Edição 1889 . 26 de janeiro de 2005

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Auto-retrato
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

André Petry
Negro correndo?
É ladrão...

"Enquanto os negros forem, como
são, tratados feito carne de segunda
em açougue de terceira, o Brasil jamais
deixará de ser um poço de desigualdade
e injustiça social"

O caso ficou praticamente restrito ao Rio Grande do Sul, mas é tão emblemático que merecia ter atravessado as fronteiras gaúchas. Foi assim: dois irmãos negros, William e Cristian Flores, de 17 e 24 anos, se encaminhavam ao local onde fariam o vestibular para engenharia mecânica na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. A uns dois quarteirões do prédio, faltando poucos minutos para o fechamento dos portões, os dois resolveram correr para evitar um atraso. No meio do caminho, foram detidos por três policiais, com viatura e arma em punho. Os irmãos, é claro, perderam a prova do vestibular. E por que foram imediatamente percebidos como suspeitos?

Racismo, ora.

Como consolo, talvez os dois estivessem malvestidos, revelando um suspeito contraste com o comum dos vestibulandos? Errado. Vestiam-se como qualquer garoto de classe média como eles próprios, filhos que são de um engenheiro. Quem sabe tenham sido parados pela polícia apenas porque estavam correndo, numa atitude que sugere uma fuga de algum lugar? Errado. Cristian, o mais velho, conta que, como já era tarde, havia "dois ou três" outros jovens correndo em direção ao portão – com a significativa diferença de que eram todos brancos. Sendo inequívoco que o racismo motivou a abordagem policial, talvez restasse o consolo geográfico de que isso só acontece no Rio Grande do Sul, um pedaço do país que os demais brasileiros imaginam totalmente loiro e de olhos azuis e, por isso mesmo, menos tolerante aos negros e mestiços.

Errado, de novo.

O caso mais dramático de racismo e violência policial, essa conjunção da qual 51% dos negros brasileiros já foram vítimas, contra apenas 15% dos brancos, aconteceu em fevereiro do ano passado, em São Paulo. O dentista Flávio Ferreira Sant'Ana voltava do aeroporto, onde embarcara sua namorada, quando foi confundido com um assaltante. Morreu com dois tiros disparados pelos policiais que o abordaram e, depois da tragédia, tentaram montar a farsa habitual: puseram uma arma na mão da vítima para alegar que resistira à prisão a tiros. (A cena é um vício tão recorrente da parcela degenerada da polícia que certamente deve colocar os brasileiros como o povo mais reativo à polícia no mundo...) Flávio Sant'Ana foi assassinado na maior, mais rica e mais cosmopolita cidade do país por racismo.

É óbvio que, enquanto os negros forem, como são, tratados feito carne de segunda em açougue de terceira, o Brasil jamais deixará de ser um poço de desigualdade e injustiça social. A propósito: o governo Lula não criou um órgão com status ministerial e nome pomposo chamado Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial? E a secretaria não achou necessário nem mesmo distribuir uma notinha de protesto contra a arbitrariedade ocorrida em Porto Alegre? Ou uma manifestação qualquer de solidariedade com os irmãos negros, que ainda amargam o prejuízo pessoal de não ter entrado na universidade? Pois bem: há alguns tipos de silêncio que são ensurdecedores.

 
 
 
 
topovoltar