Edição 1 633 -26/1/2000

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A motivação do voto

"Quem tentar transformar as eleições municipais em um debate sobre o governo federal e FHC verá sua campanha murchar, enquanto crescerá a dos concorrentes que tratarem dos temas que afligem suas localidades"

"...federár nóis vota contra, municipár nóis vota a favor." Era ainda o regime militar e o analista político Ziraldo, em sua charge diária no JB, resumia a lógica das eleições brasileiras. Um caipira mineiro perguntava como seria votar, ao mesmo tempo, para o Legislativo federal e para as prefeituras e câmaras municipais. Outro cantava a regrinha, que depois aparecia direitinho na contagem dos votos. O maior partido local do Ocidente era a Arena, que ganhava pelo interior todo. Nas capitais, o prefeito seguia sendo nomeado. No plano federal, o MDB avançava, principalmente depois que cessou o movimento pela anulação do voto. Houve época em que votos nulos, em branco e abstenções rivalizavam com o total de votos válidos. Grande número de brasileiros não admitia eleger o Congresso para fazer figuração. Se se ousasse contestar a vontade do general-presidente, os tanques cercavam o Congresso, fechando-o, para o general editar decretos-leis e reformas. Mas o uso da tribuna parlamentar acabou provando-se essencial para forçar os limites do regime autoritário. A oposição foi se legitimando até ganhar o voto do caipira emblemático de Ziraldo.

Lamento ter perdido o recorte da charge, pois gostaria de mostrá-lo a todos os que imaginam que as eleições deste ano se transformarão em um debate sobre o governo federal e FHC. Não será assim. Quem tentar fazer isso verá sua campanha murchar, enquanto crescerá a dos concorrentes que tratarem dos temas que afligem suas localidades. A lógica não mudou, embora as motivações do voto hoje sejam outras. O Brasil sempre separou bem eleições municipais e federais.

Na ditadura, a motivação do voto federal era de protesto. Ser contra significava votar nos ulysses. No município, prevalecia o senso pragmático de tirar o máximo de benefício da fusão do mandonismo local ao autoritarismo federal. Ser a favor significava estar do lado dos coronéis civis, que mandavam com o apoio dos generais fardados. Os mandões locais tinham, também, mais acesso aos recursos da todo-poderosa Sarem, Secretaria de Articulação com os Estados e Municípios, inventada para distribuir verbas para as prefeituras.

Hoje, ser a favor significa votar naquele que, na cabeça do eleitor, conhece melhor os problemas da comunidade, pode melhorar as suas condições de vida, situação ou oposição. Na maioria dos 5.507 (!) municípios brasileiros, a grande parte dos eleitores nem se lembrará de FHC na hora do voto. Está certo. Bons prefeitos, aliados de FHC, filiados ao PSDB ou adversários de FHC, serão reeleitos. O PT tem tido mais sucesso eleitoral e administrativo local do que estadual ou federal. E não é porque é contra FHC "e tudo o que está aí", mas porque desenvolveu uma perspectiva de gestão municipal vitoriosa. Votar em um candidato do PT não é um ato de repúdio ao governo federal. É votar em uma boa proposta de gestão local. O problema do PT é que não consegue reproduzir esse êxito nos Estados e ainda não conseguiu chegar ao poder federal. Não é caso único. Os comunistas italianos tiveram a mesma experiência. Controlaram Milão, como o PT controla Porto Alegre, mas jamais conseguiram administrar o país.

O voto contra às vezes ainda se manifesta nas eleições para presidente. Mas novas motivações predominam: na campanha em que Collor foi eleito, já ficara claro que o Brasil queria mudar, não agüentava mais o inflacionismo, o mordomismo, o isolacionismo, o fisiologismo. No segundo turno, havia dois candidatos de oposição ao que estava lá: Lula e Collor. Na eleição de FHC, a primeira, o voto mostrou a importância da estabilização na agenda do povo. Motivação que se repetiu em 1998, quando muitos duvidavam que ainda existisse.

As eleições municipais serão locais, com uma lógica local. Por oportunismo ou equívoco, há vários políticos querendo "federalizá-las", esconder suas falhas por trás da discussão dos erros de FHC. Não vai dar. O julgamento de FHC é feito diariamente pela opinião pública e a nota tem sido baixa. No voto, só em 2002.

Sérgio Abranches é cientista político