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O
maninho Manet
"Manet
viu um espetáculo teatral
carioca. Seu comentário é aplicável a qualquer manifestação
cultural brasileira
dos últimos 150 anos: 'Nada pode ser
mais enfadonho e imbecil'"
Manet visitou o Rio de Janeiro em 1849. Ele mesmo, Manet, o pintor. Tinha
17 anos e passou por aqui a bordo de um navio-escola. Lendo suas cartas,
reunidas no livro Viagem ao Rio, descobri que a cidade não
mudou nada de lá para cá. Como nos tempos de Manet, tudo
continua "terrivelmente caro". Eu, por exemplo, pago 4.000 reais mensais
por um apartamentinho em Ipanema. Explica-se. Ipanema é bem menor
do que nós, forasteiros, costumamos imaginar, o que limita a oferta
de imóveis. Um lado é tomado pela favela do Cantagalo, e
ninguém, muito menos eu, quer morar perto dela. O lado oposto é
dominado pelo esgotão do Jardim de Alá, outra área
inabitável. A praia também é um esgotão, mas
um esgotão de luxo, com alto valor de mercado, assim como a Lagoa
Rodrigo de Freitas. A população local se submete a tudo
isso sem apedrejar o prefeito e a governadora. Conforme observou Manet,
"os brasileiros são preguiçosos e parecem não ter
muita energia. São gente mole, lenta". Quanto às brasileiras,
"não merecem a reputação de levianas que têm
na França".
Os estrangeiros sempre nos acusam de opressão social. Manet não
é diferente: "Neste país, todos os negros são escravos.
O poder que os brancos exercem sobre eles é extraordinário.
Tive a oportunidade de visitar um mercado de escravos: espetáculo
bastante revoltante para nós". A violência, por outro lado,
não chamou sua atenção, mas ele notou que a "milícia
local chega a ser cômica". Ou seja, a palermice de nossos policiais
já era evidente um século e meio atrás. Ultimamente,
ocorreram dois tiroteios na porta de casa. No primeiro, mataram um barraqueiro.
No segundo, feriram um meu conhecido. De acordo com O Dia, a melhor
fonte de notícias sobre o Rio de Janeiro, estamos em plena guerra
entre quadrilhas da Rocinha e do Cantagalo pelo controle do tráfico
de drogas em Ipanema. Não sei para quem devo torcer. Os traficantes
escondem a cocaína dentro dos telefones públicos. Passo
o dia inteiro no terraço, controlando o orelhão da esquina
com binóculos. No lugar do Bebedor de Absinto, Manet pintaria
hoje em dia um sujeito no orelhão da Telemar.
Manet viu um espetáculo teatral carioca. Seu comentário
é aplicável a qualquer manifestação cultural
brasileira dos últimos 150 anos: "Nada pode ser mais enfadonho
e imbecil". Ele também não ficou muito impressionado com
nossas capacidades arquitetônicas, descrevendo o palácio
do imperador como um "casebre mesquinho" e nossas igrejas barrocas como
"cobertas de dourado e sem nenhum gosto". De modo geral, Manet achou o
Rio de Janeiro "feio", acrescentando que, "agora que o conheço
a fundo, anseio ardentemente retornar à França". Em compensação,
os arredores da cidade pareceram-lhe "incomparavelmente bonitos, com a
mais bela natureza que se pode imaginar".
Num de seus passeios pelo mato, porém, foi picado por um réptil
e ficou com o pé "horrivelmente inchado". O mesmo pé, creio,
que muitos anos depois desenvolveria uma gangrena e acarretaria sua morte.
Não se pode menosprezar o papel do Brasil na história da
arte. A passagem de Manet por nossas terras foi tão traumática
que ele desistiu da carreira naval e virou pintor. Praticamente inventamos
o impressionismo.
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