Nem com máscara
História de amor de Frederick Forsyth
é apenas uma deformação literária
Carlos Graieb
De
todas as formas de arte já criadas pelo homem, nenhuma
é mais cafona, ou kitsch, do que o musical da Broadway.
Infelizmente, a coisa já virou tradição.
O mínimo que uma pessoa sensata pode fazer é
fugir dessa espécie de show e rezar para que jamais,
em nenhuma eventualidade, seja obrigada a assisti-la. O
problema é que, mesmo a despeito de todo esse esforço,
é possível topar com um musical numa livraria.
O Fantasma de Manhattan (tradução
de Alves Calado; Record; 190 páginas; 20 reais) é
inspirado no "clássico" O Fantasma da Ópera
não o romance, publicado em 1910 por um obscuro
francês chamado Gaston Leroux, mas o espetáculo,
criado em 1986 pelo compositor Andrew Lloyd Webber e desde
então em cartaz em Nova York e Londres. Um romance
inspirado num musical? Antes que a moda pegue, é
preciso gritar, denunciar, espernear.
Forsyth
fez fama e fortuna escrevendo thrillers, alguns de boa qualidade
como O Dia do Chacal. Recentemente entrou em crise
e resolveu mudar de gênero. Numa festa, bateu papo
com Andrew Lloyd Webber. Saiu de lá com uma idéia.
O Fantasma da Ópera conta a história
de um homem deformado e angustiado, que usa uma máscara,
se esconde nos subterrâneos de Paris e se apaixona
por uma cantora. No final, perseguido por uma multidão,
ele some nas trevas. Forsyth fez a pergunta óbvia:
"E depois?" Seu romance é uma resposta a essa indagação.
Segundo ele, o fantasma foge para os Estados Unidos e fica
milionário. Mas o passado o persegue. E ele até
descobre que gerou um filho antes de deixar a França.
Ao passar dos thrillers para uma história de amor,
Forsyth deu um passo em falso. Seu livro tem todos os problemas
do gênero romântico, como a pieguice e a inverossimilhança.
Faltam as qualidades da obra anterior de Forsyth, como a
precisão e o detalhamento. O enriquecimento vertiginoso
do protagonista, por exemplo, é explicado em poucas
páginas. O Fantasma de Manhattan é
um caça-níqueis mal escrito. Não há
máscara que esconda essa deformação.