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A sobrevivência
da fé

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Deus
foi morto no século XIX e os matadores são conhecidos. Karl
Marx, Charles Darwin, Friedrich Nietzsche e Sigmund Freud, para ficar nos
nomes mais grandiosos, elaboraram teorias para o mundo e para a natureza
humana que prescindiam das explicações tradicionalmente oferecidas
pela religião. Mais do que prescindiam: competiam com elas, com todas
as vantagens oferecidas pela lógica e pela irreversível marcha
da História. Os seres humanos, que desde a noite dos tempos se perguntavam
de onde viemos e para onde vamos, já podiam buscar
respostas fora da esfera divina. Viemos de um longo processo de evolução,
muito mais fabuloso do que qualquer lenda bíblica sobre um boneco
de barro transformado pelo sopro daquele Senhor de Barbas Brancas e cara
de poucos amigos. E iríamos certamente para um lugar melhor, onde
não existiriam crendices primitivas, nem a vigilância castradora
do Deus judaico-cristão, nem a injusta ordem social alimentada pelas
hierarquias religiosas. Num mundo onde predominassem a ciência e a
razão, todas as perguntas essenciais seriam eventualmente respondidas.
Pela ordem natural das coisas, impulsos religiosos e crenças em entidades
sobrenaturais acabariam no mesmo arquivo dos tempos em que se acreditava
que a Terra era plana e o Sol girava em torno dela.
Egberto Nogueira
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A
força do ritual católico
A morte de Deus foi acompanhada de "dúvida, temor e agônico conflito".
Segundo Sartre, o desaparecimento de uma das maiores idéias humanas
de todos os tempos deixou na consciência dos homens "um buraco em
forma de Deus" |
Desnecessário dizer que as coisas não aconteceram exatamente
assim. A ciência progrediu, sim, e de uma forma tão espantosa
que hoje muitas vezes mais intimida o leigo do que oferece respostas compreensíveis.
Ouvir explicações cosmogônicas de um cientista é
quase como tentar encetar diálogo com um ET. O fabuloso progresso
material desencadeado com o alvorecer da Era da Razão é
contrabalançado pelas mazelas sobejamente conhecidas que atormentam
o mundo contemporâneo. "Acreditava-se que a ciência resolveria
todos os males e seria o instrumento para melhorar o mundo. Ela criou
uma série de aspirações e expectativas que não
conseguiu satisfazer", resume Lísias Nogueira Negrão, sociólogo
estudioso da religião da Universidade de São Paulo.
A morte de Deus operada por Marx, Freud e companhia, e sua substituição
pela ciência, também não foi um espetáculo
de alegre libertação. Na definição do filósofo
francês Jean-Paul Sartre, o desaparecimento de "uma das maiores
idéias humanas de todos os tempos" deixou na consciência
dos homens "um buraco em forma de Deus" (Sartre foi um dos coveiros mais
recentes do divino, propondo que, mesmo que Deus existisse, seria necessário
rejeitá-lo, pois a idéia dele nega a nossa liberdade). Para
a teóloga inglesa Karen Armstrong, autora de Uma História
de Deus, o fim do Senhor de Barbas foi "acompanhado de dúvida,
temor e, em alguns casos, um agônico conflito". O sofrimento psíquico
provocado pela morte de Deus, somado à decepção com
as promessas não cumpridas pela ciência, ajuda a entender
por que quase dois séculos de destruição sistemática
dos pilares religiosos do Ocidente ainda não produziram uma maioria
generalizada de não-crentes. Ao contrário, o que se vê
hoje em muitos países de tradição cristã é
uma linha divisória entre uma minoria, geralmente da elite intelectual,
que seguiu adiante com a visão laica do mundo e, do outro lado,
uma maioria que se apega obstinadamente à fé e a diferentes
concepções religiosas. Em outras palavras, se Deus morreu,
sua sombra se recusa a deixar o mundo.
As
pesquisas sobre crença e religiosidade apontam números impressionantes,
especialmente no continente americano. Estados Unidos e Brasil têm
um forte traço em comum: cerca de 90% da população
declara acreditar em Deus. Os EUA são a exceção entre
os países industrializados. Na Alemanha, os que declaram crer em
um Criador caem para 53%. Na Suécia, o número de crentes
é o mais baixo do mundo desenvolvido: 36% da população.
Além da esmagadora maioria que crê em Deus, os americanos
também acreditam em milagres (84%) e, mais surpreendentemente,
continuam a não aceitar o darwinismo quase 200 anos depois de sua
exposição ao mundo: 44% acreditam que o homem foi criado
exatamente da maneira descrita na Bíblia, há menos
de 10 000 anos.
AP
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Peregrinos
muçulmanos
Uma nova escola de pesquisas tenta comprovar a existência
de Deus cientificamente e fala em "cérebro religioso". É a chamada
neuroteologia. Estudiosos sérios dizem que é uma confusão de métodos.
Ciência e religião lidam com esferas incompatíveis |
Examinar
as razões da sobrevivência da fé e da religião
exige um enorme exercício de neutralidade. Em questão de
fé, quem não tem se sente implicitamente superior a quem
tem. E quem tem olha com pena, quando não com desprezo, os desprovidos
dela. É possível responder com equilíbrio à
pergunta: por que a fé existe e sobrevive? Ao longo dos tempos,
as explicações para o sentimento da fé, e o seu desdobramento
na forma de religião organizada, têm se dividido em duas
correntes. Uma busca-as em razões exteriores, freqüentemente
de cunho utilitarista. Outra as localiza nas profundezas da natureza humana
(seja na alma, como reza a crença tradicional, seja nos genes,
como alegam alguns cientistas contemporâneos).
O bom senso mais elementar consegue alinhavar, sem muito esforço,
uma pilha de motivos que explicam a necessidade de religião e de
fé. A mente humana exige explicações para o sentido
da vida (e não resiste a respostas fáceis para perguntas
muito difíceis, acrescentariam os incréus), nosso coração
precisa de conforto e as sociedades não florescem sem a ordem legitimada
por um mandato de inspiração divina. A religião atenua
nosso terror diante da finitude da vida, dá alguma explicação
para a origem do mundo, impõe obediência a valores morais
essenciais para a convivência humana uma necessidade resumida
magistralmente por Dostoiévski através de seu Ivan Karamazov:
"Se Deus não existe, tudo é permitido".
A outra vertente das explicações para a fé finca
raízes em águas mais profundas. Entre os teólogos
modernos, seu representante mais conhecido é Rudolf Otto, autor
de O Sagrado, termo que escolheu para substituir a palavra Deus.
Otto defendeu a teoria de que o sagrado existe por si só e as religiões
são respostas a essa existência. Os homens não criam
nada nesse campo e as manifestações religiosas, mesmo moldadas
pelo filtro da cultura, são uma simples reação a
uma dimensão que já existe. O teólogo, que viveu
na Alemanha no início do século XX, colocava essa dimensão
fora, ou mais além, do humano, mas a moda hoje entre cientistas
que pretendem comprovar a existência do divino é vasculhar
não os mistérios da alma, mas os circuitos do cérebro.
São todos dos Estados Unidos, um país onde quatro em cada
dez cientistas têm algum tipo de crença religiosa
com certeza um recorde da categoria. Eles dizem, resumidamente, que existe
uma área do cérebro especializada em sentimentos religiosos.
Esse novo "ramo" de pesquisa já tem até um nome: neuroteologia.
Entre os mais conhecidos estão o radiologista Andrew Newberg e
o psiquiatra Eugene d'Aquili, autores do livro Why God Won't Go Away
(Por que Deus Não Desaparece). Eles partem do princípio
de que as práticas místicas foram fundamentais para a sobrevivência
e a evolução de nossos ancestrais. A partir daí,
dão um grande salto, afirmando ter encontrado evidências
de "um processo neurológico que evoluiu de forma a permitir aos
seres humanos transcender a existência material e se conectar com
uma parte mais profunda e espiritual de nós mesmos, percebida como
uma realidade absoluta e universal". As provas do tal "cérebro
religioso", afirmam, foram constatadas através da monitoração
da atividade cerebral de dois grupos: um de budistas, em processo de meditação,
e outro de freiras, durante orações fervorosas. Outros adeptos
conhecidos da neuroteologia são Carol Rausch Albright e James Ashbrook,
estudiosos da religião e autores de Where God Lives in the Human
Brain (Onde Está Deus no Cérebro Humano). A tese deles
é mais exótica ainda: o próprio circuito cerebral
seria uma espécie de espelho dos atributos divinos.
Cientistas sérios riem dessas teorias alguns até
notam que tanta empolgação é alimentada pelas pilhas
de doações legadas por piedosos milionários americanos
para pesquisas que "comprovem" a existência de Deus. Os proponentes
da neuroteologia "misturam no mesmo saco os termos e os métodos
da ciência e da religião na tentativa de conferir a esta
a autoridade daquela", escreveu o médico e pesquisador Jerome Groopman,
que é judeu praticante. "A ciência é uma disciplina
que demanda medições precisas de fenômenos para a
elaboração de modelos de causa e efeito. As dimensões
do que chamamos de alma, a centelha divina na vida humana, não
podem ser medidas dessa forma."
Teólogos
sofisticados também desprezam essas tentativas de comprovação
científica da existência de Deus, que reduzem os anseios
espirituais e o desejo de transcendência dos seres humanos a simples
mecanismos automáticos. Para eles, aliás, o Deus pessoal
e histórico já foi mesmo desta para a melhor, e isso representa
um progresso. "Aqueles de nós que tiveram problemas com a religião
consideraram um alívio quando se libertaram de um Deus que lhes
aterrorizou a infância", escreveu a ex-freira Karen Armstrong. "É
maravilhoso não ter de se acovardar diante de uma divindade vingativa,
que nos ameaça com a danação eterna se não
seguirmos suas regras." Em lugar do Senhor de Barbas, parecido com o retratado
por Michelangelo na Capela Sistina, que pairou durante séculos
sobre as consciências ocidentais, cultiva-se nesses círculos
de crentes intelectuais um certo misticismo chique, com uma divindade
rarefeita e intelectualizada. "Esse Deus deve ser abordado por meio da
imaginação e pode ser visto como uma espécie de arte,
semelhante aos outros grandes símbolos artísticos que têm
expressado o mistério inefável, a beleza e o valor da vida",
diz Armstrong. Complicado? Pois nesse meio até a palavra Deus,
tão carregada de significados, já foi superada. O termo
que mais se aproximaria do conceito moderno de divindade transpessoal
seria Ser-em-si.
Imagine-se um avião em plena pane com os passageiros crentes rezando:
Valha-me, Ser-em-si. Mais delicada ainda seria a situação
dos não-crentes, enfrentando a possibilidade do fim apegando-se
a quê? Ao Big Bang? À Teoria das Cordas? Ao grande fluxo
da vida? Quem não consegue se ver em nenhuma dessas situações
entende por que o Senhor de Barbas, o Deus Pai tradicional, ainda estará
entre nós por um bom tempo, atestando a extraordinária sobrevivência
da fé nos corações humanos. Quem consegue pode rezar
simplesmente para que o piloto seja muito, muito bom.
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