Edição 1 633 -26/1/2000

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Gata borralheira

De como Colette Dowling, a autora
de Complexo de Cinderela, foi à falência

Carlos Graieb

No começo dos anos 80, a jornalista americana Colette Dowling realizou o sonho de todo escritor, mesmo aquele que faz pose de desdenhar o mercado: emplacou um livro na lista de best-sellers. Publicado em diversos países, Complexo de Cinderela marcou época. Sua tese central era a de que décadas de pregação feminista não haviam libertado as mulheres de seu "medo oculto da independência". Mesmo as mais esclarecidas, mesmo aquelas que alcançavam sucesso profissional, continuavam acalentando o desejo secreto de ser arrebatadas por um "príncipe" ou, em outras palavras, de ver-se livres das responsabilidades que acompanham uma "autêntica vida adulta". Também no Brasil o sucesso foi enorme. Quando a autora visitou o país, em 1989, fãs prepararam cartazes e slogans de boas-vindas. Colette estima ter ganho mais de 1 milhão de dólares com o livro. Um dinheiro respeitável, suficiente para garantir a tranqüilidade de qualquer um pelo resto da vida. Hoje, no entanto, Colette Dowling mora numa casinha alugada. Dirige um carro velho. Não tem um centavo no banco. O que teria dado errado? Em sua nova obra, Complexo de Sabotagem (tradução de Ruy Jungmann; Rosa dos Tempos; 334 páginas; 30 reais), a autora esclarece o enigma. Segundo ela, as mulheres não têm apenas dificuldades com a independência. Elas também não aprenderam a lidar com dinheiro.

 


Sem cabeleireiros

"Este é o último tabu que nós, mulheres, temos de vencer: proclamar que somos capazes de cuidar financeiramente de nós mesmas. Em certo ano, há não muito tempo, ganhei mais de 400 000 dólares brutos. Agora, envio cheques à Receita Federal, desbastando aos poucos minha dívida. Corto meus cabelos sozinha – nada mais de cabeleireiros da Madison Avenue para mim. Moro em uma casa alugada que, no inverno, aqueço com lenha. Mas minha vida não é ruim. Na verdade, é melhor, mais autêntica, do que foi por muito tempo."

Trecho de Complexo de Sabotagem


Colette inicia narrando o seu próprio drama. "Quando os cheques polpudos de direitos autorais começaram a cair em minha conta corrente, decidi que a última coisa que desejava fazer era pensar em dinheiro", contou ela a VEJA. "Então, contratei um contador e me livrei do assunto." Por mais de meia década, ela se refestelou no luxo. Bancou a fada madrinha para os filhos e outros parentes. Finalmente, comprou duas casas nas imediações de Nova York – uma grande, a outra pequena e "charmosa", que começou a reformar. Não deixou nenhuma reserva para eventualidades e ainda contraiu um empréstimo com juros altíssimos. No meio da reforma, surgiu o primeiro indício de que as coisas estavam saindo dos trilhos. Um comunicado da receita federal a deixou ciente de que já estava devendo 70.000 dólares em tributos. Ela não tinha um tostão disponível para saldar a dívida. "Em vez de pisar no freio, acelerei as obras na casa e continuei acumulando débitos no cartão de crédito", diz Colette. Por dois anos, ela fez pouco do problema. Até que, em 1994, o coletor de impostos veio bater à sua porta. Ela foi obrigada a vender as duas casas, com tudo o que tinham dentro. Precisou ainda aderir a um programa draconiano de pagamento antecipado de impostos e controle de despesas, que deve durar até o final de 2001. Além das conseqüências financeiras, o efeito sobre sua auto-estima foi devastador. Colette Dowling gastou horas e mais horas no divã do analista. Também foi parar no Devedores Anônimos, que opera segundo a mesma filosofia do Alcoólatras Anônimos, levando os freqüentadores a admitir que são gastadores compulsivos e ensinando-lhes alguns truques, como anotar num caderninho cada centavo que deixa o seu bolso. "Encontrei gente de todas as classes sociais no DA", diz a autora. "Meu grupo até que era divertido, com vários escritores e artistas."

Depois de esmiuçar seu próprio caso, Colette parte para considerações gerais a respeito do que chama de "cultura do consumo e do endividamento". Muitas de suas observações são curiosas e pertinentes para o Brasil, embora se amoldem melhor ao ambiente americano, onde a concessão de crédito para a classe média é cada vez mais fácil e onde "jovens vão sendo esmagados pelas dívidas antes mesmo de deixar a casa dos 20 anos". O raciocínio propriamente "feminista" é desenvolvido nos capítulos centrais do livro. Segundo Colette, as mulheres continuam sendo criadas para esperar por um "provedor" ou, no mínimo, por um homem que tire de suas costas a responsabilidade de zelar pelas próprias finanças. Sua receita para que as mulheres rompam com essa última barreira vai além da mera tomada de consciência e das medidas terapêuticas, como a visita ao analista e ao Devedores Anônimos. Ela sustenta que um árduo aprendizado de técnicas de investimento é necessário. Várias páginas do final do livro são gastas narrando os erros, acertos e aventuras de um grupo de senhoras que se reuniu para jogar na bolsa.

Colette Dowling afirma que todas as provações pelas quais passou lhe fizeram bem. "Hoje, minhas necessidades são bem mais simples e mesmo gastando pouco não me sinto privada de nada", diz ela. "Se já cuidava de meu próprio sustento há muito tempo, agora sei também como administrar meus ganhos, o que me proporciona uma enorme sensação de autonomia e independência." Uma coisa é certa. A autora foi esperta o bastante para transformar seus problemas com o fisco num livro – ou seja, numa forma de ganhar dinheiro. Para a leitora que está pensando em investir seu capital nos conselhos da autora, um aviso. Boa parte do material é simples atualização do que já estava escrito em Complexo de Cinderela, com algumas adaptações para incorporar o assunto "dinheiro". Resistir à tentação de comprar o livro talvez seja uma ótima maneira de começar a poupar.