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Edição 1 791 - 26 de fevereiro de 2003
Diogo Mainardi

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O maninho Manet

"Manet viu um espetáculo teatral
carioca. Seu comentário é aplicável a qualquer manifestação cultural brasileira
dos últimos 150 anos: 'Nada pode ser
mais enfadonho e imbecil'"

Manet visitou o Rio de Janeiro em 1849. Ele mesmo, Manet, o pintor. Tinha 17 anos e passou por aqui a bordo de um navio-escola. Lendo suas cartas, reunidas no livro Viagem ao Rio, descobri que a cidade não mudou nada de lá para cá. Como nos tempos de Manet, tudo continua "terrivelmente caro". Eu, por exemplo, pago 4.000 reais mensais por um apartamentinho em Ipanema. Explica-se. Ipanema é bem menor do que nós, forasteiros, costumamos imaginar, o que limita a oferta de imóveis. Um lado é tomado pela favela do Cantagalo, e ninguém, muito menos eu, quer morar perto dela. O lado oposto é dominado pelo esgotão do Jardim de Alá, outra área inabitável. A praia também é um esgotão, mas um esgotão de luxo, com alto valor de mercado, assim como a Lagoa Rodrigo de Freitas. A população local se submete a tudo isso sem apedrejar o prefeito e a governadora. Conforme observou Manet, "os brasileiros são preguiçosos e parecem não ter muita energia. São gente mole, lenta". Quanto às brasileiras, "não merecem a reputação de levianas que têm na França".

Os estrangeiros sempre nos acusam de opressão social. Manet não é diferente: "Neste país, todos os negros são escravos. O poder que os brancos exercem sobre eles é extraordinário. Tive a oportunidade de visitar um mercado de escravos: espetáculo bastante revoltante para nós". A violência, por outro lado, não chamou sua atenção, mas ele notou que a "milícia local chega a ser cômica". Ou seja, a palermice de nossos policiais já era evidente um século e meio atrás. Ultimamente, ocorreram dois tiroteios na porta de casa. No primeiro, mataram um barraqueiro. No segundo, feriram um meu conhecido. De acordo com O Dia, a melhor fonte de notícias sobre o Rio de Janeiro, estamos em plena guerra entre quadrilhas da Rocinha e do Cantagalo pelo controle do tráfico de drogas em Ipanema. Não sei para quem devo torcer. Os traficantes escondem a cocaína dentro dos telefones públicos. Passo o dia inteiro no terraço, controlando o orelhão da esquina com binóculos. No lugar do Bebedor de Absinto, Manet pintaria hoje em dia um sujeito no orelhão da Telemar.

Manet viu um espetáculo teatral carioca. Seu comentário é aplicável a qualquer manifestação cultural brasileira dos últimos 150 anos: "Nada pode ser mais enfadonho e imbecil". Ele também não ficou muito impressionado com nossas capacidades arquitetônicas, descrevendo o palácio do imperador como um "casebre mesquinho" e nossas igrejas barrocas como "cobertas de dourado e sem nenhum gosto". De modo geral, Manet achou o Rio de Janeiro "feio", acrescentando que, "agora que o conheço a fundo, anseio ardentemente retornar à França". Em compensação, os arredores da cidade pareceram-lhe "incomparavelmente bonitos, com a mais bela natureza que se pode imaginar".

Num de seus passeios pelo mato, porém, foi picado por um réptil e ficou com o pé "horrivelmente inchado". O mesmo pé, creio, que muitos anos depois desenvolveria uma gangrena e acarretaria sua morte. Não se pode menosprezar o papel do Brasil na história da arte. A passagem de Manet por nossas terras foi tão traumática que ele desistiu da carreira naval e virou pintor. Praticamente inventamos o impressionismo.

 
 
   
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