Notas para um dicionário brasileiro de política
(4)
No décimo aniversário do
início da era Collor, uma cândida repassada
no vocabulário do período
Besame Mucho
– Bolero de autoria de Consuelo
Velázquez. Ao som deste clássico, os ministros
Zélia Cardoso de Mello, da Economia, e Bernardo Cabral,
da Justiça, se deixaram enlevar, rostos colados,
enquanto deslizavam pela pista do Clube das Nações,
em Brasília, na festa de aniversário da primeira,
dia 19 de setembro de 1990, escancarando para os numerosos
convidados o tórrido (vá lá o adjetivo
habitual para tais situações, não há
melhor) romance que até então mantinham em
segredo. Cabral perdeu o cargo no mês seguinte. Zélia
arrastou-se por mais oito meses, qual dançarina de
pés inchados, num salão vazio, até
sair de cena. O verbo "dançar", na acepção
burlesca de "dar-se mal", "estrepar-se", já era de
uso corrente, mas, se não fosse, passaria a sê-lo
nesse momento.
Carroça
– "Carro grosseiro, ordinariamente
de tração animal, para transportar cargas"
(Dicionário Aurélio, 2ª edição).
Palavra com que o presidente depreciava os produtos da atrasada
indústria automobilística nacional. Em contrapartida,
Collor, amigos e colaboradores exibiam o próprio
avanço com gravatas Hermès, canetas Mont Blanc
e uísque Logan. As carroças consumaram uma
vingança, no governo seguinte, quando o presidente
Itamar Franco reabilitou o Fusca. Já a gravata Hermès,
a caneta Mont Blac e o uísque Logan, artigos de ilibada
reputação internacional, ainda lutam, no Brasil,
para livrar-se do estigma de tralhas da era Collor.
Dinda, Casa da – Nome
da residência da família Collor que o presidente
continuou a ocupar, depois de eleito, preferindo-a ao Palácio
da Alvorada. Se houve um cantinho de progresso, no Brasil
do período, foram os 10.000
metros quadrados da propriedade. Melhoraram substancialmente
a piscina e o lago artificial. Duzentas lâmpadas e
cinqüenta holofotes reforçaram a iluminação.
E dez cascatas brotaram em diferentes pontos, uma com 10
metros de altura. A prosperidade terminou com o governo,
quando a Dinda virou a triste enjeitada de proprietário
absenteísta. Tivesse o reinado durado tanto quanto
pretendia, e pode-se imaginar o que a residência ganharia.
Talvez um vulcão artificial de onde jorrassem fogos
de artifício, talvez um castelo como na Disney World.
Duela a quien duela –
Expressão com que o presidente, numa entrevista à
TV argentina, em 25 de agosto de 1992, enfatizou sua intenção
de investigar e punir os responsáveis por irregularidades
no governo, fossem quem fossem. Lembrem-se, os que estranharam
o idioma de Collor na ocasião, que Camões
escrevia "no" em vez de "não" ("No mais, musa, no
mais...") e "assi", quase igual a "asi", em vez de "assim"
("Assi foram cortando o mar sereno..."). Só os desavisados
imaginam que o portunhol é invenção
de ontem.
ll – Dupla de consoantes
que, presentes na segunda sílaba do nome do presidente,
apareciam pintadas, uma de verde e outra de amarelo, nos
cartazes e adesivos eleitorais. Para o bem e para o mal,
a partir de então, foram amplamente utilizadas. Para
o bem (dele) quando, para adulá-lo, os admiradores
designavam-no por elle. Para o mal quando, já
perto do fim, os adesivos pediam "Impeachment nelle".
Nunca, desde a reforma ortográfica que as baniu da
língua portuguesa, em 1943, fazendo exceção
apenas para os rr e ss, uma consoante dupla
esteve tão em voga.
Nitroglicerina pura –
Na química, C3H5(ONO2)3.
Em linguagem figurada, algo de conteúdo altamente
explosivo. Foram as palavras com que Collor reagiu à
confissão, por parte dos ministros Zélia e
Cabral, pouco antes do Besame Mucho (vide
verbete), de que mantinham um romance: "Mas isto
é nitroglicerina pura". Sorte do presidente se fosse
só isso. A nitroglicerina se acumulava em vários
outros escaninhos do governo. Como no episódio do
Riocentro, a bomba acabaria por explodir no colo do próprio
Collor.
O casa e as critérias –
Expressões utilizadas pelo presidente do Banco Central,
Ibrahim Eris, no dia em que o Plano Collor foi anunciado
pela equipe econômica na TV (16 de março de
1990). Além de "o casa" e de "as critérias",
também entrou na explanação "a orçamento".
Uma das perplexidades que assaltaram o público, naquele
dia, foi se dar conta de que o presidente do Banco Central,
de origem árabe, tinha dificuldades com os gêneros
das palavras em português. Outra foi ser informado
de que boa parte de seus cabedais estava sendo confiscada.
"O tempo é o senhor da razão" –
Dístico que o presidente exibiu na camiseta, em novembro
de 1990, no dia seguinte ao do rompimento com o governo
do conterrâneo e aliado de primeira hora Renan Calheiros,
até então líder na Câmara. Transformou-se
na mais memorável das frases que Collor costumava
mostrar no peito nos dias em que se dava à prática
do cooper, nos arredores da Casa da Dinda (vide
verbete). Quem sabe um dia o tempo, ungüento
supremo para as misérias humanas e patrono do esquecimento,
venha a redimir o dono da camiseta? O fogoso caçador
de marajás sem dúvida assim o espera.