Edição 1 633 -26/1/2000

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Notas para um dicionário brasileiro de política (4)

No décimo aniversário do início da era Collor, uma cândida repassada no vocabulário do período

Besame Mucho Bolero de autoria de Consuelo Velázquez. Ao som deste clássico, os ministros Zélia Cardoso de Mello, da Economia, e Bernardo Cabral, da Justiça, se deixaram enlevar, rostos colados, enquanto deslizavam pela pista do Clube das Nações, em Brasília, na festa de aniversário da primeira, dia 19 de setembro de 1990, escancarando para os numerosos convidados o tórrido (vá lá o adjetivo habitual para tais situações, não há melhor) romance que até então mantinham em segredo. Cabral perdeu o cargo no mês seguinte. Zélia arrastou-se por mais oito meses, qual dançarina de pés inchados, num salão vazio, até sair de cena. O verbo "dançar", na acepção burlesca de "dar-se mal", "estrepar-se", já era de uso corrente, mas, se não fosse, passaria a sê-lo nesse momento.

Carroça "Carro grosseiro, ordinariamente de tração animal, para transportar cargas" (Dicionário Aurélio, 2ª edição). Palavra com que o presidente depreciava os produtos da atrasada indústria automobilística nacional. Em contrapartida, Collor, amigos e colaboradores exibiam o próprio avanço com gravatas Hermès, canetas Mont Blanc e uísque Logan. As carroças consumaram uma vingança, no governo seguinte, quando o presidente Itamar Franco reabilitou o Fusca. Já a gravata Hermès, a caneta Mont Blac e o uísque Logan, artigos de ilibada reputação internacional, ainda lutam, no Brasil, para livrar-se do estigma de tralhas da era Collor.

Dinda, Casa da Nome da residência da família Collor que o presidente continuou a ocupar, depois de eleito, preferindo-a ao Palácio da Alvorada. Se houve um cantinho de progresso, no Brasil do período, foram os 10.000 metros quadrados da propriedade. Melhoraram substancialmente a piscina e o lago artificial. Duzentas lâmpadas e cinqüenta holofotes reforçaram a iluminação. E dez cascatas brotaram em diferentes pontos, uma com 10 metros de altura. A prosperidade terminou com o governo, quando a Dinda virou a triste enjeitada de proprietário absenteísta. Tivesse o reinado durado tanto quanto pretendia, e pode-se imaginar o que a residência ganharia. Talvez um vulcão artificial de onde jorrassem fogos de artifício, talvez um castelo como na Disney World.

Duela a quien duela Expressão com que o presidente, numa entrevista à TV argentina, em 25 de agosto de 1992, enfatizou sua intenção de investigar e punir os responsáveis por irregularidades no governo, fossem quem fossem. Lembrem-se, os que estranharam o idioma de Collor na ocasião, que Camões escrevia "no" em vez de "não" ("No mais, musa, no mais...") e "assi", quase igual a "asi", em vez de "assim" ("Assi foram cortando o mar sereno..."). Só os desavisados imaginam que o portunhol é invenção de ontem.

ll Dupla de consoantes que, presentes na segunda sílaba do nome do presidente, apareciam pintadas, uma de verde e outra de amarelo, nos cartazes e adesivos eleitorais. Para o bem e para o mal, a partir de então, foram amplamente utilizadas. Para o bem (dele) quando, para adulá-lo, os admiradores designavam-no por elle. Para o mal quando, já perto do fim, os adesivos pediam "Impeachment nelle". Nunca, desde a reforma ortográfica que as baniu da língua portuguesa, em 1943, fazendo exceção apenas para os rr e ss, uma consoante dupla esteve tão em voga.

Nitroglicerina pura Na química, C3H5(ONO2)3. Em linguagem figurada, algo de conteúdo altamente explosivo. Foram as palavras com que Collor reagiu à confissão, por parte dos ministros Zélia e Cabral, pouco antes do Besame Mucho (vide verbete), de que mantinham um romance: "Mas isto é nitroglicerina pura". Sorte do presidente se fosse só isso. A nitroglicerina se acumulava em vários outros escaninhos do governo. Como no episódio do Riocentro, a bomba acabaria por explodir no colo do próprio Collor.

O casa e as critérias Expressões utilizadas pelo presidente do Banco Central, Ibrahim Eris, no dia em que o Plano Collor foi anunciado pela equipe econômica na TV (16 de março de 1990). Além de "o casa" e de "as critérias", também entrou na explanação "a orçamento". Uma das perplexidades que assaltaram o público, naquele dia, foi se dar conta de que o presidente do Banco Central, de origem árabe, tinha dificuldades com os gêneros das palavras em português. Outra foi ser informado de que boa parte de seus cabedais estava sendo confiscada.

"O tempo é o senhor da razão" Dístico que o presidente exibiu na camiseta, em novembro de 1990, no dia seguinte ao do rompimento com o governo do conterrâneo e aliado de primeira hora Renan Calheiros, até então líder na Câmara. Transformou-se na mais memorável das frases que Collor costumava mostrar no peito nos dias em que se dava à prática do cooper, nos arredores da Casa da Dinda (vide verbete). Quem sabe um dia o tempo, ungüento supremo para as misérias humanas e patrono do esquecimento, venha a redimir o dono da camiseta? O fogoso caçador de marajás sem dúvida assim o espera.