Meu cão, meu tesouro
Fartura de artigos para o totó de
luxo estimula o lado Vera Loyla de cada um
Marcelo Camacho
Mario Rodrigues
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Zezinho e Willie, com a filhote Magali:
lua-de-mel em "hotel"
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Em outubro do ano passado, a socialite carioca Vera Loyola
deu uma festança pelo aniversário de 12 anos
de sua cadela, "Pepezinha", com direito a bolo, refrigerante
(caldo de carne enlatado), presentes, lembrancinhas e Parabéns
a Você ao ritmo de au-au-au. Deu o que falar,
pelo exagero de gastos e de paparicação em
torno de um animalzinho de estimação. Vera,
é certo, extrapolou como, aliás, é
de seu muito particular e celebrado estilo. Mas que Vera
Loyola não é a única a tratar cachorro
como gente, isso ela não é. Cada vez mais,
nas famílias de classe média e alta, reinam
totós cobertos de mimos e carinhos que comem ração
importada, dormem na cama dos donos, usam roupinhas, têm
os pêlos lavados com xampu, freqüentam dentista,
massagista, acupunturista. Ah, sim, alguns fazem aula de
natação. O aniversário de Pepezinha
virou escândalo num país que tem crianças
dormindo na rua e mães de família pedindo
esmola no semáforo. O escândalo é meio
de verdade e meio fingido, porque há uma Vera Loyola
em cada quarteirão do Brasil abastado. Somando-se
as Veras Loyolas com os brasileiros que simplesmente cuidam
corretamente de seus animais, tem-se um número suficiente
de donos de bichos caseiros capaz de movimentar cifras impressionantes.
Só
no setor de rações, foram consumidas 855.000
toneladas (sem contar as importadas) pelos totós
no ano de 1999, que representam 1,8 bilhão de reais.
Os sabores variam: tem de carne, peru, galinha, fígado,
até vegetariana. Os consumidores, também
existe ração para filhotes, para cães
idosos, para obesos, para cadelas gestantes, para cardíacos
(com baixo colesterol). "Em relação ao ano
anterior, o crescimento em 1999 foi de 25% e em 2000 deve
ser de 15%", festeja Bernard Divry, diretor da Associação
Nacional dos Fabricantes de Alimentação Animal,
Anfal-Pet. Espaço para expansão não
falta. Dos 25 milhões de cães de estimação
no Brasil, só 30% comem produtos industrializados.
O cardápio dos outros consiste de restos, apesar
da constante pregação em contrário
dos veterinários este, outro mercado em franco
progresso. Em 1981, havia no Rio de Janeiro 2.500
veterinários; hoje já são 6.000
(consulta média: 50 reais). De acordo com dados do
Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para
Saúde Animal, Sindam, o setor que trabalha com vacinas
e remédios para cães e gatos cresceu, em 1999,
3% em relação a 1998 e movimentou cerca de
100 milhões de reais. Isso num ano em que todo o
restante do setor veterinário (bovinos, suínos
etc.) verificou uma queda de 20% em suas atividades.
Ricardo Benichio
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Tratamento de dentes:
poucas cáries, mas problemas
de gengiva
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Dia dos Namorados Cães, mais do que qualquer
outro animal de estimação, adoram agrados
e suportam enfeites e penduricalhos com fleuma quase britânica.
Bichinhos dóceis, somados a donos ávidos por
gastar, fazem a festa das pet shops, as lojinhas de produtos
para animais domésticos. A The Pet From Ipanema,
do Rio, já tem três filiais na cidade e está
abrindo uma franquia de 450 metros quadrados em São
Paulo. A Cobasi, a maior loja da capital paulista, tem 10.000
itens em suas prateleiras. "É um mercado que não
pára de crescer", diz seu diretor, Paulo Nassar.
Nessas lojas se encontram casinhas de resina em formato
de iglu, com isolamento térmico, por 800 reais, sorvete
(nos sabores carne e leite, 10 reais o pacote com quatro),
escova e pasta de dente (40 reais), roupas (em média
30 reais a peça), vestidos para as cadelinhas, uniformes
de times de futebol, chapéus variados, capas de chuva,
até galochas. A coisa vai ao ponto em que é
possível tirar uma "carteira de identidade" para
cachorros, igual à oficial, que custa 10 reais e
vem com nome, foto e uma patinha padrão no lugar
da impressão digital. Já existem na praça
equipamentos como uma coleira "no bark" (120 reais), dotada
de dispositivo eletrônico que dá um pequeno
choque quando o cão late. Detalhe: só é
ativado pelo latido dele, pré-gravado. Os outros
podem fazer barulho à vontade. Esse pelo menos é
um equipamento útil para os vizinhos.
Na hora de cruzar, cachorros de luxo dispõem de
intermediários e até de hotel para a lambança.
A Cane & Gatto, de São Paulo, começou
como clínica veterinária e loja com serviços
como banho, tosa e hotel. Há dois anos, Patrícia
Harich, a dona do lugar, bolou uma promoção
no Dia dos Namorados: listou candidatos e candidatas ao
acasalamento e fez o contato entre os donos. Deu tão
certo que virou outro serviço da casa. Foi lá
que "Zezinho", 3 anos, poodle champanhe com pedigree, encontrou
sua cara-metade, "Willie", 4 anos. Dois dias no hotel (diária:
20 reais, com refeições) bastaram para produzir
"Magali", única filhote do casal.
Selmy Yassuda
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Ultra-som na gravidez:
pré-natal para saber
o número de filhotes
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"Bino" e "Bina" Na onda dos animais tratados
com cuidados muitas vezes negados a seres humanos, a medicina
veterinária progride a passos largos. Em Nova York,
o Animal Medical Center é um hospital em regra, até
com listas de benfeitores nas paredes das alas. No Brasil,
cães já são submetidos a exames como
ultra-sonografia, tomografia computadorizada e eletroencefalograma.
"Fazemos cesarianas só com pontos internos. Também
oferecemos terapias a laser para remover tumores e manchas
de pele e no tratamento oftalmológico", diz o veterinário
Jorge Pereira, presidente do escritório carioca da
Associação Nacional dos Clínicos Veterinários
de Pequenos Animais, Anclivepa. A veterinária carioca
Yana Siqueira especializou-se em exames de ultra-sonografia
(65 reais), técnica que pode ajudar a diagnosticar
problemas hepáticos, renais e cardíacos
além, claro, do acompanhamento pré-natal.
"O dono do animal gosta de saber quantos filhotinhos virão.
Também dá para prever com mais exatidão
a época do parto", diz Yana.
Oscar Cabral
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Massagem: ajuda no
tratamento de dificuldades
de locomoção
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Em São Paulo, a clínica Odontovet trata
exclusivamente dos dentes (50 reais a consulta) de cães
e gatos. Com os animais anestesiados, os veterinários
removem placa bacteriana e curam gengivas inflamadas (cáries
são raras). Há clínicas que oferecem
acupuntura e outras, sessões de massagem e hidroterapia
para tratar de problemas locomotores, chegando a aulas de
natação (20 reais cada uma), como no Pet Place,
em São Paulo, no qual o veterinário Renato
Miracca construiu uma piscina aquecida com ondas, onde cachorrinhos
fora de forma nadam para melhorar o condicionamento físico.
Para o veterinário paulista Mauro Lantzman, doutorando
em psicologia pela Pontifícia Universidade Católica,
PUC, de São Paulo, mimar o cãozinho não
é, necessariamente, exagero condenável. "Algumas
pessoas transferem para o animal de estimação
o papel que seria de outro ser humano", diz ele. "Não
vejo isso de forma negativa. É uma maneira normal
de troca de afeto." Difícil, em muitos casos, é
definir o limite entre a simples troca de afeto e a paparicação
extremada. A carioca Fabiana Malta, 32 anos, é da
turma do "mimo mesmo, e daí?". Ao se separar do marido,
no ano passado, decidiu comprar um poodle para lhe fazer
companhia. Chamada pelos amigos de "Bina", batizou o bichinho
de "Bino". "Ele é o meu companheiro, minha sombra,
me olha no olho e sabe o que estou sentindo. Tento freqüentar
mais os lugares onde ele pode ir. Onde ele não entra,
não vou", avisa. Pelas suas contas, gasta cerca de
500 reais por mês com Bino. O dinheiro vai para a
ração importada (que come em tigela de louça
inglesa), roupinhas (até uma jaqueta de aviador ele
tem), xampu, perfume, fraldas. Bino, como se vê, poderia
ter sido convidado para o aniversário da cadela de
Vera Loyola sem destoar.
Casais jovens que trabalham muito e não têm
filhos também são mestres em transferir para
os cães parte de sua afetividade. O ator Fábio
Assunção e sua mulher, a modelo Priscila Borgonovi,
vivem no Rio em companhia de três: um labrador, um
mastiff inglês e um rodhesian ridgeback. Eles têm
liberdade de vagar pela casa e de dormir no quarto do casal
quando assim lhes apetece. "São parte da família.
Acho que cachorro é o filho de quem não tem
filho", filosofa o ator. Em matéria de ranking de
raças, Fábio Assunção está
muito bem informado. O labrador é o cão da
moda. O rodhesian ridgeback tem tudo para ser o próximo.
Um filhote de labrador está custando de 600 a 1.000
reais, dependendo da cor do pêlo. O do rodhesian ridgeback
(cão grande, de pêlo curto, que raramente late
e tem entre seus criadores no Brasil o empresário
José Roberto Marinho, das Organizações
Globo), 800 reais. Outro candidato ao estrelato próximo
é o border collie (600 reais), cão pastor
recentemente considerado o mais inteligente do mundo. "O
problema é que ele não pára nunca.
Pode levar o dono à exaustão", avisa a treinadora
paulista Claudia Pizzolatto, especialista em comportamento
animal. Alguém se habilita?
Com reportagem de
Aida Veiga
Grande oferta
Nas lojas de animais chiques, a variedade de produtos
nunca pára de crescer. Importados na maioria,
eles têm em comum o esforço de apagar
as características caninas nos cães.
Confira alguns:
Fotos: Paulo
Jares

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Mochila (38 reais):
leva um casaquinho, para o caso de esfriar
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Sorvete (10 reais
o pacote com quatro):
sabores carne e leite
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Coleira "no bark"
(120 reais): choque
contra latidos |
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Casinha de resina (800
reais): em forma de iglu,
com isolamento térmico
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Spray antibichos (27
reais), xampu "pina
colada" (32 reais)
e anticheiro (27 reais):
importados
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