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André
Petry
Negro correndo?
É ladrão...
"Enquanto os negros forem, como
são, tratados feito carne de segunda
em açougue de terceira, o Brasil jamais
deixará de ser um poço de desigualdade
e injustiça social"
O caso ficou praticamente restrito
ao Rio Grande do Sul, mas é tão emblemático
que merecia ter atravessado as fronteiras gaúchas. Foi assim:
dois irmãos negros, William e Cristian Flores, de 17 e 24
anos, se encaminhavam ao local onde fariam o vestibular para engenharia
mecânica na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em
Porto Alegre. A uns dois quarteirões do prédio, faltando
poucos minutos para o fechamento dos portões, os dois resolveram
correr para evitar um atraso. No meio do caminho, foram detidos
por três policiais, com viatura e arma em punho. Os irmãos,
é claro, perderam a prova do vestibular. E por que foram
imediatamente percebidos como suspeitos?
Racismo, ora.
Como consolo, talvez os dois
estivessem malvestidos, revelando um suspeito contraste com o comum
dos vestibulandos? Errado. Vestiam-se como qualquer garoto de classe
média como eles próprios, filhos que são de
um engenheiro. Quem sabe tenham sido parados pela polícia
apenas porque estavam correndo, numa atitude que sugere uma fuga
de algum lugar? Errado. Cristian, o mais velho, conta que, como
já era tarde, havia "dois ou três" outros jovens correndo
em direção ao portão com a significativa
diferença de que eram todos brancos. Sendo inequívoco
que o racismo motivou a abordagem policial, talvez restasse o consolo
geográfico de que isso só acontece no Rio Grande do
Sul, um pedaço do país que os demais brasileiros imaginam
totalmente loiro e de olhos azuis e, por isso mesmo, menos tolerante
aos negros e mestiços.
Errado, de novo.
O caso mais dramático
de racismo e violência policial, essa conjunção
da qual 51% dos negros brasileiros já foram vítimas,
contra apenas 15% dos brancos, aconteceu em fevereiro do ano passado,
em São Paulo. O dentista Flávio Ferreira Sant'Ana
voltava do aeroporto, onde embarcara sua namorada, quando foi confundido
com um assaltante. Morreu com dois tiros disparados pelos policiais
que o abordaram e, depois da tragédia, tentaram montar a
farsa habitual: puseram uma arma na mão da vítima
para alegar que resistira à prisão a tiros. (A cena
é um vício tão recorrente da parcela degenerada
da polícia que certamente deve colocar os brasileiros como
o povo mais reativo à polícia no mundo...) Flávio
Sant'Ana foi assassinado na maior, mais rica e mais cosmopolita
cidade do país por racismo.
É óbvio que, enquanto
os negros forem, como são, tratados feito carne de segunda
em açougue de terceira, o Brasil jamais deixará de
ser um poço de desigualdade e injustiça social. A
propósito: o governo Lula não criou um órgão
com status ministerial e nome pomposo chamado Secretaria Especial
de Políticas de Promoção da Igualdade Racial?
E a secretaria não achou necessário nem mesmo distribuir
uma notinha de protesto contra a arbitrariedade ocorrida em Porto
Alegre? Ou uma manifestação qualquer de solidariedade
com os irmãos negros, que ainda amargam o prejuízo
pessoal de não ter entrado na universidade? Pois bem: há
alguns tipos de silêncio que são ensurdecedores.
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