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Edição 1 783 - 25 de dezembro de 2002
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Deus foi morto no século XIX e os matadores são conhecidos. Karl Marx, Charles Darwin, Friedrich Nietzsche e Sigmund Freud, para ficar nos nomes mais grandiosos, elaboraram teorias para o mundo e para a natureza humana que prescindiam das explicações tradicionalmente oferecidas pela religião. Mais do que prescindiam: competiam com elas, com todas as vantagens oferecidas pela lógica e pela irreversível marcha da História. Os seres humanos, que desde a noite dos tempos se perguntavam de onde viemos e para onde vamos, já podiam buscar respostas fora da esfera divina. Viemos de um longo processo de evolução, muito mais fabuloso do que qualquer lenda bíblica sobre um boneco de barro transformado pelo sopro daquele Senhor de Barbas Brancas e cara de poucos amigos. E iríamos certamente para um lugar melhor, onde não existiriam crendices primitivas, nem a vigilância castradora do Deus judaico-cristão, nem a injusta ordem social alimentada pelas hierarquias religiosas. Num mundo onde predominassem a ciência e a razão, todas as perguntas essenciais seriam eventualmente respondidas. Pela ordem natural das coisas, impulsos religiosos e crenças em entidades sobrenaturais acabariam no mesmo arquivo dos tempos em que se acreditava que a Terra era plana e o Sol girava em torno dela.


Egberto Nogueira
A força do ritual católico
A morte de Deus foi acompanhada de "dúvida, temor e agônico conflito". Segundo Sartre, o desaparecimento de uma das maiores idéias humanas de todos os tempos deixou na consciência dos homens "um buraco em forma de Deus"


Desnecessário dizer que as coisas não aconteceram exatamente assim. A ciência progrediu, sim, e de uma forma tão espantosa que hoje muitas vezes mais intimida o leigo do que oferece respostas compreensíveis. Ouvir explicações cosmogônicas de um cientista é quase como tentar encetar diálogo com um ET. O fabuloso progresso material desencadeado com o alvorecer da Era da Razão é contrabalançado pelas mazelas sobejamente conhecidas que atormentam o mundo contemporâneo. "Acreditava-se que a ciência resolveria todos os males e seria o instrumento para melhorar o mundo. Ela criou uma série de aspirações e expectativas que não conseguiu satisfazer", resume Lísias Nogueira Negrão, sociólogo estudioso da religião da Universidade de São Paulo.

A morte de Deus operada por Marx, Freud e companhia, e sua substituição pela ciência, também não foi um espetáculo de alegre libertação. Na definição do filósofo francês Jean-Paul Sartre, o desaparecimento de "uma das maiores idéias humanas de todos os tempos" deixou na consciência dos homens "um buraco em forma de Deus" (Sartre foi um dos coveiros mais recentes do divino, propondo que, mesmo que Deus existisse, seria necessário rejeitá-lo, pois a idéia dele nega a nossa liberdade). Para a teóloga inglesa Karen Armstrong, autora de Uma História de Deus, o fim do Senhor de Barbas foi "acompanhado de dúvida, temor e, em alguns casos, um agônico conflito". O sofrimento psíquico provocado pela morte de Deus, somado à decepção com as promessas não cumpridas pela ciência, ajuda a entender por que quase dois séculos de destruição sistemática dos pilares religiosos do Ocidente ainda não produziram uma maioria generalizada de não-crentes. Ao contrário, o que se vê hoje em muitos países de tradição cristã é uma linha divisória entre uma minoria, geralmente da elite intelectual, que seguiu adiante com a visão laica do mundo e, do outro lado, uma maioria que se apega obstinadamente à fé e a diferentes concepções religiosas. Em outras palavras, se Deus morreu, sua sombra se recusa a deixar o mundo.

As pesquisas sobre crença e religiosidade apontam números impressionantes, especialmente no continente americano. Estados Unidos e Brasil têm um forte traço em comum: cerca de 90% da população declara acreditar em Deus. Os EUA são a exceção entre os países industrializados. Na Alemanha, os que declaram crer em um Criador caem para 53%. Na Suécia, o número de crentes é o mais baixo do mundo desenvolvido: 36% da população. Além da esmagadora maioria que crê em Deus, os americanos também acreditam em milagres (84%) e, mais surpreendentemente, continuam a não aceitar o darwinismo quase 200 anos depois de sua exposição ao mundo: 44% acreditam que o homem foi criado exatamente da maneira descrita na Bíblia, há menos de 10 000 anos.

 
AP
Peregrinos muçulmanos
Uma nova escola de pesquisas tenta comprovar a existência de Deus cientificamente e fala em "cérebro religioso". É a chamada neuroteologia. Estudiosos sérios dizem que é uma confusão de métodos. Ciência e religião lidam com esferas incompatíveis

Examinar as razões da sobrevivência da fé e da religião exige um enorme exercício de neutralidade. Em questão de fé, quem não tem se sente implicitamente superior a quem tem. E quem tem olha com pena, quando não com desprezo, os desprovidos dela. É possível responder com equilíbrio à pergunta: por que a fé existe e sobrevive? Ao longo dos tempos, as explicações para o sentimento da fé, e o seu desdobramento na forma de religião organizada, têm se dividido em duas correntes. Uma busca-as em razões exteriores, freqüentemente de cunho utilitarista. Outra as localiza nas profundezas da natureza humana (seja na alma, como reza a crença tradicional, seja nos genes, como alegam alguns cientistas contemporâneos).

O bom senso mais elementar consegue alinhavar, sem muito esforço, uma pilha de motivos que explicam a necessidade de religião e de fé. A mente humana exige explicações para o sentido da vida (e não resiste a respostas fáceis para perguntas muito difíceis, acrescentariam os incréus), nosso coração precisa de conforto e as sociedades não florescem sem a ordem legitimada por um mandato de inspiração divina. A religião atenua nosso terror diante da finitude da vida, dá alguma explicação para a origem do mundo, impõe obediência a valores morais essenciais para a convivência humana – uma necessidade resumida magistralmente por Dostoiévski através de seu Ivan Karamazov: "Se Deus não existe, tudo é permitido".

A outra vertente das explicações para a fé finca raízes em águas mais profundas. Entre os teólogos modernos, seu representante mais conhecido é Rudolf Otto, autor de O Sagrado, termo que escolheu para substituir a palavra Deus. Otto defendeu a teoria de que o sagrado existe por si só e as religiões são respostas a essa existência. Os homens não criam nada nesse campo e as manifestações religiosas, mesmo moldadas pelo filtro da cultura, são uma simples reação a uma dimensão que já existe. O teólogo, que viveu na Alemanha no início do século XX, colocava essa dimensão fora, ou mais além, do humano, mas a moda hoje entre cientistas que pretendem comprovar a existência do divino é vasculhar não os mistérios da alma, mas os circuitos do cérebro. São todos dos Estados Unidos, um país onde quatro em cada dez cientistas têm algum tipo de crença religiosa – com certeza um recorde da categoria. Eles dizem, resumidamente, que existe uma área do cérebro especializada em sentimentos religiosos.

Esse novo "ramo" de pesquisa já tem até um nome: neuroteologia. Entre os mais conhecidos estão o radiologista Andrew Newberg e o psiquiatra Eugene d'Aquili, autores do livro Why God Won't Go Away (Por que Deus Não Desaparece). Eles partem do princípio de que as práticas místicas foram fundamentais para a sobrevivência e a evolução de nossos ancestrais. A partir daí, dão um grande salto, afirmando ter encontrado evidências de "um processo neurológico que evoluiu de forma a permitir aos seres humanos transcender a existência material e se conectar com uma parte mais profunda e espiritual de nós mesmos, percebida como uma realidade absoluta e universal". As provas do tal "cérebro religioso", afirmam, foram constatadas através da monitoração da atividade cerebral de dois grupos: um de budistas, em processo de meditação, e outro de freiras, durante orações fervorosas. Outros adeptos conhecidos da neuroteologia são Carol Rausch Albright e James Ashbrook, estudiosos da religião e autores de Where God Lives in the Human Brain (Onde Está Deus no Cérebro Humano). A tese deles é mais exótica ainda: o próprio circuito cerebral seria uma espécie de espelho dos atributos divinos.

Cientistas sérios riem dessas teorias – alguns até notam que tanta empolgação é alimentada pelas pilhas de doações legadas por piedosos milionários americanos para pesquisas que "comprovem" a existência de Deus. Os proponentes da neuroteologia "misturam no mesmo saco os termos e os métodos da ciência e da religião na tentativa de conferir a esta a autoridade daquela", escreveu o médico e pesquisador Jerome Groopman, que é judeu praticante. "A ciência é uma disciplina que demanda medições precisas de fenômenos para a elaboração de modelos de causa e efeito. As dimensões do que chamamos de alma, a centelha divina na vida humana, não podem ser medidas dessa forma."

Teólogos sofisticados também desprezam essas tentativas de comprovação científica da existência de Deus, que reduzem os anseios espirituais e o desejo de transcendência dos seres humanos a simples mecanismos automáticos. Para eles, aliás, o Deus pessoal e histórico já foi mesmo desta para a melhor, e isso representa um progresso. "Aqueles de nós que tiveram problemas com a religião consideraram um alívio quando se libertaram de um Deus que lhes aterrorizou a infância", escreveu a ex-freira Karen Armstrong. "É maravilhoso não ter de se acovardar diante de uma divindade vingativa, que nos ameaça com a danação eterna se não seguirmos suas regras." Em lugar do Senhor de Barbas, parecido com o retratado por Michelangelo na Capela Sistina, que pairou durante séculos sobre as consciências ocidentais, cultiva-se nesses círculos de crentes intelectuais um certo misticismo chique, com uma divindade rarefeita e intelectualizada. "Esse Deus deve ser abordado por meio da imaginação e pode ser visto como uma espécie de arte, semelhante aos outros grandes símbolos artísticos que têm expressado o mistério inefável, a beleza e o valor da vida", diz Armstrong. Complicado? Pois nesse meio até a palavra Deus, tão carregada de significados, já foi superada. O termo que mais se aproximaria do conceito moderno de divindade transpessoal seria Ser-em-si.

Imagine-se um avião em plena pane com os passageiros crentes rezando: Valha-me, Ser-em-si. Mais delicada ainda seria a situação dos não-crentes, enfrentando a possibilidade do fim apegando-se a quê? Ao Big Bang? À Teoria das Cordas? Ao grande fluxo da vida? Quem não consegue se ver em nenhuma dessas situações entende por que o Senhor de Barbas, o Deus Pai tradicional, ainda estará entre nós por um bom tempo, atestando a extraordinária sobrevivência da fé nos corações humanos. Quem consegue pode rezar simplesmente para que o piloto seja muito, muito bom.

   
 
   
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