agora é diferente da onda que se seguiu ao ataque terrorista contra os Estados Unidos em setembro de 2001, quando Bush resolveu atacar o Afeganistão, sede do terrorismo islâmico patrocinado pelo Estado religioso dos talibãs. Os manifestantes, naquela época, colocaram os EUA como os vilões e os talibãs como vítimas, quando se sabia que os religiosos fundamentalistas daquele país davam guarida aos campos de treinamento da organização Al Qaeda, de Osama bin Laden. A situação envolvendo o Iraque neste momento é mais confusa. Ponto número 1: a suspeita de que Bush quer fazer a guerra só para se apossar dos campos petrolíferos do Iraque é infantil. As companhias petrolíferas respondem por apenas 6% da riqueza americana e há dúvida se suas ações ganhariam algum valor caso o petróleo iraquiano voltasse a jorrar no mercado mundial. "Mesmo que as companhias de petróleo americanas viessem a lucrar com a guerra, o que é discutível, seria um contra-senso de Bush favorecê-las jogando os outros 94% da economia dos EUA no prejuízo que o clima de guerra acarreta", escreveu o ensaísta alemão Rolf Weitkunat.
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Seja como for, o fato é que Estados Unidos e Inglaterra não convenceram o mundo de que a guerra é justa e representa o melhor instrumento para desarmar o Iraque. O problema com George W. Bush é que ele parece não estar se importando com as graves conseqüências de mudar artificialmente de um momento para outro o equilíbrio de forças no Oriente Médio. O que ele fará no dia em que os fuzileiros navais hastearem a bandeira americana em Bagdá? Para muitos analistas, existe um risco mensurável para a paz mundial quando se conduz uma guerra de conquista numa região conturbada e instável.
Os líderes americanos não escondem sua perplexidade diante da reação contrária da opinião pública mundial. "Sendo Saddam uma entidade do mal, o mundo deveria estar nos apoiando por decidirmos lidar com o problema", disse Condoleezza Rice, conselheira de Segurança Nacional da Casa Branca. O antiamericanismo emerge de tempo em tempo com maior visibilidade, especialmente quando os americanos movimentam sua formidável máquina bélica. Esse sentimento se alimenta, por um lado, do legítimo pavor à guerra que a maioria das pessoas tem. Outro tipo de repulsa aos EUA é o antiamericanismo sedimentado em parcela da elite intelectual européia e, por reflexo, no resto do mundo ocidental. Esse antiamericanismo é uma distorção que pode ser percebida em formas diversas, mas carrega uma origem comum. "Na história recente da humanidade, o ódio contra os Estados Unidos tem sido um dos principais vínculos estruturais entre os três tipos de totalitarismo: o fascismo, o comunismo e o islamismo", escreveu o filósofo francês Bernard-Henri Lévy. Para ele, os EUA de agora, com os dentes à mostra, foram criados pelos terroristas islâmicos que atacaram o país no dia 11 de setembro de 2001.
Os americanos são ainda odiados por um motivo mais prosaico: porque
há décadas vivem uma era de prosperidade sem igual na história
humana. Num planeta em que 45% das pessoas subsistem com menos de 2 dólares
por dia, os americanos são os beneficiários de uma opulência
que agride os brios dos países retardatários. Além
disso, os Estados Unidos têm valores, como a democracia e a liberdade
absoluta de manifestação de idéias e crenças,
que chocam todos aqueles que aprovam regimes totalitários, entre
eles os radicais islâmicos. Os EUA, como país, resultaram
da convivência das diferenças. O individualismo de seu povo
é uma característica cujos resultados são assombrosamente
positivos. Isso tudo produz ressentimento. Como diz um pensador, as pessoas
que estão gritando contra os americanos nas ruas estão certas,
mas muitas gritam pelos motivos errados.
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