Síndrome de Quêck
Ilustração Alê Setti
Epidemia
de gripe na Europa e nos Estados Unidos. Peguei-a. É
uma gripe comum, igual a todas as outras: dores no corpo,
o nariz escorrendo, um tantinho de febre. Lendo os jornais
locais, porém, parece uma nova peste. Diariamente,
as autoridades sanitárias divulgam boletins alarmistas,
contando o número de mortos nos hospitais. Em geral,
morrem os velhos. A minha suspeita, porém, é
que eles morram de velhice, não de gripe. Velhos
têm de morrer de algum jeito. Quando faz calor, morrem
de calor. Quando faz frio, morrem de frio. Esse troço
de que morrem por causa da gripe é pura histeria
da imprensa. Quem morre de gripe não é velho:
é índio.
Aliás, a História do Brasil está
repleta de casos de índios que, levados ao exterior
por algum viajante estrangeiro, morreram imediatamente de
gripe. Uma exceção é Quêck, o
índio botocudo que o príncipe Maximiliano
comprou durante sua viagem ao Brasil, entre 1815 e 1817.
De acordo com o historiador Luís da Câmara
Cascudo, Quêck sobreviveu por doze anos no castelo
de Maximiliano em Neuwied, na Alemanha. Para o desgosto
de seu senhor, entretanto, ele logo abandonou os hábitos
indígenas, de maneira que "só atirava de arco
e cantava as melodias de sua tribo mediante dinheiro. Aprendeu
a beber e, vez por outra, embriagava-se ruidosamente, pondo
Neuwied em tumulto. Uma das suas manias, quando alcoolizado,
era saltar da janela sobre a neve".
Brasileiro vive dando vexame no exterior. Quêck
é um bom exemplo disso. Outro vexame, mais recente,
é o estado de conservação da embaixada
brasileira em Roma. Para quem não sabe, a embaixada
fica no esplêndido Palazzo Pamphili, antiga residência
do papa Inocêncio X, obra-prima do barroco romano,
na Praça Navona. O edifício foi vendido aos
brasileiros com a condição de que o preservassem.
Depois da restauração dos anos 60, porém,
nada mais tinha sido feito, tanto que estava caindo aos
pedaços. É provável que faltasse dinheiro
para reformas, visto que as nossas embaixadas costumam gastar
a totalidade de suas verbas com ministros, deputados e militares,
sem contar os inúmeros parentes dessa gente toda.
Além disso, havia o risco de que algum demagogo reclamasse
que não era justo investir num luxuoso edifício
romano em vez de construir uma escola no interior de Minas
Gerais. Tolice, claro. O Palazzo Pamphili é um patrimônio
do país, sendo tão brasileiro quanto, digamos,
um prédio do Sérgio Naya.
Tudo isso para dizer que, finalmente, decidiram reformar
o Palazzo Pamphili, inserindo-o nas comemorações
do IV centenário do nascimento do arquiteto Francesco
Borromini, autor da galeria afrescada por Pietro da Cortona,
o ponto alto da embaixada. Boa parte da reforma está
sendo feita com dinheiro privado, graças às
leis de incentivo cultural. Isso significa que, quando a
obra estiver pronta, a embaixada irá agradecer aos
beneméritos financiadores promovendo um espetáculo
musical com Caetano Veloso e Daniela Mercury, em plena Praça
Navona. Acho que os italianos vão gostar de ver os
brasileiros cantando melodias de sua terra e saltando embriagados
na fonte de Bernini. Para mim, será outro vexame.