Alternativo rico
Morongo é um empresário que
trabalha descalço,
pega onda e enche os bolsos de dinheiro
Rodrigo Vieira da Cunha, de
Garopaba
Fotos: Edison Vara
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Morongo: férias no Havaí
e mecânica quântica
nos negócios
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O empresário gaúcho Marco Aurélio
Raymundo, 50 anos, fatura cerca de 30 milhões de
reais por ano fabricando e vendendo roupas. Com desempenho
semelhante ou superior ao dele, há milhares de empresas
no Brasil. A diferença é que, enquanto a maioria
dos altos executivos aperta o nó da gravata, tem
rotinas estressantes de quinze horas diárias de trabalho
e é chamada de doutor pelos funcionários,
esse empresário mora na paradisíaca Praia
de Garopaba, em Santa Catarina, pilota seu negócio
descalço e sem camisa, passa tardes inteiras surfando
e é tratado pelos subordinados pelo esquisito apelido
de "Morongo". Ele é dono da Mormaii, uma empresa
de 21 anos que fabrica pranchas, sandálias, óculos,
bonés e principalmente roupas especiais para surfistas
com medo de água fria. Com esse catálogo de
produtos e uma estratégia muito peculiar de administração,
o faturamento da Mormaii tem crescido mais de 10% ao ano.
Morongo não trabalha sequer uma hora a mais por causa
disso. Pelo contrário, costuma tirar folgas prolongadas
para surfar no Havaí e já chegou a passar
um ano sem pisar na empresa, meditando numa cúpula
geodésica que construiu com esse propósito.
A história de sucesso empresarial alternativo de
Morongo começou com uma boa idéia. Médico
formado em Porto Alegre, ele seguiu a trilha de muitos gaúchos
e mudou-se para Santa Catarina em 1974. Escolheu Garopaba,
uma praia onde viviam apenas pescadores, na época
sem rua asfaltada nem água encanada. Montou o primeiro
posto de saúde da região. Sua diversão
era o surfe. Para agüentar a água gelada do
inverno, pediu a uma tia que confeccionasse um macacão
de lã. A experiência evoluiu para macacões
de borracha costurados por Morongo em pessoa na mesa da
sala de jantar. Os amigos encomendaram algumas peças.
Nascia a Mormaii, fusão de Morongo, Maira (nome de
sua primeira mulher) e Hawaii (Havaí). Hoje em dia,
a empresa tem 21 fábricas que produzem mais de 600
itens de roupas e acessórios para jovens. Os macacões
são confeccionados em neoprene, um material sintético
maleável, e exportados para Estados Unidos, Mercosul,
Europa e México. No ano passado, o modelo Second
Skin (segunda pele, em inglês) foi considerado a melhor
roupa de neoprene do mundo por associações
de surfistas americanas. No Brasil, as roupas da Mormaii
são encontradas em 2.500
pontos-de-venda e 26 lojas exclusivas.
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A mansão de
Garopaba: vista para
o mar e cama elástica
no quintal
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A estratégia Morongo de negócios combina
noções de mecânica quântica, autonomia
total aos funcionários e investimentos substanciais
em marketing. A Mormaii patrocina mais de cinqüenta
atletas no Brasil e nos Estados Unidos. Entre eles, o campeão
brasileiro Fábio Gouveia e um tricampeão mundial,
o americano Tom Curren. Para os mais novos, paga alimentação,
aulas de natação, ioga e inglês. Isso
torna a marca famosa e simpática entre os jovens.
A autonomia dos subordinados aparece no horário flexível
de trabalho. Nos dias em que o mar está bom para
o surfe, os 100 funcionários da fábrica de
Garopaba são dispensados de aparecer no horário
normal. Quem quiser chega mais tarde, depois de aproveitar
as ondas. Inclusive Morongo, que coloca uma de suas dez
pranchas sobre sua Fiat Elba com 200.000
quilômetros rodados (na garagem, ficam um Golf e dois
Subaru) e sai em busca das ondas. "É liberdade com
responsabilidade, brother", explica Morongo, no jargão
especializado da área. "Não interessa quando
e como vão fazer as tarefas. O importante é
que façam." A mecânica quântica entra
no estranho discurso que Morongo arrisca para explicar sua
forma de tocar a empresa. "Desde a descoberta do átomo,
a sociedade vive em torno do eu, da unidade. Depois que
a ciência dividiu o átomo em subpartículas,
tudo mudou. Hoje sabemos que tudo é uma energia só.
Eu sou luz congelada, como todos os meus funcionários.
É a vez do altruísmo e da holística.
A empresa é um negócio para todas as pessoas,
não só para mim", filosofa.
Parte
dessas idéias, Morongo desenvolveu há quinze
anos durante o tempo que passou meditando numa espécie
de templo construído por ele à beira de uma
praia vizinha. Foi um ano inteiro isolado sem sequer ler.
Ali, Morongo só refletia. De lá, só
saía para comer. Nesse período, a empresa,
então bem menor, continuou funcionando normalmente.
Hoje, Morongo vive com a segunda mulher e dois de seus três
filhos em uma casa cinematográfica. A construção,
de 1.000 metros quadrados, deita-se
sobre uma encosta verde, de frente para o mar. No quintal
da casa, há uma cama elástica, que o empresário
usa para saltar e relaxar. Entre as leituras que fazem sua
cabeça estão A Teoria da Relatividade,
de Albert Einstein, e os livros do autor psicodélico
Carlos Castañeda. Sua mais nova loja fica em Garopaba
mesmo, tem 600 metros quadrados e até um sushi-bar.
No primeiro fim de semana do ano, os funcionários
se esforçavam para atender os clientes na loja lotada.
Entre eles, estava Morongo, de bermuda, descalço,
sem camisa.