|
|
Ponto
de vista: Lya Luft O
verdadeiro ecologismo
"Quem de
verdade aprecia a natureza não é
catastrofista, não vive ameaçando de dedo em riste. Para ele,
respeitar e amar plantas, animais, o
outro e a si mesmo só é legítimo quando natural e esperançoso"
Sem maiores projetos, que os diários
já me ocupam bastante; sem nenhuma receita, pois não sou cretina;
sem otimismo falso, que não sou boba, mas também sem desesperança,
entrei em 2005 com uma experiência boa a mais na bagagem de minhas perdas
e ganhos. Reafirmei minha certeza
de que não somos apenas invejosos e ressentidos. Nem sempre nos deleitamos
na arrogância burra do preconceito e do julgamento. Nem sempre contaminamos
e estragamos o ambiente físico e emocional em que vivemos, num impulso
suicida. Não só entupimos o coração e os ouvidos,
sem falar na mente, com barulho, sujeira, tumulto, segundo o lema "quanto pior,
melhor; quanto mais feio, mais aplaudido; quanto mais agitado, mais nos seduz".
Não: às vezes a gente é melhor que isso.
Ilustração
Ale Setti
 |
Vejo
famílias que se cuidam apesar das dissidências, e me animo. Sinto
o afeto de amigos e leitores, e me emociono. Encontro raros casais que por uma
vida inteira se admiram e acarinham, e penso que nem tudo foi perdido. Acompanho
pessoas que em qualquer altura tentam se transformar, recomeçar, e fico
ainda mais otimista. O bom e o belo existem no torvelinho da violência física
ou emocional, na poeirama das aflições mais variadas, para ser apreciados
e cultivados. Por sua causa, diariamente, a gente devia agradecer a Deus (ou aos
deuses, não importa).
Mas há
mais: aqui e ali, uma pessoa descobre paraísos e os incrementa, os preserva,
entrega-os para nosso refúgio. Há gente que, em vez de destruir,
constrói; em lugar de invejar, presenteia; em vez de envenenar, embeleza;
em lugar de dilacerar, reúne e agrega. Esse é o verdadeiro ecologismo,
e concordo inteiramente com o que escreveu um dia desses meu querido Ferreira
Gullar: quem de verdade aprecia a natureza não é catastrofista,
não vive ameaçando de dedo em riste. Para ele, respeitar e amar
(plantas, animais, o outro e a si mesmo) só é legítimo quando
natural e esperançoso. Passei
um tempo brevíssimo em um resort à beira do mar. Nem Caribe nem
Bali: aqui, neste nosso Brasil. Se puder, voltarei: ali a mata praticamente intacta
nos bota no colo diante do mar tranqüilo. Nem a piscina com casais e crianças
perturba o ambiente. Conforto e aconchego substituem luxo e ostentação.
Ali reina gentileza, não assédio. Alegria, não solenidade.
Bem-estar sem espalhafato. A pequena
enseada é um abraço; o cheiro de mato é um chamado, o reflexo
das embarcações no mar convida a celebrar a vida numa intimidade
com o mundo que a gente esqueceu na agitação cotidiana. Na areia
breve colhem-se conchas que desapareceram das praias povoadas. Andar por ali nos
devolve a momentânea inocência primordial, perdida nos tsunamis do
que se chama civilização.
Parece utopia em pleno reinado da violência, da superficialidade quase doentia,
eventualmente da maldade que grassa por aí, mas é real ainda que
raro. E tem mais: algumas pessoas conseguem criar atmosferas parecidas em sua
própria casa, seu grupo de amigos ou colegas e isso se faz simplesmente
existindo. Não é preciso aprender decoração, técnicas
orientais ou requintes ocidentais: tudo nasce da nossa filosofia de vida, se a
tivermos. O que me faz acreditar, como as crianças, que eventualmente o
bem não é esmagado desde que a gente consiga parar, olhar,
escutar e se transformar um pouco que seja.
Afirmo aqui, como se fosse primeiro do ano, minha esperança de que a gente
se humanize um pouco, se de verdade quisermos isso. Como um contraponto à
violência, à corrupção, à inveja, à ignorância,
bem que as coisas podiam melhorar. Por exemplo: a gente não leria nos jornais
diários que mais uma criancinha foi devorada por um cão feroz cujo
dono se descuidou criminosamente. Talvez até a loucura se invertesse. E
por que não? Lya Luft
é escritora
|