Edição 1 633 -26/1/2000

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Ecos da África

Surto de febre amarela prova que há um vilão
no país: o mosquito do subdesenvolvimento

Fabio Schivartche

De última hora: vacinação em São
Paulo (acima) e pulverização de
inseticida no interior de São Paulo

Até parecia que o Brasil nunca tinha ouvido falar em febre amarela. Na semana passada, o anúncio de que havia onze vítimas da doença, uma delas fatal, suscitou reações de um pânico escandinavo. Governos municipais e estaduais pediam mais e mais vacinas. De norte a sul do país, milhares de pessoas enfrentaram filas para receber a imunização. Em Brasília, enfermeiros do Ministério da Saúde correram ao Palácio do Planalto para vacinar o presidente Fernando Henrique Cardoso e equipe. No Congresso Nacional, só não foram protegidos os parlamentares gazeteiros – mas esses não merecem, mesmo. Na verdade, de seis em seis anos, em média, os brasileiros são ameaçados por um surto de febre amarela. A última grande explosão da doença foi em 1993 – 83 doentes, dezenove mortos. Entre 1998 e 1999, saltou de 34 para setenta o número de infectados. A vacina contra a doença garante proteção por, no mínimo, dez anos. Preço: 20 centavos por dose. Apesar de barata, estima-se que menos de 40% da população do país encontra-se imunizada contra a febre amarela. Por quê? Porque o governo prioriza a vacinação dos habitantes das áreas endêmicas (veja mapa abaixo) e não dispõe de um programa efetivo de alerta sobre os riscos de contágio para quem viaja com destino a essas regiões. Entre um surto e outro, baixa-se a guarda contra a doença. "As ações sanitárias só ocorrem quando há urgência", critica o infectologista e sanitarista Arary da Cruz Tiriba, professor da Universidade Federal de São Paulo. O último alarme fez com que o governo trombeteasse uma vacinação em massa também em áreas não endêmicas. Vamos ver.

Quem transmite a febre amarela é um mosquito, sim, mas o do subdesenvolvimento. Trata-se de uma daquelas moléstias típicas de países paupérrimos, como os da África, em que as condições de vida são precárias e faltam recursos para campanhas de prevenção. Como o Brasil está longe de ser um Senegal ou uma Gâmbia, é escandaloso que ainda se enfrentem surtos dessa doença por aqui. Dessa e de outras, como a malária, o cólera ou a dengue. Dengue, então, é uma vergonha, como diria o apresentador Boris Casoy. Até o nome dessa coisa é ridículo – dengue. Já pensou você dizer que está "dengoso"? No ano passado, mais de meio milhão de brasileiros caíram vítimas de tais infecções, sem contar as outras pertencentes ao rol das chamadas "doenças da pobreza".

Depois da tuberculose e da Aids, a malária é a moléstia infecciosa que mais mata ao redor do mundo. Todos os anos, entre 300 e 500 milhões de pessoas são contaminadas e 1 milhão de vidas são ceifadas. Cerca de 80% dos doentes estão na África. Na América Latina, o Brasil é o recordista em malária – com cerca de 40% do 1,2 milhão de casos registrados no continente. A maioria dos doentes vive em regiões sem acesso à saúde. Muitos só se descobrem contaminados quando é tarde demais. O quadro de descalabro geral torna-se ainda mais sombrio com a quantidade de doentes de cólera e leptospirose, duas infecções típicas da falta de saneamento básico. O vibrião do cólera ataca principalmente os brasileiros que não dispõem de água tratada em casa – 15% das residências do país. A leptospirose, transmitida pela urina de ratos, é outro exemplo da falta de vergonha que grassa por aqui. Ela emerge a cada temporada de chuva, quando, nas grandes cidades, bairros inteiros são inundados. Em 1999, só na capital paulista registraram-se 247 casos, 15% deles letais. Não há vacina contra a leptospirose, mas as inundações são previsíveis e evitáveis. Exterminar mosquitos, sanear o ambiente e fornecer água potável e vacinas são o jeito de silenciar esses ecos africanos no Brasil.

Quase todos os onze doentes de febre amarela foram contaminados nas proximidades da cidade de Alto Paraíso, em Goiás, na região da Chapada dos Veadeiros, uma das mais belas paisagens naturais do país, famosa por atrair ecoturistas e místicos de todos os gêneros. São vítimas da febre amarela silvestre, aquela que se pega no mato e é transmitida pelo mosquito Haemagogus. Há também a urbana. A doença é idêntica, só que transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, o mesmo da tal dengue. Até a última sexta-feira, não havia registro de contágio urbano de febre amarela no país, mas o risco de que ela apareça não é desprezível. Isso porque alguém que tenha sido contaminado na Chapada dos Veadeiros pode ser picado pelo Aedes na cidade. É o bastante para que se inicie uma epidemia. Como de cada dez brasileiros nove vivem em regiões infestadas pelo Aedes, você deveria estar preocupado, certo? Não, segundo os especialistas do governo, alguns deles conhecidos como mosquitos Daemagogus. "Não há perigo. A transmissão em ambiente urbano é mais difícil, pois a sobrevida do vírus transmitido pelo Aedes é menor", diz Jarbas Barbosa, diretor do Centro Nacional de Epidemiologia. O senhor Barbosa parece não saber o que se passa em seu departamento. Apenas um dia depois de ele ter dado essa declaração o Ministério da Saúde anunciou que a vacinação em massa e a pulverização de inseticida também abarcariam cidades fora das regiões endêmicas.

Com reportagem de Eduardo Nunomura