|
|
Governo O
risco da involução Será o
triunfo do atraso se vingarem as tentativas petistas de oficializar a
cultura, controlar a imprensa, barrar o inglês, asfixiar a universidade...

André Petry
 |
Depois de dois anos do governo
de Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil é um país melhor.
A economia vive seu mais longo período de estabilidade em tempos democráticos.
O governo, num exercício de sensatez, já demonstrou a seriedade
de sua adesão aos instrumentos universalmente aceitos de estabilização
econômica. A política, depois da mais civilizada transição
entre adversários políticos que Brasília já viu, foi
exorcizada das fantasmagorias disseminadas contra o país e a moeda toda
vez que um candidato de esquerda Lula, em resumo surgia com chance
real de chegar ao poder. Deve-se ao governo petista o fato de que, hoje, o Brasil
é um país com uma economia ainda mais estável e uma democracia
ainda mais vigorosa. Mas, por trás desse panorama geral cuja tônica
é o avanço, há sinais desconexos, que apontam para a aversão
ao debate, a sovietização do conhecimento, o desprezo do mérito.
Do embate entre esses dois vetores do governo resultará a direção
pela qual o país vai seguir. Por enquanto, está-se no rumo evolutivo
correto. Mas, dada a constelação de disparates que o governo anda
produzindo, especialmente no que diz respeito à cultura e à educação,
não é exagero dizer que o Brasil corre sério risco de involução.
O governo já tentou controlar a produção
cultural do país, quando quis fundar uma agência para direcionar
os rumos do cinema e da televisão, a famigerada Ancinav. Já quis
coibir a liberdade de imprensa ao propor a criação de um Conselho
Federal de Jornalismo. Agora, pressionado a limar as protuberâncias autoritárias
da Ancinav e enterrar por inteiro o tal conselho de jornalismo, o governo acaba
de sair-se com a idéia de criar a Lei Geral dos Meios de Comunicação
de Massa. O estatuto nem começou a ser feito, mas mau presságio
está sob os cuidados da mesma equipe do Ministério da Cultura
que concebeu as amarras para o cinema e a TV. Numa aparente guerra aberta contra
o conhecimento, o governo também propôs uma reforma universitária
de tirar o fôlego: solapa a autonomia da universidade colocando-a sob o
jugo de corporações, faz tábula rasa da meritocracia e, a
pretexto de aprofundar vínculos da universidade com a comunidade, cai num
democratismo de base incompatível com a vida acadêmica.
Em 1858, a palavra "misologia", que significa aversão à lógica,
ao raciocínio e ao conhecimento, fez sua primeira aparição
formal na língua portuguesa, conforme datação do dicionário
Houaiss. Na semana passada, o filósofo Roberto Romano, da Universidade
Estadual de Campinas, criou o neologismo "misologocracia", querendo referir-se
aos regimes que têm horror à lógica, ao raciocínio
e ao conhecimento. E aplicou seu neologismo na testa do governo petista. "Vivemos
sob uma misologocracia", decreta ele. Não parece exagero quando se tem
em conta que o Itamaraty, nicho de excelência da burocracia brasileira,
tem uma direção que acha o conhecimento da língua inglesa
"dispensável". Não por implicância com William Shakespeare,
Jonathan Swift ou Alexander Pope. A encrenca do Itamaraty com o inglês é
que se trata da mesma língua falada pelos cowboys texanos (cujo sotaque,
dizem os especialistas, é muito parecido com o inglês falado à
época de Shakespeare), entre eles o notório presidente George W.
Bush. O Itamaraty é só o exemplo mais acabrunhante do nivelamento
por baixo que, pelas mais diversas deformações ideológicas,
vem sendo aplicado pelos chefes petistas na educação e na cultura.
Com acertos tão notórios em áreas vitais do metabolismo econômico
do país, o governo do PT não deveria correr o risco de trair a tradição
da esquerda democrática, de estar sempre ao lado da ciência, do progresso
e do conhecimento. Numa frase: a favor da inteligência. |