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"Sou
o oposto da Sandy"
A estrela do pop adolescente diz
que não gosta de bancar a santa,
admite que era breguinha e conta
que deixou de ser virgem
Sérgio
Martins
Claudio Rossi
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"Eu
falo o que penso, ainda que
tenha de pagar um preço por isso. Não deixo de viver
a minha vida por nada"
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Quando
tinha 17 anos, a goiana Wanessa Camargo, filha do cantor sertanejo Zezé
Di Camargo, foi convidada pela gravadora BMG para gravar um disco. Aceitou
mais que depressa e hoje, aos 20 anos, é um dos nomes mais fortes
do pop romântico rótulo inventado pelas gravadoras
para englobar artistas cuja maior especialidade são as baladas
para o público adolescente. Os três álbuns que lançou
venderam ao todo 680 000 cópias. No fim do ano passado, ela se
tornou uma das apresentadoras do programa Jovens Tardes, dirigido
pela ex-empresária de Xuxa, Marlene Mattos, na Rede Globo. Apesar
do sucesso, Wanessa não se livrou de um estigma: o de ser considerada
uma cópia de Sandy, da dupla Sandy & Junior. Sandy, que não
tem nenhum parentesco com ela, também é filha de um sertanejo,
o cantor Xororó, e foi pioneira no tal filão do pop romântico.
Para Wanessa, no entanto, as semelhanças acabam por aí.
Nesta entrevista, ela fala sobre sexo, faz autocrítica e denuncia
os preconceitos que enfrenta no mundo artístico.
Veja
Você é uma outra Sandy?
Wanessa
É claro que não. O que temos de igual é que somos
filhas de astros sertanejos e fazemos um pop romântico direcionado
para o público adolescente. Mas as semelhanças param por
aí. O nosso estilo de vida é completamente diferente. A
Sandy é reservadíssima. Eu falo o que penso, ainda que tenha
de pagar um preço alto por isso. Não deixo de viver a minha
vida por nada. Chamei a Sandy para sair algumas vezes, mas ela nunca tem
tempo livre. Se tiver de sair de madrugada com meus amigos, eu saio. A
minha mãe não gosta disso e, quando ralha comigo, costumo
responder: "Mãe, não sou a Sandy!".
Veja A Sandy sabe que você fala isso?
Wanessa
Essa não é uma frase minha. É um bordão. Toda
menina mais independente fala isso.
Veja
Que imagem você quer passar para os seus fãs?
Wanessa A
imagem de uma pessoa alto-astral, que não deixa de fazer as coisas
que lhe dão prazer. Não sou toda certinha e seria falsa
se quisesse vender essa idéia. Agora, sei que tenho responsabilidades
por ser famosa. Se alguém estiver fumando do meu lado, dou bronca.
Não quero ser fotografada ao lado de cigarros. E também
não bebo se estiver numa festa em que haja fotógrafos.
Veja Você mudou bastante seu visual desde sua estréia
artística. Teve ajuda nisso?
Wanessa
Sempre amei moda, mas me vestia mal. Usava tudo de que gostava, sem me
preocupar se os acessórios e as roupas combinavam. Brinco rosa-shocking
com sapato azul, essas coisas. As pessoas me chamavam com razão
de breguinha. Então, resolvi ter aulas de como me vestir bem. Contratei
uma personal stylist, a Manuela Carvalho, que pegava revistas, pedia para
eu apontar o que achava elegante e ia me corrigindo. Hoje sou modelo para
muitas garotas. Cansei de ver meninas usando o mesmo cabelo que eu, ainda
que não fique bem para elas.
Veja Que preocupações você tem com seu
corpo?
Wanessa
Eu emagreci 8 quilos à custa de muito regime. Dizem que fiz lipoaspiração,
mas é mentira tenho até uma barriguinha, olha só.
Na verdade, eu queria ter mais peito, diminuir o bumbum e ter mais altura
que o meu 1,59 metro. No entanto, nunca faria implante de silicone. Morro
de medo de cirurgia, tenho pavor de cicatriz, se vai aparecer ou não.
Prefiro ficar com meus sinceros e pequeninos seios. Posso ser essa coisinha
mignon, mas sou caliente. Tenho sido cantada por muita gente famosa, sabia?
Descobrem o meu telefone, falam de assuntos corriqueiros e depois me convidam
para jantar. Estou até vacinada.
Veja Alguma coisa na fama a incomoda?
Wanessa
Há uma coisa desagradável na fama que é o seguinte:
você já não sabe mais o que as pessoas querem quando
se aproximam de você. Isso me deixa meio aflita, tanto que é
um assunto que tenho discutido bastante na minha terapia.
Veja Terapia?
Wanessa
Terapia. Só escrever no meu diário, que é uma coisa
que ainda faço, já não estava adiantando. Dividir
os problemas com alguém tem sido ótimo. A terapia me deu
segurança inclusive para dar um basta no meu último namoro.
A história estava horrível, repleta de mentiras e traições
e sobrevivia apenas porque eu tinha uma idéia fantasiosa do que
é um namoro. Enxerguei isso no consultório da analista.
Veja Você conversa abertamente sobre sexo com seus
pais?
Wanessa
Sexo ainda é tabu lá em casa. Até porque meus pais
são muito ciumentos. Minha mãe chorou quando me viu dar
o primeiro beijo num namorado. Nós tínhamos de namorar atrás
do arbusto. Para mim, também não é fácil.
É difícil imaginar que meus pais fazem sexo. Quando ouço
um barulho diferente vindo do quarto deles, coloco o som no volume máximo,
tampo os ouvidos com um travesseiro e faço de conta que está
passando um filme.
Veja Você contou a eles sobre a sua primeira vez?
Wanessa
Minha
mãe questionou minha virgindade quando eu tinha 15 anos e pedi
para ir ao ginecologista. E olhe que eu era mesmo virgem. Desde então,
nunca mais tocou no assunto. Com meu pai, jamais conversei a respeito
de sexo. Ele vai ficar louco da vida quando souber que perdi minha virgindade,
porque sempre me viu como a menininha do papai. E o pior é que
ele vai saber através de VEJA... Mas, enfim, sou uma mulher, tenho
meus desejos e minhas vontades.
Veja O que você achou de a Kelly Key ter sido escolhida
para fazer a campanha contra a Aids?
Wanessa
Achei legal. Por mais que ela cante músicas que não
têm nada a ver comigo. Detesto músicas que tratam homem e
mulher de modo pejorativo, como cachorro e égua. Acho que a Kelly
é um bom nome para essa campanha, porque ela tem uma vida sexual
ativa e pode mostrar às pessoas que se cuida. É mais convincente.
Veja Você faz playback em seus shows?
Wanessa
Nunca. Desafio qualquer pessoa a ir a um show meu e dizer que faço
playback. Aliás, sou até criticada por isso. Eu prefiro
cantar com microfone em punho e mexer a mão feito uma louca a usar
playback. Já peguei artista fazendo playback e foi muito frustrante.
É achar que o público é burro.
Veja Existe alguma qualidade musical no seu trabalho?
Wanessa
Eu não sou uma grande cantora, mas estou aprendendo. Hoje, por
exemplo, não consigo ouvir o meu disco de estréia porque
acho que os vocais são muito ruins. Tenho consciência de
que meu trabalho é comercial. O povo gosta de ouvir baladas, elas
tocam mais no rádio e ajudam a vender discos. Então, temos
de investir nas baladas. Mas o meu sonho é não ficar eternamente
cantando para adolescentes.
Veja O que você está fazendo para evoluir?
Wanessa
Tenho
lido e ouvido muita coisa antiga. No meu próximo CD, penso em gravar
uma canção da Wanderléa ou da Martinha dos tempos
da jovem guarda. Como um dos próximos temas do meu programa de
televisão, Jovens Tardes, será a tropicália,
tenho procurado ouvir discos de artistas que fizeram parte do movimento.
Eu até comecei a ler um livro, chamado História Social
da Música Popular Brasileira, de José Ramos Tinhorão.
Veja Tinhorão é conhecido por desancar diversos
movimentos musicais brasileiros, entre os quais a bossa nova e o tropicalismo.
Você se chocou com alguma opinião dele no livro?
Wanessa
Está brincando! É mesmo? Eu achei que era apenas um estudo,
ainda estou na parte dos portugueses. Gosto mais quando ele relaciona
fatos políticos e sociais com a música. Faz dois anos que
comprei esse livro. Mas comecei a ler apenas agora, quando passei a apresentar
o programa.
Veja O que mais você costuma ler?
Wanessa
Adoro ler sobre religiões, devoro guias sobre budismo, espiritismo.
Também gosto de mitologia greco-romana. Meu personagem predileto
entre todos é a deusa Palas Atena, me identifico com a força
e a determinação dela.
Veja Como você administra seu dinheiro?
Wanessa
Eu trabalho desde os 14 anos, era dançarina da banda do meu pai.
Hoje, apesar de a minha mãe ser minha empresária, banco
tudo. Ela recebe 25% dos meus lucros e eu pago banda, empresário,
escritório, funcionários etc. Aplico tudo o que sobra em
fundos de investimento. São essas atitudes que me dão certa
independência. Gosto de quebrar a cara sozinha e aprender sobre
a vida em vez de ficar ouvindo conselhos da minha mãe.
Veja Você é pão-duro?
Wanessa
Com
meu dinheiro, sim. Peço mil descontos e fico de olho em liquidação.
Com o dinheiro do meu pai eu não tinha tanta piedade. Quando ia
para a Disney, sempre tinha de telefonar para pedir mais verba.
Veja Você não gasta dinheiro em lojas caras?
Wanessa
Fui
à Daslu duas vezes. Da primeira vez, cheguei sem ter idéia
de que as roupas eram tão caras. Juntei um monte de coisas e depois
dei vexame: fui deixando de lado um monte de peças à medida
que me diziam o preço. Parecia uma dona-de-casa com o orçamento
apertado no caixa do supermercado. Acho um absurdo torrar 3 000 reais
numa blusa.
Veja Seu pai começou a ganhar dinheiro quando você
tinha 9 anos. O que você lembra do período de vacas magras?
Wanessa
Minha família se sacrificava para me manter num colégio
particular, e eu me lembro de ter sofrido discriminação.
Era um colégio que se chamava Pixoxó e ficava no Jardim
Independência, aqui em São Paulo. Todo mundo chegava de carro
e minha mãe me levava a pé. A diretora da escola vivia insinuando
que a gente não iria pagar o colégio. Ela nos humilhava,
mas eu era tão insegura que nunca contei isso a meus pais. As meninas
do colégio também me ignoravam.
Veja Em 1998, seu tio Welington Camargo foi seqüestrado
em Goiânia. Depois que ele foi solto, sua família se mudou
para os Estados Unidos. Como foi essa fase?
Wanessa
Fiquei muito mal na época do seqüestro do meu tio. Tinha sentimento
de culpa, porque a polícia descobriu que eu era o alvo inicial.
Comecei a pensar: "Eu é que deveria estar no lugar do meu tio,
coitado". Para piorar, logo depois houve um incidente no meu colégio.
Nessa época, eu já estudava numa escola cara aqui em São
Paulo. Uma menina entrou na minha sala de aula gritando: "Vieram buscar
a Wanessa!" Meus seguranças haviam sido rendidos por um pessoal
de metralhadora e todo mundo me olhava como se eu fosse culpada pelo que
estava acontecendo. Na verdade, era um assalto à agência
bancária que ficava no interior do prédio. Depois disso,
voltei à escola apenas para me despedir dos amigos. Fazia tempo
que eu tinha planos de morar fora do Brasil. Queria ir para Manchester,
nos Estados Unidos, onde existe uma faculdade de música. Mas acabamos
indo mesmo para uma cidadezinha do interior da Flórida chamada
Plantation. Foi bom. Eu podia dormir de janela aberta e andar com o vidro
do carro aberto.
Veja Você e a dupla Pedro & Thiago foram proibidos
de compartilhar o mesmo programa dominical com Sandy & Junior. Essa
proibição teria partido do empresário da dupla. A
Sandy alguma vez a procurou para colocar esse assunto a limpo?
Wanessa
Não, mas tudo bem. Quando ocorreu esse veto, fui ao programa concorrente
e a audiência foi o dobro da do programa da Sandy.
Veja Você se sente alvo de preconceito no meio musical?
Wanessa
O meio artístico adora esnobar gente como eu. Tem artista que não
diz "oi" e nem sequer olha na sua cara. Outro dia fui cumprimentar um
cantor depois do show dele e recebi uma gelada. O mais engraçado
é que as coisas começaram a mudar desde que a Marlene Mattos
me convidou para apresentar o Jovens Tardes. Talvez porque a Marlene
tenha me dado algum poder de veto que eu ainda não usei.
Por exemplo, há uma turminha que foi à Ilha de Caras na
mesma época que eu, me esnobou bonito e ainda assim participou
do programa. Não sei o que passa pela cabeça dessas pessoas.
O que elas queriam de mim? Eu tinha 17 anos quando me ofereceram um contrato
com uma grande gravadora. Por que eu teria de dizer "não" ao meu
sonho de ser cantora e, em vez disso, gravar uma fitinha escondendo que
eu sou filha do Zezé Di Camargo? Tive sorte, não precisei
passar pelas agruras do meu pai no início da carreira. Vou ter
de ouvir cobranças pelo resto da vida?
Veja Há dois anos, você foi vaiada durante a
entrega do Prêmio Multishow de Música. Na época, seu
pai acusou o pessoal da gravadora Trama de ter comandado a vaia.
Wanessa
Prefiro acreditar que não foram essas pessoas. Se foram elas, não
deixa de ser curioso: boa parte do pessoal que trabalha lá ou que
é lançado pela gravadora também é filha de
gente famosa, só que da MPB, como Elis Regina e Jair Rodrigues.
Dou a maior força para que eles façam sucesso com o tipo
de música que escolheram.
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