Mulheres presas.
Motivo: drogas
As condenadas por narcotráfico,
quase sempre meras transportadoras, já
são
a maioria nos presídios femininos
Fabio Schivartche
Loira, alta, cabelos longos, rosto bonito, corpo estonteante.
M. M. trabalhava como secretária
e sonhava com as passarelas. Tudo isso é passado.
Ela foi presa em maio de 1997 no aeroporto de Londrina,
no Paraná, tentando embarcar para Roma com 75 cápsulas
no estômago, num total de 225 gramas de cocaína.
A viagem lhe renderia o equivalente a quase seis meses de
salário. A Polícia Federal não teve
dificuldade para pegá-la em flagrante. Havia tempo
estava de olho em seus patrões, uma quadrilha de
traficantes, e tinha grampeado os telefones da firma. Condenada
a cinco anos e quatro meses, M., hoje com 32
anos, cumpre pena na Penitenciária Feminina do Paraná,
na região metropolitana de Curitiba. "Caí
na primeira aventura", lamenta. A 3.078
quilômetros de distância, no Recife, as irmãs
Anjos também caíram. Elisângela, Eliana
e Maria dos Anjos estão presas na Colônia Penal
do Bom Pastor por tráfico de drogas. Juntas, segundo
os próprios cálculos, vendiam em média
meia tonelada de maconha por mês. Era um negócio
familiar. A mãe, Tereza, que morreu há seis
anos, foi presa duas vezes. O pai, também traficante,
sumiu. As "filhas de Tereza", como eram conhecidas nas bocas-de-fumo
da periferia do Recife, continuaram o negócio até
ser presas.
M.
e as irmãs Anjos são figuras simbólicas
de uma nova realidade no sistema penitenciário do
Brasil: nada menos que 60% das 4.550
presas em todo o país foram condenadas por tráfico
de drogas (veja quadro). A proporção,
revelada pelas estatísticas repassadas ao Ministério
da Justiça pelos Estados, é surpreendente
se comparada à dos homens, que representam 96% da
população carcerária. Apenas 15% deles
foram condenados por envolvimento com tóxicos. A
maioria das presas eram, como a loira bonita de Londrina,
simples "mulas" a arraia miúda contratada
para o transporte da droga. Umas poucas são como
as irmãs Anjos, donas do próprio negócio.
A primeira das filhas de Tereza a ser presa foi Eliana,
em 1996. No ano seguinte, foi a mais velha, Maria. E em
1998 a caçula, Elisângela, foi flagrada no
sertão pernambucano com dezenas de tijolos de maconha.
O transporte, diz Elisângela, era feito com a conivência
da polícia local, que recebia parte dos lucros
mas uma equipe policial enviada do Recife não topou
o suborno. Aos 25 anos, grandes olhos negros, fivelas coloridas
no cabelo, Elisângela aguarda julgamento. Se for condenada
a doze anos de cadeia, como as irmãs, perderá
a chance de ver a filha de 10 anos atravessar a adolescência.
Fenômeno
mundial Há duas décadas era raro
ver nos tribunais uma traficante. Em São Paulo, das
106 mulheres recolhidas em 1977 à Penitenciária
Feminina da Capital, no complexo do Carandiru, apenas 7,5%
estavam envolvidas com drogas. Atualmente, as traficantes
somam 51% das 447 detentas. A mudança ocorreu de
norte a sul. No Paraná, sete de cada dez estão
presas por tráfico quase o dobro do registrado
em 1993. No Rio de Janeiro, as condenações
femininas pelo mesmo crime saltaram de 40% para 55% nos
últimos dois anos (veja quadro). O fenômeno
é mundial. Um estudo produzido em três Estados
americanos concluiu que entre 1986 e 1996 a quantidade de
mulheres encarceradas por crimes relacionados a entorpecentes
cresceu quase nove vezes. Nesse período, o número
de presas por outros delitos, como assaltos e homicídios,
apenas dobrou. Há dois anos, a prefeitura de Buenos
Aires inaugurou um presídio destinado única
e exclusivamente a traficantes. A novidade deve-se em grande
parte ao tráfico feminino.
A presença das mulheres no narcotráfico
tem certas particularidades. Elas exercem as funções
menos perigosas e quase nunca são as donas do produto.
Não se conhece nenhuma "baronesa" do tráfico.
Por enquanto, elas predominam como mulas, atividade que
não exige necessariamente violência física,
armas em punho nem perseguições policiais.
"O universo cultural feminino é menos violento que
o do homem", diz Tulio Kahn, coordenador de pesquisa do
Instituto Latino-Americano das Nações Unidas
para a Prevenção do Delito e Tratamento do
Delinqüente. É assim em todas as facetas do
crime. Um em cada três presos em São Paulo
está detido por assalto. Entre as mulheres, a proporção
é de uma em sete.
Amor bandido Cientes de que o sexo feminino desperta
menos suspeita da polícia, os chefões do narcotráfico
começaram a arregimentar mulheres para o transporte
de drogas no final da década de 80. Já no
início dos anos 90, deixou de ser surpresa em aeroportos
nacionais a prisão de estrangeiras, principalmente
nigerianas, carregadas de cocaína. Perto de 30% dos
284 estrangeiros presos pela Polícia Federal entre
1990 e 1999 eram mulheres. Como o Brasil deixou de servir
de simples corredor para o envio de droga colombiana à
Europa e aos Estados Unidos e passou a ter narcoexportadores
próprios, as mulas brasileiras começaram a
encher os presídios.
Ricardo Benichio
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Culpa
dele
Detida com 30
quilos
de maconha e duas
armas
roubadas, Patrícia
diz que
tudo era do marido
traficante
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Razões variadas levam uma mulher a encarar o desafio
do narcotráfico. As irmãs Anjos, do Recife,
mantinham uma tradição familiar. Nasceram
e cresceram no meio de traficantes. Adolescentes, divertiam-se
em ludibriar a polícia. "Mamãe não
gostava que a gente mexesse com fumo, mas nós aprendemos
a gostar daquele mundo", conta Elisângela. Diferentemente
do que ocorre com os homens, o coração pode
levar muitas ao crime. Não faltam presas com uma
história de amor bandido para contar. Tatuagem de
Cristo no peito, Maria da Glória Lima franze o cenho
ao falar do marido. Ressente-se até hoje da traição.
Ela sabia que vivia com um traficante, mas por lealdade
diz nunca ter contado nada a ninguém. No dia em que
a casa foi cercada pela polícia, ele não titubeou.
Fugiu e deixou-a sozinha com 800 gramas de maconha. Presa
há cinco anos, ela deve ganhar a liberdade em algumas
semanas. Batom vermelho nos lábios carnudos, Patrícia
Lira, de 23 anos, está presa em São Paulo
há oito meses. Condenada a cinco anos como cúmplice,
ela diz que está atrás das grades também
por culpa do marido, um traficante foragido. Homem violento,
ele matou por ciúme um paquerador que dirigiu galanteios
a Patrícia. No entanto, quando percebeu que os policiais
estavam em seu encalço, simplesmente sumiu no mundo.
Largou Patrícia em casa com 30 quilos de maconha
e duas armas roubadas.
"Quando a cassa cai" Há aquelas
que se sujeitam ao comércio de drogas para sustentar
o vício. Aos 22 anos, a alemã Ivonne Balas
tem uma história de vida de tirar o fôlego.
Aos 16, fugiu da casa dos pais, em Colônia. Na Grécia
ela se prostituiu e se iniciou nas drogas. Na Itália
provou crack e não conseguiu mais parar. Para manter
o vício, aceitou trabalhar como mula. Escapou de
ladrões e de traficantes rivais, envolveu-se com
políticos e barões do pó. Calcula ter
transportado mais de 35 quilos de cocaína por vários
países, inclusive o Brasil. Foi presa em abril de
1998, no Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, na Grande São
Paulo. Num português arrastado e com forte sotaque,
filosofa: "Quando a cassa cai, você não
segurra nada do que tinha". Ivonne refere-se às
mordomias que conquistou à custa do tráfico:
dinheiro, um apartamento, carros tudo confiscado pelos
tribunais europeus.
A ganância, amor, aventura ou vício, soma-se
outro fator. "O tráfico transforma-se em atividade
atrativa diante do desemprego crescente, principalmente
nas grandes cidades", afirma o sociólogo paulista
Guaracy Mingardi, pesquisador da Unesco para o tráfico
de entorpecentes. Nas últimas décadas, as
mulheres iniciaram uma conquista crescente de postos de
trabalho em todo o mundo. Nos anos 30, de cada 100 pessoas
empregadas apenas seis eram do sexo feminino. No final dos
anos 60, já representavam 14% da força produtiva.
Hoje, são 35%. Mas, a exemplo do que vem ocorrendo
na região metropolitana de São Paulo, elas
são mais afetadas pela crise na oferta de empregos.
Uma pesquisa do governo paulista, de agosto de 1999, mostra
que a taxa de desemprego na população feminina
da Grande São Paulo pulou de 16,9% para 20,5% entre
1994 e 1998. Entre os homens, de 13% subiu para 14,7%. A
falta de meios honestos para ganhar a vida também
pode contribuir para levar uma pessoa ao crime, desde que
haja predisposição para isso.
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A
separação
Aos 4 meses, Laura
será afastada
da mãe, Celitalva,
condenada por
vender oito papelotes
de cocaína
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Vida nova A vendedora ambulante Celitalva
de Jesus, de 30 anos, foi pega em flagrante em 1998 passando
adiante oito papelotes de cocaína. Franzina, tímida,
Celitalva nunca empunhou um revólver. Até
onde pôde, diz, tentou manter-se na linha, mesmo depois
de perder a barraca em uma blitz da prefeitura paulistana.
Um ano sem trabalho e ela se deixou vencer pela promessa
do dinheiro fácil. Durante uma visita íntima
ao namorado na prisão, Celitalva engravidou. No final
de janeiro, a filha, Laura, completa 4 meses. Quando isso
acontecer, a criança terá de se separar da
mãe. "Sei que não é bom para ela crescer
num lugar desses, mas ela precisa de mim", chora. A mãe
só deve sair da cadeia em julho de 2001.
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Vida nova
A venezuelana Edith
diz ter abandonado
o vício, rege
o coral da cadeia
e busca ajuda
para lançar um
CD
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Fora da prisão, a maioria tenta enfrentar as dificuldades
de readaptação, com subempregos e baixos salários.
Só uma minoria consegue. Em Pernambuco, oito em cada
dez ex-detentas voltam ao tráfico, segundo informações
do Instituto Recife de Atenção Integral às
Dependências, o Raid. A venezuelana Edith Salazar
tenta caminhar em direção oposta. Pianista,
violonista e compositora, viciou-se em cocaína na
Espanha. No auge da loucura, consumia até 5 gramas
do pó por dia. Foi presa no Aeroporto de Cumbica,
em agosto de 1996, com 1 quilo da droga. Edith jura ter
abandonado o vício e hoje dirige o coral e o grupo
de teatro da Penitenciária Feminina da Capital. Toca
com um quarteto chamado Vozes da Verdade e busca patrocínio
para gravar um disco. "Estou pronta para minha segunda vida",
diz. Aos 36 anos, não espera a liberdade para tentar
recomeçar.
"Me leva"
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A paulista S., de 23 anos,
presa no Nordeste: deixou-se
levar pela promessa
de dinheiro fácil |
Estudante aplicada, S., de 23 anos, tinha planos
de vida modestos em Mogi das Cruzes, cidade da Grande
São Paulo. Morava em um sobradinho com a mãe.
Morena, pele bronzeada, olhos ligeiramente puxados,
suas curvas insinuantes faziam sucesso nas apertadas
minissaias que usava para trabalhar como modelo em
shoppings, feiras de automóveis e promoções
de empresas. No trabalho ganhava cerca de 100 reais
por evento suficientes para seus pequenos prazeres,
um jantar com os amigos, um cinema no final de semana.
S., no entanto, fraquejou ao primeiro sinal de vida
fácil. A proposta feita por um vizinho era
tentadora: 3 000 dólares para levar 2,5 quilos
de cocaína para a Costa do Marfim, na África.
O bandido jurou que S. não correria perigo.
E ela acreditou. Em 7 de outubro do ano passado, foi
presa no Aeroporto Internacional dos Guararapes, no
Recife. Sem experiência, estava de sobretudo
de lã num calor pernambucano de 35 graus. Suava
em bicas para tentar disfarçar a calça
larga, que escondia a droga que ela levava presa ao
corpo com fita isolante. Hoje, S. é a "Paulista",
da Colônia Penal do Bom Pastor. Sem amigos nem
parentes na cidade, a moça sofre com a distância
da terra natal. Um mês depois de ter sido presa,
recebeu a visita de uma irmã. Nunca mais ninguém
foi vê-la em Pernambuco. S. passa os dias vendo
TV, chorando e escrevendo cartas para a mãe.
Parece ainda não se ter dado conta de como
foi parar na prisão. Compõe o retrato
da ingenuidade pelo menos é o que ela
aparenta , que já levou muitas das traficantes
de saias para trás das grades. Com o rosto
colado às grades, puxa conversa com o repórter
de VEJA. Quer saber de onde ele vem. Quando ouve "São
Paulo", seus olhos ficam vermelhos e a testa se franze.
O braço atravessa as barras de ferro. A voz,
quase inaudível, pede: "Me leva".
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