Edição 1 633 -26/1/2000

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Alternativo rico

Morongo é um empresário que trabalha descalço,
pega onda e enche os bolsos de dinheiro

Rodrigo Vieira da Cunha, de Garopaba

 
Fotos: Edison Vara

Morongo: férias no Havaí
e mecânica quântica
nos negócios

O empresário gaúcho Marco Aurélio Raymundo, 50 anos, fatura cerca de 30 milhões de reais por ano fabricando e vendendo roupas. Com desempenho semelhante ou superior ao dele, há milhares de empresas no Brasil. A diferença é que, enquanto a maioria dos altos executivos aperta o nó da gravata, tem rotinas estressantes de quinze horas diárias de trabalho e é chamada de doutor pelos funcionários, esse empresário mora na paradisíaca Praia de Garopaba, em Santa Catarina, pilota seu negócio descalço e sem camisa, passa tardes inteiras surfando e é tratado pelos subordinados pelo esquisito apelido de "Morongo". Ele é dono da Mormaii, uma empresa de 21 anos que fabrica pranchas, sandálias, óculos, bonés e principalmente roupas especiais para surfistas com medo de água fria. Com esse catálogo de produtos e uma estratégia muito peculiar de administração, o faturamento da Mormaii tem crescido mais de 10% ao ano. Morongo não trabalha sequer uma hora a mais por causa disso. Pelo contrário, costuma tirar folgas prolongadas para surfar no Havaí e já chegou a passar um ano sem pisar na empresa, meditando numa cúpula geodésica que construiu com esse propósito.

A história de sucesso empresarial alternativo de Morongo começou com uma boa idéia. Médico formado em Porto Alegre, ele seguiu a trilha de muitos gaúchos e mudou-se para Santa Catarina em 1974. Escolheu Garopaba, uma praia onde viviam apenas pescadores, na época sem rua asfaltada nem água encanada. Montou o primeiro posto de saúde da região. Sua diversão era o surfe. Para agüentar a água gelada do inverno, pediu a uma tia que confeccionasse um macacão de lã. A experiência evoluiu para macacões de borracha costurados por Morongo em pessoa na mesa da sala de jantar. Os amigos encomendaram algumas peças. Nascia a Mormaii, fusão de Morongo, Maira (nome de sua primeira mulher) e Hawaii (Havaí). Hoje em dia, a empresa tem 21 fábricas que produzem mais de 600 itens de roupas e acessórios para jovens. Os macacões são confeccionados em neoprene, um material sintético maleável, e exportados para Estados Unidos, Mercosul, Europa e México. No ano passado, o modelo Second Skin (segunda pele, em inglês) foi considerado a melhor roupa de neoprene do mundo por associações de surfistas americanas. No Brasil, as roupas da Mormaii são encontradas em 2.500 pontos-de-venda e 26 lojas exclusivas.

 

A mansão de Garopaba: vista para
o mar e cama
elástica no quintal

A estratégia Morongo de negócios combina noções de mecânica quântica, autonomia total aos funcionários e investimentos substanciais em marketing. A Mormaii patrocina mais de cinqüenta atletas no Brasil e nos Estados Unidos. Entre eles, o campeão brasileiro Fábio Gouveia e um tricampeão mundial, o americano Tom Curren. Para os mais novos, paga alimentação, aulas de natação, ioga e inglês. Isso torna a marca famosa e simpática entre os jovens. A autonomia dos subordinados aparece no horário flexível de trabalho. Nos dias em que o mar está bom para o surfe, os 100 funcionários da fábrica de Garopaba são dispensados de aparecer no horário normal. Quem quiser chega mais tarde, depois de aproveitar as ondas. Inclusive Morongo, que coloca uma de suas dez pranchas sobre sua Fiat Elba com 200.000 quilômetros rodados (na garagem, ficam um Golf e dois Subaru) e sai em busca das ondas. "É liberdade com responsabilidade, brother", explica Morongo, no jargão especializado da área. "Não interessa quando e como vão fazer as tarefas. O importante é que façam." A mecânica quântica entra no estranho discurso que Morongo arrisca para explicar sua forma de tocar a empresa. "Desde a descoberta do átomo, a sociedade vive em torno do eu, da unidade. Depois que a ciência dividiu o átomo em subpartículas, tudo mudou. Hoje sabemos que tudo é uma energia só. Eu sou luz congelada, como todos os meus funcionários. É a vez do altruísmo e da holística. A empresa é um negócio para todas as pessoas, não só para mim", filosofa.

Parte dessas idéias, Morongo desenvolveu há quinze anos durante o tempo que passou meditando numa espécie de templo construído por ele à beira de uma praia vizinha. Foi um ano inteiro isolado sem sequer ler. Ali, Morongo só refletia. De lá, só saía para comer. Nesse período, a empresa, então bem menor, continuou funcionando normalmente. Hoje, Morongo vive com a segunda mulher e dois de seus três filhos em uma casa cinematográfica. A construção, de 1.000 metros quadrados, deita-se sobre uma encosta verde, de frente para o mar. No quintal da casa, há uma cama elástica, que o empresário usa para saltar e relaxar. Entre as leituras que fazem sua cabeça estão A Teoria da Relatividade, de Albert Einstein, e os livros do autor psicodélico Carlos Castañeda. Sua mais nova loja fica em Garopaba mesmo, tem 600 metros quadrados e até um sushi-bar. No primeiro fim de semana do ano, os funcionários se esforçavam para atender os clientes na loja lotada. Entre eles, estava Morongo, de bermuda, descalço, sem camisa.