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Edição 1 783 - 25 de dezembro de 2002
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Claudio de Moura Castro

Geografia e mitologia
da pesquisa

"Quando buscamos os namoros da pesquisa
com o ensino pelo mundo afora, as lições da
geografia são inexoráveis. Não existem
fórmulas únicas nem vencedoras"


Ilustração Ale Setti


Das religiões surgidas no Brasil, uma das mais fundamentalistas é aquela que prega a indissociabilidade entre o ensino superior e a pesquisa. Seu profeta foi Humboldt (o irmão do naturalista), que, já faz quase dois séculos, pregou a criação de uma universidade voltada para a pesquisa.

Mas, quando buscamos os namoros da pesquisa com o ensino pelo mundo afora, as lições da geografia são inexoráveis. Não existem fórmulas únicas nem vencedoras. E, na tradução dessa geografia para as terras tupiniquins, há mais mito que realidade.

Na França, temos universidades que nem fazem o melhor ensino nem a melhor pesquisa. O ensino de elite está nas Grandes Écoles, nas quais não deveria haver pesquisa, pois, reza a tradição, atrapalha o ensino. E a pesquisa mais pesada se dá em instituições em que não existe ensino.

Das 3.700 instituições de ensino superior nos Estados Unidos, só 120 dispõem de programas consistentes de pesquisa visando à publicação (das outras se pede apenas boa instrução). Parte do ensino mais esmerado e elitizado se dá em pequenas instituições que nem sequer oferecem pós-graduação (os liberal arts colleges). O prestigioso Middlebury College, em seu documento de recredenciamento, nem mesmo menciona a palavra pesquisa. Os 1.000 community colleges, oferecendo cursos de dois anos, não aceitam Ph.Ds. como professores, pois esses só pensam em pesquisa e não têm paciência para lidar com alunos academicamente mais fracos.

Sem distinguir áreas nem tipos, o Brasil importou o mito de que bom ensino, só com pesquisa junto – o que nenhum país sério jamais tentou universalizar. Sofre a pesquisa com o dreno de recursos para manter em tempo integral, nas universidades federais, quase todos os professores, supostamente para que façam pesquisa. Apenas cerca de vinte, dentre as 1.000 instituições de nível superior, têm um volume significativo de publicações científicas. Pior, a legislação força a contratação de professores com um presumido perfil de pesquisador, ignorando a experiência profissional. Sofre o ensino, quando a meta declarada é a pesquisa publicada, sem nenhum incentivo ou prêmio ao desempenho em sala de aula.

Nas universidades privadas, com ínfimas exceções (PUC-RJ), são ralas as pesquisas e as publicações, embora haja alguns enclaves de boa pesquisa. A razão é simples: Beatriz C. Mello estima que, sem fundos públicos, uma universidade privada teria de cobrar mensalidades de 1.116 reais para viabilizar a pesquisa. Mas a ficção precisa ser preservada, pois a lei diz que universidade deve ter pesquisa. E, sem ser universidade, não se podem criar cursos sem passar pela via-sacra dos corredores do MEC, a penitência imposta às demais instituições.

Grande parte da barafunda resulta de uma semântica obscura. Todas as pesquisas se parecem no gesto e no método. A pesquisa que avança o conhecimento, publicada em poucos periódicos de renome, tende a ser cara e requer dedicação integral dos autores. Geralmente, ocorre em poucas universidades. Mas há outra, de cunho didático, que pode e deve ser feita por professores e alunos, com ou sem tempo integral. A lógica é a mesma, mas a originalidade não é o principal motor (embora haja surpresas). Dependendo da área, custa pouco mais que o tempo das pessoas. Quase sempre é singela e pouco ambiciosa. Mas o método não diverge essencialmente de seus parentes ricos. Embutida na boa prática pedagógica, a pesquisa irriga e dá asas ao ensino. Em qualquer caso, mostra como pesquisar, isto é, como aplicar o rigor e o método científico na busca de respostas para problemas concretos. O melhor exercício para entender uma teoria é sua aplicação ao mundo real. Deve, portanto, ser parte integrante das atividades de sala de aula. Justifica-se sempre, porque a pesquisa que enriquece o ensino é aquela feita pelo próprio aluno, no nível de dificuldade que ele pode enfrentar. Portanto, traz conseqüências benéficas indiscutíveis. Essa indissociabilidade faz sentido. Mas o nosso ensino superior ignora essa versão e sofre com o arremedo da outra.

 

Claudio de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)


 
 
   
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