Mister M.
Os truques de Brian Moore,
o autor de A Mulher do Mágico
Carlos Graieb
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O irlandês Moore:
dezenove romances,
admiração de seus
pares e discrição |
Quando morreu, no ano passado, o escritor Brian Moore ostentava
um currículo de fazer inveja. Dezenove romances,
prêmios a granel e o respeito de seus pares. O romancista
inglês Graham Greene, por exemplo, chegou a elogiá-lo
como o melhor dos autores contemporâneos. Moore nasceu
em Belfast, em 1921, e sempre exigiu que seu nome fosse
pronunciado à moda irlandesa "brian" mesmo
e não "braian", como diriam os ingleses. No final
dos anos 40, ele emigrou para a América do Norte.
Passou um tempo no Canadá e depois fixou residência
na Califórnia. A proximidade com Hollywood não
o excitava. Teve poucas aventuras no cinema, sendo a principal
como roteirista de Cortina Rasgada, dirigido por
Alfred Hitchcock. Nenhum dos dois considerava o filme grande
coisa. Moore não cortejava a fama ou a celebridade.
Preferia ficar em casa, lapidando seus bons livros.
Certamente
em razão desse perfil discreto, o autor ainda não
foi descoberto pelos brasileiros, embora algumas de suas
obras já tenham saído aqui. O lançamento
de A Mulher do Mágico (tradução
de Anna Olga de Barros Barreto; Companhia das Letras; 227
páginas; 25,50 reais), último romance de Moore,
é uma ótima oportunidade para recuperar o
tempo perdido. O livro se inspira num insólito caso
real. Em meados do século XIX, a Argélia colonizada
pelos franceses dava mostras de querer revoltar-se, incitada
por religiosos que pareciam ter poderes sobrenaturais. Para
conter a agitação, o imperador Napoleão
III recorreu a um estranho expediente: enviou como emissário
Jean-Eugène Robert-Houdin, o mais famoso ilusionista
da época (não confundir com o Houdini americano,
que se inspirou no francês para criar seu pseudônimo).
Sua missão era convencer os árabes de que
os europeus eram dotados de poderes mais especiais ainda.
Moore rebatizou o mágico como Henry Lambert e lhe
deu uma mulher, Emmeline, a narradora do livro. Jovem e
inteligente, ela se sente levemente inquieta com o casamento,
o que acrescenta uma dose de tensão à trama.
Simpatizando com os árabes, ela observa o empreendimento
colonial com um olhar repleto de crítica. Moore recheia
seu livro com imagens exóticas. Também descreve
os espetáculos de ilusionismo de Lambert de maneira
vívida e eles têm uma função
importante no desfecho da história. Como um bom mágico,
Moore é cheio de truques. Ele sabe enfeitiçar
o leitor.