|
|
Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo Sob
o signo da tortura
Com
a mesma insistência burra, ela se faz
presente tanto nas prisões dos EUA como
na Febem de São Paulo "Dali
para dentro Deus não entra. Se entrar, a gente dependura ele no pau-de-arara."
(Sargento da Polícia do Exército, durante a ditadura militar, apontando
para a cancela do quartel da Vila Militar. Citado no livro A Ditadura Escancarada,
de Elio Gaspari.) Várias
décadas depois daquele tempo em que era praticada com banal assiduidade
por um aluvião de ditaduras, na América Latina e em outras partes,
a tortura continua viva e faceira no centro como nos arrabaldes deste mundo.
No centro, sob o alto patrocínio do governo dos Estados Unidos. Nos arrabaldes,
em lugares como a Febem de São Paulo. Nunca Más, reclamava,
em seu título, um famoso livro publicado na Argentina depois da queda do
regime militar, inventariando os casos de tortura, desaparecimento e assassinatos
do período. Brasil: Nunca Mais, repetiu a versão brasileira
de trabalho semelhante. O "nunca mais" dos títulos soava firme como uma
decisão. Para além dos países e das circunstâncias,
tinha um significado universal. "Acorda, humanidade", queria dizer. "Já
não é tempo?" Não era tempo. A humanidade não acordou.
O presidente George W. Bush desfilou
em triunfo pela Avenida Pensilvânia, que liga o Congresso e a Casa Branca,
para celebrar sua segunda posse, na semana passada, na condição
de presidente cujo governo não só tem contra si algumas dezenas
de denúncias de tortura como também produziu, no recesso dos gabinetes,
documentos que a entronizam como política oficial. Em agosto de 2002, para
citar um só deles, o último a vir à tona, um memorando do
Departamento de Justiça autorizava o uso de vinte técnicas específicas
de "interrogatório", inclusive a de mergulhar demoradamente a cabeça
do preso na água, modalidade muito conhecida nesta banda podre das Américas
que é seu lado Sul. Relatórios produzidos pelo próprio FBI,
a polícia federal americana, falam de prisioneiros amarrados por até
24 horas seguidas em posição fetal, e durante esse tempo melecados
de urina e das próprias fezes, na base de Guantánamo. Outros eram
trancados em quartos congelados ou aquecidos até o limite. Um preso, largado
num quarto superaquecido, deu-se ao desatino de arrancar o próprio cabelo.
Em São Paulo, na unidade da
Febem do bairro da Vila Maria, o último dia 11 foi de farra. Nesse dia,
funcionários deram-se ao esporte de invadir, dois a dois, as celas onde
estavam trancafiados os menores, e espancá-los com barras de ferro. Acertaram
as vítimas no peito, nas costas, nas pernas, na cabeça e no rosto.
No exame de corpo de delito realizado quando o caso veio a público, 84
meninos mostravam sinais de espancamento.
Por que a permanência da tortura, tão difícil de largar, por
parte das sociedades humanas, como um vício? Por um motivo tão simples
quanto equivocado: muita gente, talvez a maioria, ainda crê que ela é
eficaz. Serviria para arrancar a confissão do culpado, em certos casos,
e em outros para, por meio do castigo, fazê-lo "se emendar". Sabem-se, em
relação ao primeiro ponto, quantas falsas confissões a tortura
provoca. Sob seus efeitos, o comum é confessar o que o torturador pede
e mais um pouco. Em relação ao culpado, ou suposto culpado, "se
emendar"... É fácil imaginar quanto, pelo contrário, se multiplica
a revolta pela presença dos EUA no Iraque, a cada novo caso de tortura.
No Brasil, o jovem infrator que é tratado a pancadas tem tudo para virar,
aí sim, um caso incorrigível de comportamento anti-social.
Há luz no fim do túnel? Para a idéia da tortura em geral,
nos termos de "nunca mais", não. A raça humana ainda terá
de gramar muita desgraça e muito desengano na matéria. Já
nos dois casos específicos há. Em São Paulo, a ação
firme do Ministério Público, da Justiça e, principalmente,
do secretário da Justiça do Estado e presidente da Febem, Alexandre
de Moraes, resultou na decretação da prisão dos 23 funcionários
identificados como torturadores no dia da farra na Vila Maria. Isso, mais a promessa
de reestruturação do órgão, redime o governo Geraldo
Alckmin da moleza com que até então tratou a questão. Resta
torcer para que, ao contrário do habitual no país, desta vez as
boas intenções sejam consistentes e duradouras.
Nos EUA, a população assiste anestesiada à renovação
de um governo que mentiu para invadir o Iraque, pisoteou sobre os direitos humanos
e se precipitou numa aventura sem desfecho positivo à vista. Mas os EUA
são um país onde as coisas têm conseqüência. Trinta
anos atrás, outro presidente republicano, Richard Nixon, iniciava em triunfo
seu segundo mandato, certo de que o incidente conhecido pelo nome de Watergate
não passava de transtorno menor. O segundo mandato não durou dois
anos. A lógica da história recente americana indica que a opinião
pública pode dormir a sono solto, como na Guerra do Vietnã, como
no escândalo de Watergate, mas um dia acorda. Se a mesma lógica prevalecer,
Bush tem um acerto de contas à sua espera. Sorte dele se isso só
ocorrer depois de encerrado o mandato que agora se inicia. |