Gata borralheira
De como Colette Dowling, a autora
de Complexo de Cinderela, foi à falência
Carlos Graieb
No
começo dos anos 80, a jornalista americana Colette
Dowling realizou o sonho de todo escritor, mesmo aquele
que faz pose de desdenhar o mercado: emplacou um livro na
lista de best-sellers. Publicado em diversos países,
Complexo de Cinderela marcou época. Sua tese
central era a de que décadas de pregação
feminista não haviam libertado as mulheres de seu
"medo oculto da independência". Mesmo as mais esclarecidas,
mesmo aquelas que alcançavam sucesso profissional,
continuavam acalentando o desejo secreto de ser arrebatadas
por um "príncipe" ou, em outras palavras, de ver-se
livres das responsabilidades que acompanham uma "autêntica
vida adulta". Também no Brasil o sucesso foi enorme.
Quando a autora visitou o país, em 1989, fãs
prepararam cartazes e slogans de boas-vindas. Colette estima
ter ganho mais de 1 milhão de dólares com
o livro. Um dinheiro respeitável, suficiente para
garantir a tranqüilidade de qualquer um pelo resto
da vida. Hoje, no entanto, Colette Dowling mora numa casinha
alugada. Dirige um carro velho. Não tem um centavo
no banco. O que teria dado errado? Em sua nova obra, Complexo
de Sabotagem (tradução de Ruy Jungmann;
Rosa dos Tempos; 334 páginas; 30 reais), a autora
esclarece o enigma. Segundo ela, as mulheres não
têm apenas dificuldades com a independência.
Elas também não aprenderam a lidar com dinheiro.
Sem cabeleireiros
"Este é o último tabu que nós,
mulheres, temos de vencer: proclamar que somos capazes
de cuidar financeiramente de nós mesmas. Em
certo ano, há não muito tempo, ganhei
mais de 400 000 dólares brutos. Agora, envio
cheques à Receita Federal, desbastando aos
poucos minha dívida. Corto meus cabelos sozinha
nada mais de cabeleireiros da Madison Avenue para
mim. Moro em uma casa alugada que, no inverno, aqueço
com lenha. Mas minha vida não é ruim.
Na verdade, é melhor, mais autêntica,
do que foi por muito tempo."
Trecho de Complexo
de Sabotagem
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Colette inicia narrando o seu próprio drama. "Quando
os cheques polpudos de direitos autorais começaram
a cair em minha conta corrente, decidi que a última
coisa que desejava fazer era pensar em dinheiro", contou
ela a VEJA. "Então, contratei um contador e me livrei
do assunto." Por mais de meia década, ela se refestelou
no luxo. Bancou a fada madrinha para os filhos e outros
parentes. Finalmente, comprou duas casas nas imediações
de Nova York uma grande, a outra pequena e "charmosa",
que começou a reformar. Não deixou nenhuma
reserva para eventualidades e ainda contraiu um empréstimo
com juros altíssimos. No meio da reforma, surgiu
o primeiro indício de que as coisas estavam saindo
dos trilhos. Um comunicado da receita federal a deixou ciente
de que já estava devendo 70.000
dólares em tributos. Ela não tinha um tostão
disponível para saldar a dívida. "Em vez de
pisar no freio, acelerei as obras na casa e continuei acumulando
débitos no cartão de crédito", diz
Colette. Por dois anos, ela fez pouco do problema. Até
que, em 1994, o coletor de impostos veio bater à
sua porta. Ela foi obrigada a vender as duas casas, com
tudo o que tinham dentro. Precisou ainda aderir a um programa
draconiano de pagamento antecipado de impostos e controle
de despesas, que deve durar até o final de 2001.
Além das conseqüências financeiras, o
efeito sobre sua auto-estima foi devastador. Colette Dowling
gastou horas e mais horas no divã do analista. Também
foi parar no Devedores Anônimos, que opera segundo
a mesma filosofia do Alcoólatras Anônimos,
levando os freqüentadores a admitir que são
gastadores compulsivos e ensinando-lhes alguns truques,
como anotar num caderninho cada centavo que deixa o seu
bolso. "Encontrei gente de todas as classes sociais no DA",
diz a autora. "Meu grupo até que era divertido, com
vários escritores e artistas."
Depois de esmiuçar seu próprio caso, Colette
parte para considerações gerais a respeito
do que chama de "cultura do consumo e do endividamento".
Muitas de suas observações são curiosas
e pertinentes para o Brasil, embora se amoldem melhor ao
ambiente americano, onde a concessão de crédito
para a classe média é cada vez mais fácil
e onde "jovens vão sendo esmagados pelas dívidas
antes mesmo de deixar a casa dos 20 anos". O raciocínio
propriamente "feminista" é desenvolvido nos capítulos
centrais do livro. Segundo Colette, as mulheres continuam
sendo criadas para esperar por um "provedor" ou, no mínimo,
por um homem que tire de suas costas a responsabilidade
de zelar pelas próprias finanças. Sua receita
para que as mulheres rompam com essa última barreira
vai além da mera tomada de consciência e das
medidas terapêuticas, como a visita ao analista e
ao Devedores Anônimos. Ela sustenta que um árduo
aprendizado de técnicas de investimento é
necessário. Várias páginas do final
do livro são gastas narrando os erros, acertos e
aventuras de um grupo de senhoras que se reuniu para jogar
na bolsa.
Colette Dowling afirma que todas as provações
pelas quais passou lhe fizeram bem. "Hoje, minhas necessidades
são bem mais simples e mesmo gastando pouco não
me sinto privada de nada", diz ela. "Se já cuidava
de meu próprio sustento há muito tempo, agora
sei também como administrar meus ganhos, o que me
proporciona uma enorme sensação de autonomia
e independência." Uma coisa é certa. A autora
foi esperta o bastante para transformar seus problemas com
o fisco num livro ou seja, numa forma de ganhar dinheiro.
Para a leitora que está pensando em investir seu
capital nos conselhos da autora, um aviso. Boa parte do
material é simples atualização do que
já estava escrito em Complexo de Cinderela,
com algumas adaptações para incorporar o assunto
"dinheiro". Resistir à tentação de
comprar o livro talvez seja uma ótima maneira de
começar a poupar.