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Claudio
de Moura Castro
Geografia e mitologia
da pesquisa
"Quando
buscamos os namoros da pesquisa
com o ensino pelo mundo afora, as lições da
geografia são inexoráveis. Não existem
fórmulas únicas nem vencedoras"
Ilustração Ale Setti
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Das religiões surgidas no Brasil, uma das mais fundamentalistas
é aquela que prega a indissociabilidade entre o ensino superior
e a pesquisa. Seu profeta foi Humboldt (o irmão do naturalista),
que, já faz quase dois séculos, pregou a criação
de uma universidade voltada para a pesquisa.
Mas, quando
buscamos os namoros da pesquisa com o ensino pelo mundo afora, as lições
da geografia são inexoráveis. Não existem fórmulas
únicas nem vencedoras. E, na tradução dessa geografia
para as terras tupiniquins, há mais mito que realidade.
Na França,
temos universidades que nem fazem o melhor ensino nem a melhor pesquisa.
O ensino de elite está nas Grandes Écoles, nas quais não
deveria haver pesquisa, pois, reza a tradição, atrapalha
o ensino. E a pesquisa mais pesada se dá em instituições
em que não existe ensino.
Das 3.700
instituições de ensino superior nos Estados Unidos, só
120 dispõem de programas consistentes de pesquisa visando à
publicação (das outras se pede apenas boa instrução).
Parte do ensino mais esmerado e elitizado se dá em pequenas instituições
que nem sequer oferecem pós-graduação (os liberal
arts colleges). O prestigioso Middlebury College, em seu documento
de recredenciamento, nem mesmo menciona a palavra pesquisa. Os 1.000
community colleges, oferecendo cursos de dois anos, não aceitam
Ph.Ds. como professores, pois esses só pensam em pesquisa e não
têm paciência para lidar com alunos academicamente mais fracos.
Sem distinguir
áreas nem tipos, o Brasil importou o mito de que bom ensino, só
com pesquisa junto o que nenhum país sério jamais
tentou universalizar. Sofre a pesquisa com o dreno de recursos para manter
em tempo integral, nas universidades federais, quase todos os professores,
supostamente para que façam pesquisa. Apenas cerca de vinte, dentre
as 1.000 instituições de nível
superior, têm um volume significativo de publicações
científicas. Pior, a legislação força a contratação
de professores com um presumido perfil de pesquisador, ignorando a experiência
profissional. Sofre o ensino, quando a meta declarada é a pesquisa
publicada, sem nenhum incentivo ou prêmio ao desempenho em sala
de aula.
Nas universidades
privadas, com ínfimas exceções (PUC-RJ), são
ralas as pesquisas e as publicações, embora haja alguns
enclaves de boa pesquisa. A razão é simples: Beatriz C.
Mello estima que, sem fundos públicos, uma universidade privada
teria de cobrar mensalidades de 1.116 reais
para viabilizar a pesquisa. Mas a ficção precisa ser preservada,
pois a lei diz que universidade deve ter pesquisa. E, sem ser universidade,
não se podem criar cursos sem passar pela via-sacra dos corredores
do MEC, a penitência imposta às demais instituições.
Grande parte
da barafunda resulta de uma semântica obscura. Todas as pesquisas
se parecem no gesto e no método. A pesquisa que avança o
conhecimento, publicada em poucos periódicos de renome, tende a
ser cara e requer dedicação integral dos autores. Geralmente,
ocorre em poucas universidades. Mas há outra, de cunho didático,
que pode e deve ser feita por professores e alunos, com ou sem tempo integral.
A lógica é a mesma, mas a originalidade não é
o principal motor (embora haja surpresas). Dependendo da área,
custa pouco mais que o tempo das pessoas. Quase sempre é singela
e pouco ambiciosa. Mas o método não diverge essencialmente
de seus parentes ricos. Embutida na boa prática pedagógica,
a pesquisa irriga e dá asas ao ensino. Em qualquer caso, mostra
como pesquisar, isto é, como aplicar o rigor e o método
científico na busca de respostas para problemas concretos. O melhor
exercício para entender uma teoria é sua aplicação
ao mundo real. Deve, portanto, ser parte integrante das atividades de
sala de aula. Justifica-se sempre, porque a pesquisa que enriquece o ensino
é aquela feita pelo próprio aluno, no nível de dificuldade
que ele pode enfrentar. Portanto, traz conseqüências benéficas
indiscutíveis. Essa indissociabilidade faz sentido. Mas o nosso
ensino superior ignora essa versão e sofre com o arremedo da outra.
Claudio
de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)
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