A motivação
do voto
"Quem
tentar transformar as eleições municipais
em um debate sobre o governo federal e FHC verá sua
campanha murchar, enquanto crescerá a dos concorrentes
que tratarem dos temas que afligem suas localidades"
"...federár
nóis vota contra, municipár nóis vota
a favor." Era ainda o regime militar e o analista político
Ziraldo, em sua charge diária no JB, resumia
a lógica das eleições brasileiras.
Um caipira mineiro perguntava como seria votar, ao mesmo
tempo, para o Legislativo federal e para as prefeituras
e câmaras municipais. Outro cantava a regrinha, que
depois aparecia direitinho na contagem dos votos. O maior
partido local do Ocidente era a Arena, que ganhava pelo
interior todo. Nas capitais, o prefeito seguia sendo nomeado.
No plano federal, o MDB avançava, principalmente
depois que cessou o movimento pela anulação
do voto. Houve época em que votos nulos, em branco
e abstenções rivalizavam com o total de votos
válidos. Grande número de brasileiros não
admitia eleger o Congresso para fazer figuração.
Se se ousasse contestar a vontade do general-presidente,
os tanques cercavam o Congresso, fechando-o, para o general
editar decretos-leis e reformas. Mas o uso da tribuna parlamentar
acabou provando-se essencial para forçar os limites
do regime autoritário. A oposição foi
se legitimando até ganhar o voto do caipira emblemático
de Ziraldo.
Lamento ter perdido
o recorte da charge, pois gostaria de mostrá-lo a
todos os que imaginam que as eleições deste
ano se transformarão em um debate sobre o governo
federal e FHC. Não será assim. Quem tentar
fazer isso verá sua campanha murchar, enquanto crescerá
a dos concorrentes que tratarem dos temas que afligem suas
localidades. A lógica não mudou, embora as
motivações do voto hoje sejam outras. O Brasil
sempre separou bem eleições municipais e federais.
Na ditadura, a motivação
do voto federal era de protesto. Ser contra significava
votar nos ulysses. No município, prevalecia o senso
pragmático de tirar o máximo de benefício
da fusão do mandonismo local ao autoritarismo federal.
Ser a favor significava estar do lado dos coronéis
civis, que mandavam com o apoio dos generais fardados. Os
mandões locais tinham, também, mais acesso
aos recursos da todo-poderosa Sarem, Secretaria de Articulação
com os Estados e Municípios, inventada para distribuir
verbas para as prefeituras.
Hoje, ser a favor significa
votar naquele que, na cabeça do eleitor, conhece
melhor os problemas da comunidade, pode melhorar as suas
condições de vida, situação
ou oposição. Na maioria dos 5.507 (!) municípios
brasileiros, a grande parte dos eleitores nem se lembrará
de FHC na hora do voto. Está certo. Bons prefeitos,
aliados de FHC, filiados ao PSDB ou adversários de
FHC, serão reeleitos. O PT tem tido mais sucesso
eleitoral e administrativo local do que estadual ou federal.
E não é porque é contra FHC "e tudo
o que está aí", mas porque desenvolveu uma
perspectiva de gestão municipal vitoriosa. Votar
em um candidato do PT não é um ato de repúdio
ao governo federal. É votar em uma boa proposta de
gestão local. O problema do PT é que não
consegue reproduzir esse êxito nos Estados e ainda
não conseguiu chegar ao poder federal. Não
é caso único. Os comunistas italianos tiveram
a mesma experiência. Controlaram Milão, como
o PT controla Porto Alegre, mas jamais conseguiram administrar
o país.
O voto contra às
vezes ainda se manifesta nas eleições para
presidente. Mas novas motivações predominam:
na campanha em que Collor foi eleito, já ficara claro
que o Brasil queria mudar, não agüentava mais
o inflacionismo, o mordomismo, o isolacionismo, o fisiologismo.
No segundo turno, havia dois candidatos de oposição
ao que estava lá: Lula e Collor. Na eleição
de FHC, a primeira, o voto mostrou a importância da
estabilização na agenda do povo. Motivação
que se repetiu em 1998, quando muitos duvidavam que ainda
existisse.
As eleições
municipais serão locais, com uma lógica local.
Por oportunismo ou equívoco, há vários
políticos querendo "federalizá-las", esconder
suas falhas por trás da discussão dos erros
de FHC. Não vai dar. O julgamento de FHC é
feito diariamente pela opinião pública e a
nota tem sido baixa. No voto, só em 2002.
Sérgio
Abranches é cientista político