Edição 1 633 -26/1/2000

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Mister M.

Os truques de Brian Moore,
o autor de A Mulher do Mágico

Carlos Graieb

 

O irlandês Moore:
dezenove romances,
admiração de seus
pares e discrição

Quando morreu, no ano passado, o escritor Brian Moore ostentava um currículo de fazer inveja. Dezenove romances, prêmios a granel e o respeito de seus pares. O romancista inglês Graham Greene, por exemplo, chegou a elogiá-lo como o melhor dos autores contemporâneos. Moore nasceu em Belfast, em 1921, e sempre exigiu que seu nome fosse pronunciado à moda irlandesa – "brian" mesmo e não "braian", como diriam os ingleses. No final dos anos 40, ele emigrou para a América do Norte. Passou um tempo no Canadá e depois fixou residência na Califórnia. A proximidade com Hollywood não o excitava. Teve poucas aventuras no cinema, sendo a principal como roteirista de Cortina Rasgada, dirigido por Alfred Hitchcock. Nenhum dos dois considerava o filme grande coisa. Moore não cortejava a fama ou a celebridade. Preferia ficar em casa, lapidando seus bons livros.

Certamente em razão desse perfil discreto, o autor ainda não foi descoberto pelos brasileiros, embora algumas de suas obras já tenham saído aqui. O lançamento de A Mulher do Mágico (tradução de Anna Olga de Barros Barreto; Companhia das Letras; 227 páginas; 25,50 reais), último romance de Moore, é uma ótima oportunidade para recuperar o tempo perdido. O livro se inspira num insólito caso real. Em meados do século XIX, a Argélia colonizada pelos franceses dava mostras de querer revoltar-se, incitada por religiosos que pareciam ter poderes sobrenaturais. Para conter a agitação, o imperador Napoleão III recorreu a um estranho expediente: enviou como emissário Jean-Eugène Robert-Houdin, o mais famoso ilusionista da época (não confundir com o Houdini americano, que se inspirou no francês para criar seu pseudônimo). Sua missão era convencer os árabes de que os europeus eram dotados de poderes mais especiais ainda. Moore rebatizou o mágico como Henry Lambert e lhe deu uma mulher, Emmeline, a narradora do livro. Jovem e inteligente, ela se sente levemente inquieta com o casamento, o que acrescenta uma dose de tensão à trama. Simpatizando com os árabes, ela observa o empreendimento colonial com um olhar repleto de crítica. Moore recheia seu livro com imagens exóticas. Também descreve os espetáculos de ilusionismo de Lambert de maneira vívida – e eles têm uma função importante no desfecho da história. Como um bom mágico, Moore é cheio de truques. Ele sabe enfeitiçar o leitor.