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Sérgio
Abranches
Fala
inédita
"A
inédita fala presidencial no
Congresso foi de grande alcance
político, mas lhe faltou a dimensão
substantiva, indispensável para fixar
a agenda positiva e construir as
maiorias necessárias"
Ilustração Ale Setti
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A mensagem lida pelo presidente Luiz Inácio na sessão de
abertura oficial da nova legislatura do Congresso Nacional teve dupla
importância política. Primeiro, elevou o nível do
ritual de abertura da sessão legislativa, dando significado político
a um ato que sempre foi muito burocrático. Segundo, pode ser o
começo do esclarecimento, para o PT e a esquerda, da verdadeira
agenda do governo, de cuja coalizão são a parte principal.
Mas, embora entre para a história institucional do país,
terá pouca durabilidade na opinião pública e política,
porque não deu definições substantivas para as reformas.
O discurso não explicitou as escolhas efetivas, de rumo e conteúdo,
para as reformas.
O que faltou foi um tom mais propositivo, definindo a agenda positiva
do governo, para coroar essa importante mudança institucional.
Uma formulação mais explícita dos pontos substantivos
das reformas propostas e não apenas sua defesa genérica
daria ainda maior relevância ao ato presidencial e teria
servido como base mais concreta para o compromisso político pedido
pelo presidente Luiz Inácio ao Congresso.
A presença presidencial, inaugurada por Lula, deveria passar a
ser parte permanente dos ritos democráticos de relacionamento entre
Executivo e Legislativo. Uma coisa é o chefe da Casa Civil ler
uma mensagem do Executivo ao Legislativo sobre os planos do governo para
a nação. Ainda que o ministro seja poderoso vários
que compareceram ao Congresso eram muito poderosos, como Golbery do Couto
e Silva e Leitão de Abreu , como é, de fato, o ministro
José Dirceu, e ainda que leve ao Congresso uma mensagem explícita
do presidente, não é a mesma coisa. O presidente, no presidencialismo
de coalizão, exerce um papel de articulação político-parlamentar
similar, mas não idêntico, ao do primeiro-ministro no parlamentarismo,
além das funções presidenciais próprias do
presidencialismo. Comparecer, pessoalmente, diante do Parlamento para
defender suas propostas e propor parceria com o Congresso pode fazer toda
a diferença.
Se tivesse apresentado uma proposta substantiva, não estaria trazendo
ao Congresso apenas o diagnóstico da situação nacional
e as intenções do governo, mas definindo politicamente a
agenda para o país. Esta não se define em campanha, mas
pela ação política do presidente, no comando do governo.
Do jeito que foi, a inovação já se reveste de importância
singular. Por isso, esse ato deveria inaugurar uma nova prática
na democracia brasileira, com a substituição permanente
do chefe da Casa Civil pelo presidente da República. Mudança
que corresponde a passar do cumprimento burocrático e formal de
uma determinação constitucional a um ato político
de primeira grandeza, destinado a marcar, sempre, as relações
entre Executivo e Legislativo.
Não menos importante, mas certamente menos transcendental, foi
a declaração mais explícita e firme do presidente
de que estabilidade da moeda, equilíbrio fiscal, responsabilidade
monetária e redução do endividamento são objetivos
permanentes. Afastou a idéia de que seriam somente uma concessão
temporária aos mercados, para promover a transição
para uma "nova política econômica", supostamente alheia a
esses objetivos de política monetária e fiscal.
É
o começo do esclarecimento presidencial sobre os propósitos
reais e permanentes do governo. É, ao mesmo tempo, um passo importante
no relacionamento com seu partido, o PT, e com a esquerda, indicando que
a política macroeconômica do governo não é
a que o partido postulou e defendeu por mais de uma década. A nova
agenda ainda não está clara o bastante para delimitar uma
ruptura com o passado recente. Mas está explícita o suficiente
como herdeira e sucessora da Carta ao Povo Brasileiro, divulgada por Lula
na campanha, e se aparta em definitivo do documento aprovado no Congresso
de Olinda, A Ruptura Necessária, com o qual não é
compatível.
O discurso de Lula terá impacto no Congresso e servirá para
ajudar a pavimentar o longo e difícil caminho das reformas, propostas
por um governo sem maioria ampla e já cercadas de controvérsias
e expectativas contraditórias. O caminho será certamente
mais longo e mais difícil do que o presidente e seu grupo previam
quando eram apenas oposição. O governo já tem parte
do mapa para esse trajeto, mas ainda não parece dispor do plano
completo de viagem nem da garantia da boa chegada. A inédita fala
presidencial, inaugurando nova forma de diálogo com o Congresso,
foi de grande alcance político, mas lhe faltou a dimensão
substantiva, indispensável para fixar a agenda positiva e construir
as maiorias necessárias.
Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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