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Governo O
grande salto para trás Depois de tentar oficializar
a cultura e coibir a liberdade de imprensa, o governo investe no aparelhamento
das agências reguladoras e anuncia uma reforma universitária
que agride o bom senso, a economia de mercado e o mérito acadêmico
Marcia
Foletto/Ag. O Globo
 | UNIVERSIDADE
EM REFORMA O governo quer implantar o sistema
de cotas no ensino superior: pelo projeto, as universidades públicas têm de reservar
50% de suas vagas a alunos vindos de escolas públicas, negros e indígenas |
O presidente Lula fará
um favor a seu governo e um bem ao país se der ao projeto de reforma universitária
produzido pelo MEC o mesmo destino que deu ao texto original de criação
da Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual (Ancinav), a lata de lixo.
O documento de reforma do ensino superior tem 35 páginas, 100 artigos e
nenhuma luz. A peça constitui talvez o mais frontal ataque à sociedade
aberta já tentado por um órgão de governo no Brasil. O documento
combina agressões ao bom senso, ao mérito acadêmico, à
economia de mercado e à ordem jurídica, com um desprezo solene pela
busca do conhecimento e da propriedade privada. "O conceito de meritocracia, base
da produção acadêmica, é massacrado pela proposta petista
de reforma", diz Claudio de Moura Castro, especialista em educação
superior e articulista de VEJA. Bastaria isso para
que o projeto fosse rapidamente esquecido. Mas o fato de ele ter sido pensado,
produzido e oferecido à sociedade é alarmante e torna obrigatória
a sua dissecação mais detalhada. Especialmente agora, um momento
em que outras ações de menor calibre, mas igualmente obscurantistas,
têm brotado aqui e ali nos escalões intermediários do governo
petista. Entre elas a ojeriza ao idioma inglês na cúpula da diplomacia
e a nomeação de fiscais ideológicos do PT para as agências
reguladoras da economia justamente as instâncias que exigem alto
preparo técnico e isenção acima de tudo. Beto
Barata/AE
 | PF
E MICROCRÉDITO: ISSO DEU CERTO Ao autorizar empréstimos
com desconto em folha de pagamento para trabalhadores, o governo ajudou a reduzir
os juros e aqueceu a economia; a ação da Polícia Federal (abaixo) foi outro
sucesso do governo: as megaoperações prenderam mais de 250 pessoas em 2004 | Alexandre
Campbell/Folha Imagem
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Isoladamente essas ações seriam estrelas sem brilho. Juntas, elas
formam uma constelação de péssimo desenho que não
combina com a orientação geral dada por Lula a sua administração.
Desde que o PT, em junho de 2002, rasgou os empoeirados códices leninistas
que orientavam sua atuação e deu publicidade à sua Carta
ao Povo Brasileiro, o partido tem sido uma força civilizatória no
país. Aderiu à condução responsável da economia
e aprofundou-a, deu os primeiros passos para conter os destruidores déficits
da Previdência que ameaçavam quebrar os cofres públicos. Combateu
como nenhum outro governo a corrupção oficial com megaoperações
da Polícia Federal. Enfim, acenou ao mundo seu compromisso de continuar
trabalhando na criação de uma nação pacífica,
soberana, moderna e democrática. Essa tem
sido a locomotiva do governo Lula. Por isso, destoam tanto as tentativas de oficializar
a cultura pela criação da Ancinav e a abortada idéia de coibir
a liberdade de imprensa. Somam-se a elas agora a reforma universitária
de orientação soviética e a total falta de entendimento do
papel das agências reguladoras. Diz Luiz Schymura, ex-presidente da Anatel:
"O governo faz uma política macroeconômica sólida, mas na
área regulatória emite sinais contraditórios que assustam
os investidores. Isso é um tiro no pé". São ações
que não têm força para tirar o comboio dos trilhos, mas acabam
sendo iniciativas desgastantes, que demandam energia, criam tensões inúteis
e por meses a fio levam o país a discutir se quer mesmo voltar ao passado.
O projeto da Ancinav encontrou o seu lugar na lata de lixo quase cinco meses depois
de ter sido ventilado pela primeira vez. O de censura à imprensa morreu
no Congresso, por acordo dos líderes partidários, sem nem mesmo
ter tido seus, digamos, méritos apreciados.
O que as iniciativas obscurantistas recentes dos petistas têm em comum é
sua burrice na acepção mais brasileira da palavra, que não
é apenas ignorância é também teimosia, cegueira
ideológica, preguiça, casmurrice e empacamento. As iniciativas refletem
uma espécie de autismo nacionalista. Mas também, em um tom mais
generoso, expressam desejo legítimo de reverenciar o homem comum que, como
o presidente Lula, pode ser capaz de fazer coisas incomuns e extraordinárias.
Maravilhoso no mundo ideal. Um desastre no Brasil deste começo do século
XXI, em que a economia e a sociedade estão cada vez mais expostas aos rigores
do mundo globalizado, cujos benefícios, para ser desfrutados, exigem preparo
acadêmico sólido, conhecimento de idiomas e cultura.
A proposta de reforma universitária é a mais assustadora pelo delírio,
pela intenção de elevar as massas ao estágio superior do
pensamento apenas pela boa vontade, como em um passe de mágica. Por seu
motor totalitário, a reforma só funcionaria em um regime forte como
a antiga União Soviética. Para ser implantada ela exigiria a ação
coesa de um governo plenipotenciário, disposto até mesmo a desprezar
a Constituição. Como se sabe, um governo forte o bastante para dar
aos cidadãos tudo de que eles precisam é, sempre também,
um governo forte o bastante para tirar deles tudo o que eles possuem. Diz o filósofo
Roberto Romano, da Unicamp: "Com raríssimas e maravilhosas exceções,
como o Ministério da Ciência e Tecnologia, o governo não tem
apreço pela universidade, pela ciência nem pela cultura. Hoje as
universidades federais são elementos de troca entre o poder central e as
oligarquias regionais. Valem mais pela influência política do que
pelo conhecimento que produzem". Adriano
Machado/OBritoNews
 | VITÓRIA
CONTRA O CORPORATIVISMO O ministro Roberto Rodrigues,
da Agricultura, que demitiu toda a diretoria da Embrapa na semana passada: militantes
serão substituídos por técnicos |
O Brasil tem um sério, complexo e verdadeiro problema no campo do ensino
superior. Em proporção a sua população, é um
dos países emergentes com menos gente cursando faculdades. A reforma nada
faz para minorar esse problema. Ao contrário, em nome de combater questões
que só existem nos escaninhos da mente esquerdizante dos autores do projeto,
a reforma, se vier a ser implantada, vai restringir ainda mais o acesso dos brasileiros
pobres, ricos ou remediados à universidade. O Brasil tem
cerca de 3,5 milhões de pessoas matriculadas em cursos superiores. Isso
equivale a 1,9% da população. Na Argentina esse número é
de 4,6%, no Chile, de 4,3%, e na Coréia do Sul, de 7,4%. Para alcançar
o padrão mínimo de seus concorrentes diretos no mundo globalizado,
o Brasil precisaria criar cerca de 8 milhões de vagas adicionais nas universidades
públicas e privadas. E o que propõe
a reforma? Mudanças que, ao inibir a iniciativa privada, eliminarão
milhares de vagas. O projeto asfixia as instituições particulares,
submetendo-as ao "controle da sociedade" que já se tornou o eufemismo
preferido do petismo para expressar sua desconfiança para com a atividade
empresarial e com o capitalismo. Ou seja, em vez de incentivar a criação
de mais vagas nas universidades e cuidar para que elas sejam de boa qualidade,
com inspeção rigorosa e incentivos ao mérito e punições
severas às arapucas, o projeto simplesmente dá vazão a sua
ideologia antinegócios e procura afogar as instituições privadas
em regras e proibições. Obviamente, o trabalho diuturno de fiscalizar
e garantir a qualidade dos cursos superiores é árduo, incógnito
e não tem nenhum charme revolucionário. Atraente mesmo é
promover com alarde a intervenção branca nas instituições
privadas de ensino superior em nome dos excluídos, entregando seu controle
a "representantes da comunidade". Pelo projeto do MEC, os donos das universidades
terão sua participação nos comitês que decidem a vida
acadêmica e comercial da instituição reduzida a 20%. Os demais
assentos, segundo a proposta, seriam destinados a "representantes da comunidade",
estudantes, professores, funcionários. "Isso significa uma expropriação,
pois tira dos empresários a condução de seus próprios
negócios", diz o ex-ministro da Educação Paulo Renato Souza.
Expropriar as instituições privadas
é burro, mas rende aplausos e reverências no Fórum Social
de Porto Alegre. Serão mais aplaudidos os que disserem coisas como "o problema
da educação superior no Brasil só será resolvido com
a mudança radical do modelo neoliberal importado dos Estados Unidos". Mas
atacar as instituições privadas de ensino já é um
consolo para os autores da proposta do MEC. Também o é proibi-las
de ter sócios estrangeiros com mais de 30% de participação
ou impedir a vinda para o Brasil de universidades estrangeiras. O pretexto é
a preservação do "nosso pensamento", da cultura nacional. "Resolvemos
incluir esse artigo porque o governo acredita que a universidade deve ter uma
clara identidade nacional", disse a VEJA o ministro da Educação,
Tarso Genro. O projeto do governo também proíbe que estrangeiros
ocupem cargos de comando nas universidades brasileiras, quando nas melhores instituições
do mundo o critério para a seleção de quadros é o
currículo e não a cor do passaporte. Na Coréia do
Sul, por exemplo, o reitor da Kaist, uma das mais respeitadas faculdades do país,
é um Prêmio Nobel americano. O próprio Instituto Tecnológico
de Aeronáutica, o prestigiado ITA brasileiro, teve por muitos anos departamentos
dirigidos por professores estrangeiros que o ajudaram a tornar-se referência
internacional na área de engenharia. Vale lembrar ainda que a Universidade
de São Paulo (USP), o melhor centro de ensino superior do país,
foi criada com a contratação de um robusto time de luminares europeus.
Aqui eles deixaram milhares de discípulos que hoje estão entre os
mais destacados intelectuais brasileiros.  | "INVOLUÇÃO
CULTURAL" "Inimigo do regime" é humilhado durante
a Revolução Cultural chinesa: caos econômico e padrão de vida medieval |
Itália, Espanha, França, Alemanha e Argentina têm campi de
universidades americanas de primeira linha como Yale, Harvard e Universidade de
Chicago. Desafiam a imaginação as razões pelas quais italianos,
espanhóis, franceses, alemães, argentinos, coreanos e outros povos
não vêem na presença de instituições estrangeiras
de ensino nenhum risco para sua cultura e seu pensamento. Já os autodenominados
guardiães da cultura brasileira ficam temerosos. Será que haveria
assim tanta interferência externa impura nas danças típicas,
nos passes de capoeira e nos cantos afro-brasileiros? Provavelmente não
é isso que preocupa os autores da reforma. O texto da proposta mostra que
o medo deles é da civilização, da competição,
da busca incessante pela inovação, pelo aumento da produtividade
por meio da rigorosa aceitação do método científico
e de suas exigências elitistas. Não elite econômica. Elite
de pensamento, de inteligência e de dedicação profunda e obcecada,
o que gera patentes e novos candidatos ao Prêmio Nobel.
Falta aos autores do projeto a compreensão do que seja o conhecimento e
sua obtenção. O filósofo Roberto Romano acredita que muitos
dos petistas envolvidos com o obscurantista projeto de reforma são pessoas
cultas, que apreciam uma boa leitura e sabem o mal que estão propondo ao
país. As pessoas dessa categoria, na análise de Romano, teriam,
no entanto, pouca força política para fazer valer suas idéias.
"Eles sabem pensar, têm cultura, mas estão desprovidos de poder.
São obrigados a dizer sempre amém aos incultos", diz ele, referindo-se
ao próprio ministro Tarso Genro. A inclusão
do regime de cotas nas universidades públicas prevista no projeto do MEC
é igualmente uma jogada para a platéia. O governo quer reservar
50% das vagas nessas instituições a alunos vindos de escolas públicas,
negros e indígenas. Da maneira como foi apresentada, a proposta pode até
abrir espaço na universidade para pessoas que de outra maneira não
conseguiriam cursar o ensino superior. A experiência mundial em iniciativas
desse tipo, porém, mostra que o mais lógico mas, de novo,
o mais difícil, complexo, anônimo e politicamente neutro e, por isso,
pouco atraente para a militância é universalizar o ensino
básico e secundário gratuito de modo a dar chances iguais a quem
quer tentar a aventura intelectual de cursar uma universidade de alto nível.
O debate sobre cotas é complexo e está apenas começando no
Brasil e, nesse ponto, o projeto de reforma tem pelo menos o mérito de
ter levantado a questão (veja quadro).
São bons augúrios o arquivamento do projeto da Ancinav e a vitória
obtida, na semana passada, pelo ministro Roberto Rodrigues, da Agricultura, contra
um grupo de militantes que estava desfigurando uma instituição de
primeira linha como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
Rodrigues demitiu toda a diretoria, que considerava sua missão a pesquisa
voltada para a agricultura familiar, pequenos produtores e assentados da reforma
agrária e havia premiado pelo menos dez militantes petistas com
a direção de centros de pesquisa. A presidência da Embrapa
será assumida pelo físico e funcionário de carreira da empresa
Silvio Crestana, que deve priorizar a biotecnologia e a pesquisa com transgênicos.
A Ancinav sobreviveu no noticiário e pairou
como uma ameaça sobre a cultura brasileira durante quase cinco meses, mesmo
contendo artigos claramente inconstitucionais. No primeiro projeto, o artigo 8
estabelecia, por exemplo, que "o poder público observará a exigência
de mínima intervenção na vida privada, assegurando que a
liberdade será a regra, constituindo exceção as proibições,
restrições e interferências do poder público". Ou seja,
a liberdade de expressão, cláusula pétrea da Constituição
Federal, passava a depender do humor de um burocrata da Ancinav. "Qualquer setor
da iniciativa privada deseja uma política de fomento à atividade,
mas o que o governo queria fazer era algo diferente. Uma coisa é criar
uma política para a indústria de salsichas. Outra é determinar
que, a partir de agora, só serão fabricadas salsichas de frango",
diz a advogada Ana Paula de Barcellos, professora de direito constitucional da
Uerj. Sérgio
Dutti/AE
 | DO
YOU SPEAK ENGLISH? Celso Amorim: o ministro das
Relações Exteriores não odeia o inglês; o problema são os Estados Unidos |
A história não avança como uma flecha disparada no céu
azul, rumo ao progresso e aos mais elevados estágios da inteligência
humana. Ao contrário, está cheia de idas e vindas, saltos e retrocessos,
momentos de brilho sublime entremeados a dolorosas eras de trevas. A mais emblemática
de todas essas involuções é a Revolução Cultural
promovida na China comunista entre 1966 e 1976, que impôs padrões
de vida medievais e transformou intelectuais e professores em inimigos do regime.
Foi vedado aos chineses o uso de técnicas e máquinas de origem estrangeira.
O resultado foi o caos socioeconômico, com perdas pesadas na indústria
e na agricultura. Felizmente, no Brasil do PT as iniciativas dantescas raramente
saem da esfera das más intenções. É uma esperança.
Mas é também a mostra de que em países onde a burocracia
governamental não funciona, os surtos de obscurantismo oficial também
não vingam. Dá muito trabalho. Melhor mesmo é constituir
uma comissão interministerial. Já existem duas centenas delas no
governo Lula. Uma se dedica a estudar a Sardinella brasiliensis, ou sardinha-verdadeira,
como efetivamente foi feito no Planalto. O grupo é integrado por representantes
do Ministério da Defesa, do Ministério do Meio Ambiente, do Ministério
do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, do Ministério do
Trabalho, da Secretaria da Pesca, dos Conselhos de Pesca e até de uma Pastoral
da Pesca. Além de verdadeiras, as sardinhas devem ser pecadoras. Com
reportagem de Monica Weinberg e Sérgio
Martins, de São Paulo, Marcelo Carneiro, do Rio de Janeiro,
e Otávio Cabral, de Brasília
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