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Livros Pagos
para elogiar Como orelhas, introduções
e prefácios servem ao compadrio literário
 Jerônimo
Teixeira
Liane Neves  Luis
Fernando Verissimo Obras que elogiou:
Era uma Vez FH, de Chico Caruso, Figurino
Uma Experiência na Televisão, de Lisette Guerra e Adriana
Leite, A Engenhosa Letícia do Pontal, de Carlos Nejar, A Noite
dos Cabarés, de Juremir Machado da Silva.
"Juremir reúne na mesma cabeça, e no mesmo estilo,
a diligência do repórter, a curiosidade do antropólogo e a
acuidade do observador cultural." | | Um
livro só merece uma introdução, afirmou o poeta americano
T.S. Eliot, quando tem qualidade suficiente para dispensar introduções.
Essa é uma lição que raros escritores brasileiros absorveram.
Longe de serem acessórios dispensáveis a um bom livro, introduções
ou orelhas assinadas são com freqüência moeda de troca do compadrio
literário. O autor do elogio confirma seu prestígio cultural e ainda
ganha um troco das editoras. O escritor elogiado recebe um empurrãozinho
na carreira. Só perde o leitor ingênuo, que acredita no aval dos
medalhões literários. Luis Fernando Verissimo, um dos escritores
brasileiros mais requisitados para prefácios e orelhas, define bem o desafio
dessa atividade: "A única arte, ou dificuldade, é escrever algo
favorável sobre um trabalho que não entusiasma sem parecer condescendente
ou falso. Em geral, isso é feito para ajudar alguém que está
começando." Como gênero
literário, a introdução (ou prólogo, ou prefácio)
tem lá sua dignidade. Samuel Johnson, o grande crítico inglês
do século XVIII, reuniu uma série de prólogos em um livro
que se tornaria clássico, Vidas dos Poetas Ingleses. Já no
século passado, o filósofo francês Jean-Paul Sartre também
se arriscou nessa seara. Seu Saint Genet deveria ser uma introdução
às obras do dramaturgo-ladrão Jean Genet, mas a prolixidade de Sartre
extrapolou todas as medidas: com quase 600 páginas, o prefácio virou
livro independente. Mais conciso, o argentino Jorge Luis Borges era autor de prólogos
primorosos. A orelha tem menos tradição,
até por ser uma invenção mais recente da indústria
editorial (no Brasil, disseminou-se a partir dos anos 1940). A praxe é
que a orelha não traga assinatura, mas volta e meia um figurão concede
seu nome para esses textinhos. Nos Estados Unidos, Stephen King, o rei do horror
barato, encontrou uma vocação paralela escrevendo elogios de orelha
para autores menos célebres. No Brasil, Jorge Amado era conhecido pela
prodigalidade dos elogios que distribuía em orelhas e prefácios.
Hoje, entre os nomes mais costumeiros nesses textos estão Verissimo, Carlos
Heitor Cony, Ruy Castro e Zuenir Ventura. As editoras pagam entre 500 e 1.500
reais por uma orelha ou prefácio. A motivação atrás
do elogio, porém, não é só financeira: o que interessa
é dar aquela força para os amigos. Às vezes, é claro,
o feitiço vira contra o feiticeiro: em 1991, Verissimo assinou a orelha
de A Noite dos Cabarés, do jornalista Juremir Machado da Silva,
hoje seu inimigo jurado os dois brigaram depois de Juremir ter questionado,
em sua coluna no jornal Zero Hora, a coragem política do pai de
Luis Fernando, o escritor Erico Verissimo, durante a ditadura militar.
Oscar
Cabral  | Carlos
Heitor Cony Obras que elogiou: A
Porta, de Heloisa Seixas, Entre Ossos e a Escrita, de Maitê Proença,
A Dor de Cada Um, de Antonio Olinto, Amizade sem Fim, de Renato
Aragão. "Como admirador
do homem Renato Aragão, desejo saudá-lo como escritor, certo estou
de que Amizade sem Fim pode figurar com mérito e dignidade na prateleira
nobre da literatura brasileira." |
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Um exemplo extremo de compadrio é
a coleção Anjos de Branco, série de livros patrocinada pelo
Conselho Federal de Enfermagem para inflar a notoriedade literária da categoria.
Os imortais da Academia Brasileira de Letras estão entre os mais entusiasmados
participantes. Antonio Olinto e Arnaldo Niskier, não contentes em figurar
como autores da série, também já fizeram prefácios
e orelhas para os colegas. Carlos Heitor Cony ainda não escreveu seu livro
para a coleção, mas já deu sua inestimável colaboração
elogiando as obras de Antonio Olinto e Renato Aragão (ele mesmo: o Didi,
de Os Trapalhões). Em uma crônica publicada há alguns
anos, Cony conta que certa vez estava escrevendo um prefácio para o livro
de um amigo quando perdeu o texto por causa de um problema no computador. Como
o livro era ruim, decidiu que não escreveria mais o prefácio. Um
bom vírus teria salvado Cony de algumas páginas constrangedoras.
Mais importante, teria poupado o leitor de muita enganação. |