Edição 1 633 -26/1/2000

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Síndrome de Quêck

Ilustração Alê Setti
Epidemia de gripe na Europa e nos Estados Unidos. Peguei-a. É uma gripe comum, igual a todas as outras: dores no corpo, o nariz escorrendo, um tantinho de febre. Lendo os jornais locais, porém, parece uma nova peste. Diariamente, as autoridades sanitárias divulgam boletins alarmistas, contando o número de mortos nos hospitais. Em geral, morrem os velhos. A minha suspeita, porém, é que eles morram de velhice, não de gripe. Velhos têm de morrer de algum jeito. Quando faz calor, morrem de calor. Quando faz frio, morrem de frio. Esse troço de que morrem por causa da gripe é pura histeria da imprensa. Quem morre de gripe não é velho: é índio.

Aliás, a História do Brasil está repleta de casos de índios que, levados ao exterior por algum viajante estrangeiro, morreram imediatamente de gripe. Uma exceção é Quêck, o índio botocudo que o príncipe Maximiliano comprou durante sua viagem ao Brasil, entre 1815 e 1817. De acordo com o historiador Luís da Câmara Cascudo, Quêck sobreviveu por doze anos no castelo de Maximiliano em Neuwied, na Alemanha. Para o desgosto de seu senhor, entretanto, ele logo abandonou os hábitos indígenas, de maneira que "só atirava de arco e cantava as melodias de sua tribo mediante dinheiro. Aprendeu a beber e, vez por outra, embriagava-se ruidosamente, pondo Neuwied em tumulto. Uma das suas manias, quando alcoolizado, era saltar da janela sobre a neve".

Brasileiro vive dando vexame no exterior. Quêck é um bom exemplo disso. Outro vexame, mais recente, é o estado de conservação da embaixada brasileira em Roma. Para quem não sabe, a embaixada fica no esplêndido Palazzo Pamphili, antiga residência do papa Inocêncio X, obra-prima do barroco romano, na Praça Navona. O edifício foi vendido aos brasileiros com a condição de que o preservassem. Depois da restauração dos anos 60, porém, nada mais tinha sido feito, tanto que estava caindo aos pedaços. É provável que faltasse dinheiro para reformas, visto que as nossas embaixadas costumam gastar a totalidade de suas verbas com ministros, deputados e militares, sem contar os inúmeros parentes dessa gente toda. Além disso, havia o risco de que algum demagogo reclamasse que não era justo investir num luxuoso edifício romano em vez de construir uma escola no interior de Minas Gerais. Tolice, claro. O Palazzo Pamphili é um patrimônio do país, sendo tão brasileiro quanto, digamos, um prédio do Sérgio Naya.

Tudo isso para dizer que, finalmente, decidiram reformar o Palazzo Pamphili, inserindo-o nas comemorações do IV centenário do nascimento do arquiteto Francesco Borromini, autor da galeria afrescada por Pietro da Cortona, o ponto alto da embaixada. Boa parte da reforma está sendo feita com dinheiro privado, graças às leis de incentivo cultural. Isso significa que, quando a obra estiver pronta, a embaixada irá agradecer aos beneméritos financiadores promovendo um espetáculo musical com Caetano Veloso e Daniela Mercury, em plena Praça Navona. Acho que os italianos vão gostar de ver os brasileiros cantando melodias de sua terra e saltando embriagados na fonte de Bernini. Para mim, será outro vexame.