Edição 1 633 -26/1/2000

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As mamães cangurus

Bebês nascidos antes do tempo desenvolvem-se
mais rápido se trocam a incubadora pelo colo materno

Cristina Poles


A criaturinha, aninhada entre os seios de Cristiane Quintana, era de uma fragilidade assustadora. Aos 21 anos, a mãe tinha poucas esperanças na sobrevivência de Luma. No quarto dia de vida, de tão transparente, a pele da recém-nascida revelava o sangue correndo pelas veias e artérias do corpinho de apenas 680 gramas. Tubos e fios sustentavam-lhe a vida. Apesar de toda essa parafernália, a menina foi retirada da incubadora e levada para o colo materno. Luma nasceu antes do tempo, aos cinco meses e meio de gestação – três meses e meio antes do normal. Em 11 de dezembro, um mês antes da data prevista para seu nascimento, se a gravidez tivesse sido de nove meses, Luma recebeu alta do hospital e Cristiane levou para casa uma criança saudável, de quase 2 quilos.

Arquivo pessoal

Ricardo Benichio
Cristiane e a pequena Luma: nascimento de alto risco no quinto mês.
À esquerda, 4 dias após o nascimento, à direita um dia antes da alta

Até pouco tempo atrás seria considerado uma sandice tirar um prematuro tão cedo da incubadora. Não é mais. A figura da mãe canguru está se tornando comum nas maternidades brasileiras. Nesses casos, se já tiver certas condições clínicas de sobrevivência, o prematuro pode dar adeus à incubadora e terminar seu desenvolvimento no aconchego do tórax materno. A nova filosofia de tratamento de prematuros é simples e revolucionária. Resulta da ousadia do pediatra colombiano Edgar Ruy Sanabria, que precisou encontrar uma alternativa diante da escassez de incubadoras no precário Instituto Materno Infantil de Bogotá, onde trabalhava em 1979. Inspirado nos marsupiais – aqueles que completam a gestação dos filhotes dentro de uma bolsa na qual estão os mamilos –, tão logo o quadro clínico dos recém-nascidos permitia, o doutor Sanabria tirava-os da incubadora e amarrava-os ao corpo das mães. Daí a expressão "mãe canguru".

Com a troca da incubadora-máquina pela incubadora humana, notou Sanabria, os prematuros se desenvolviam melhor e mais rápido. Da Colômbia, as mães cangurus espalharam-se pelo mundo. "Em 1996, na Alemanha, vi pela primeira vez bebês com menos de 1 quilo e ainda intubados fazendo parte do programa", conta o pediatra Fernando de Andrade Guimarães. Chefe do berçário da Maternidade Pró-Matre, em São Paulo, ele foi um dos primeiros a adotar o método no Brasil. O sistema funciona melhor nas boas maternidades, principalmente as particulares. "O hospital precisa dispor de médicos em número suficiente para monitorar o tempo todo os bebês", diz o pediatra Paulo Pachi, chefe da unidade neonatal da Santa Casa de São Paulo. Na maioria das maternidades públicas, incapazes de garantir tanta atenção, os médicos, por segurança, só colam a criança à mãe quando o bebê já respira sozinho, alimenta-se pela boca e pesa no mínimo 1,2 quilo.

Dos 3,4 milhões de crianças nascidas no Brasil em 1998, cerca de 9% foram prematuras. Algumas passam até três meses na incubadora. O aparelho mantém a temperatura, a oxigenação e a umidade apropriadas durante o tempo necessário para o amadurecimento mínimo dos órgãos do recém-nascido (veja quadro). Graças a avanços tecnológicos acoplados à chocadeira artificial, hoje se consegue salvar bebês de meio quilo e menos de seis meses de gestação – o que seria impossível há apenas cinco anos. É uma vitória e tanto. A dúvida não é quanto à utilidade, mas quanto ao tempo em que o prematuro é mantido na incubadora. Tradicionalmente, só é retirado quando atinge 1,8 quilo e pode ir para casa. Vale a pena mantê-lo dentro de uma máquina se a mamãe canguru consegue o mesmo resultado com muito mais carinho?

Os prematuros colados ao corpo materno tendem a sofrer menos alterações nos batimentos cardíacos e nos níveis de oxigênio no sangue. Aquecidos pelo calor materno e embalados pelo pulsar do coração da mãe, os bebês cangurus não têm tanta dificuldade para respirar, um dos maiores desafios de quem nasce antes do tempo. A respiração é mais serena, sem sobressaltos. No sossego do colo, os prematuros ganham em média o dobro do peso obtido por dia pelas crianças enclausuradas na incubadora. Quando a mãe é canguru, o período de internação hospitalar chega a reduzir-se pela metade (veja quadro). Os benefícios são tão evidentes que o Ministério da Saúde criou recentemente um projeto de incentivo ao método canguru em todos os hospitais conveniados ao Sistema Único de Saúde, o SUS. "O programa diminui as despesas com o tratamento dos prematuros", atesta a pediatra Geise Maria de Souza Lima, do Instituto Materno Infantil de Pernambuco, o Imip, no Recife. Os custos de um dia de incubadora beiram os 90 reais. Com o recém-nascido grudado à mãe, não chegam a 20 reais. Ganham todos: as maternidades, as mães e os bebês.

 
Leo Caldas/Lumiar

No Instituto Materno Infantil
de Pernambuco: ala exclusiva para
que as mulheres sejam cangurus 24 horas por dia


Na luta pela sobrevivência, com a criança na incubadora, corre-se o risco de se criar um abismo afetivo entre mãe e filho. "Com o receio da morte do prematuro, muitas mães acabam, inconscientemente, se distanciando da criança", diz a psicóloga Lídia Weber, professora da Universidade Federal do Paraná. "Com o método canguru, o cenário muda." Bastam alguns dias para que mamãe canguru perca o temor de pegar, mexer e cuidar do bebê. A segurança não é apenas psicológica. Longe de suas crianças, as mulheres que deram à luz precocemente têm dificuldade para manter a produção de leite. "O contato físico constante com o bebê faz com que o cérebro da mãe estimule a glândula hipófise a produzir o hormônio responsável pelo controle da liberação de leite", explica a pediatra Lélia Cardamone, presidente do departamento de aleitamento materno da Sociedade de Pediatria de São Paulo.

 
Leo Caldas/Lumiar
Substituto para o colo:
almofada especial


Cerca de trinta maternidades brasileiras já adotaram o método canguru. No Hospital Guilherme Álvaro, em Santos, no litoral paulista, 97% dos prematuros já estão mamando no peito ao receber alta. Na maternidade Alexander Fleming, do Rio de Janeiro, 95%. É uma façanha, num país em que apenas quatro de cada dez bebês de até 3 meses são amamentados. Se o leite materno é essencial para a boa saúde de todas as crianças, o benefício para os prematuros não tem preço. Com o sistema imunológico ainda imaturo, o organismo deles não está preparado para combater as bactérias. "A mãe, que já possui anticorpos contra esses germes, pode imunizar o filho através do leite", diz o pediatra Mário Alves Rosa, do Hospital Guilherme Álvaro. Onde se adota o método mãe canguru, cai drasticamente o número de prematuros vítimas de infecções graves. Isso decorre não apenas do aleitamento, mas também da alta precoce, que os afasta do risco de infecção hospitalar.

 
Ricardo Benichio
Manoel, com a filha Manoela
e a mulher, Mônica: papai
canguru duas vezes por
semana, duas horas por noite

Algumas maternidades estimulam os pais a ser cangurus. É assim no Imip e na Pró-Matre. Duas vezes por semana, sempre à noite, depois do trabalho, o comerciante paulistano Manoel Ribeira fica com Manoela grudada por duas horas sobre seu peito. A menina nasceu aos seis meses e meio de gestação e foi para o colo da mãe, Mônica, de 32 anos, com apenas 3 dias de vida. Desde então, não se desgrudaram mais. "Parece que ela está dentro de mim outra vez", emociona-se Mônica, que de bom grado se afasta da filhinha quando chega o marido canguru para dar seu plantão de afeto.