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A ciência à
procura de Cristo
AFP
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Uma
revisão do passado
Com base no crânio de um judeu palestino do século I, cientistas ingleses
reconstruíram um rosto que se aproximaria do tipo físico de Cristo.
Os ossos de um homem que foi crucificado na mesma época que Jesus
indicam que a forma de execução na cruz era diferente: o condenado
era pregado pelos dois calcanhares e tinha os braços amarrados pelos
punhos. O Santo Sudário (à esq.) foi considerado uma fraude
há catorze anos. Acabou reabilitado em 1999 |

Veja também |
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Dois mil
e dois anos se passaram e a história de Jesus de Nazaré
ainda é um desafio. Quase tudo que se sabe sobre ele está
nos Evangelhos de Marcos, Mateus, Lucas e João. Em sua brevidade
umas 130 páginas nas edições em português
, podem ser lidos numa única noite. O restante do Novo Testamento
quase nada nos conta sobre sua vida. Do nascimento até o batismo,
na idade adulta, praticamente não há referência, nem
mesmo nos Evangelhos. Apesar da névoa espessa que cerca sua biografia,
Jesus foi, individualmente, a mais influente personalidade de toda a história
humana. O impacto de seus ensinamentos ultrapassa os 2 bilhões
de cristãos, atingindo, em alguma dimensão, cada habitante
do planeta. Do ponto de vista teológico, o que se sabe de seu ministério
na Palestina do século I é um assunto bem resolvido. Mas
a curiosidade a respeito da vida do homem mais conhecido de todos os tempos
vai muito além da fé. É isso que o faz objeto de
uma incessante busca científica e arqueológica. Descobriu-se
mais sobre Jesus Cristo nos últimos trinta anos que nos 2.000
anos anteriores. O que se tem de novo é uma impressionante coleção
de objetos e documentos que coincidem com os relatos bíblicos e
que ajudam a dar contornos mais nítidos à figura histórica
de Jesus.
A mais eletrizante
descoberta foi anunciada há apenas dois meses. Trata-se de uma
urna funerária do século I, considerada a mais antiga referência
escrita existente de Jesus. Feita de pedra, tem dimensões reduzidas
(50 centímetros de comprimento, 25 de largura e 30 de altura).
O tesouro é a frase gravada do lado externo, em aramaico, a língua
falada pelos judeus da Palestina há 2.000
anos: Yaakov, bar Yosef, akhui di Yeshua. Significa "Tiago, filho
de José, irmão de Jesus". Sim, tudo indica que se trata
daquele Tiago, daquele José e daquele Jesus.
Como a descoberta é muito recente, deve ser melhor examinada pelos
especialistas. Os indícios apontam, contudo, para a autenticidade
da peça, o que faz dela a mais importante descoberta da história
da arqueologia bíblica. Os três nomes eram bem comuns entre
os judeus. Mas qual seria a possibilidade estatística de três
pessoas os terem nessa exata ordem? O filólogo francês André
Lemaire, que descobriu a urna na casa de um colecionador de antiguidades
de Jerusalém, calculou que não mais de vinte pessoas poderiam
ter essa combinação específica em Jerusalém
no ano 62, quando Tiago morreu.
O Museu de
Israel, em Jerusalém, guarda outras duas peças que servem
de provas arqueológicas da existência de personagens ligadas
diretamente a Jesus. A primeira é o ossário de Caifás,
o sumo sacerdote judeu que presidiu o primeiro julgamento de Cristo. Foi
encontrado acidentalmente em 1990, quando operários construíam
um parque nos arredores de Jerusalém. Diferentemente da urna de
Tiago, que está vazia, a de Caifás continha os esqueletos
de seis pessoas. Um deles, o de um homem de 60 anos, seria do sumo sacerdote.
A outra preciosidade é um pedaço de uma placa comemorativa
encontrado há quarenta anos, durante as obras de limpeza e restauração
de um teatro romano na antiga cidade de Cesaréia. Sua importância
é ter a gravação do nome de Pôncio Pilatos
e seu cargo, prefeito romano da Judéia. Até então,
só havia referências literárias sobre Pilatos, o governador
romano que condenou Cristo à morte na cruz. Poucos duvidam hoje
em dia que Jesus tenha vivido realmente, como nos contam os Evangelhos.
Mas há algo especial, até emocionante, quanto às
provas marcadas em pedra.
Escavações
ainda em curso em Nazaré, a cidade em que Jesus cresceu, e Cafarnaum,
onde pregou, revelaram muito sobre o ambiente em que viveu. Em seu tempo,
Nazaré era um lugar pobre, com 300 ou 400 habitantes. Não
foram encontrados por lá prédios públicos, apesar
de Lucas descrever, no Evangelho, como Jesus ia à sinagoga para
ler e comentar trechos bíblicos. As casas eram muito simples, com
teto de palha. Algumas eram semi-enterradas no solo ou construídas
diante de cavernas naturais, usadas pela família como depósito
ou curral.
A imagem
de Jesus está bem assentada pela iconografia cristã. Mas,
na verdade, os Evangelhos não dão nenhuma pista sobre o
aspecto pessoal do filho de Maria. A imagem que se tem de Jesus é
um produto artístico de pintores europeus que viveram um milênio
e meio depois de Cristo. Nessas pinturas, ele tem cabelos castanhos e
olhos claros, uma combinação altamente improvável.
No ano passado, cientistas da Universidade de Manchester, na Inglaterra,
lançaram mão de recursos da medicina forense para uma experiência:
criar um rosto que, supostamente, se aproximaria de alguém como
Jesus. Partiram do pressuposto de que ele teria aparência compatível
com a dos judeus palestinos de sua época. Por isso reconstituíram
o rosto usando como base um crânio do século I, retirado
de uma sepultura em Jerusalém. O resultado, um Cristo com uma aparência
levantina, surpreende, embora o bom senso apóie a nova imagem:
Jesus teria o rosto arredondado, com o nariz grosso, barba mais espessa
e, como não podia deixar de ser, uma vez que vivia sob o sol mediterrâneo,
sua pele seria mais morena que a que se vê nas pinturas renascentistas
que o retratam. Se o rosto precisa ser imaginado, não há
dúvidas quanto às roupas que usava. Arqueólogos israelenses
encontraram tecidos bem conservados em tumbas no deserto e podem afirmar
que os judeus do tempo de Jesus se vestiam com túnicas de lã
de ovelha ou cabra, tingidas de vermelho ou marrom. Vestes brancas, como
as que Jesus usa nos quadros, simbolizavam luto.
Valdemir Cunha
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Os
textos das cavernas
Os Manuscritos do Mar Morto foram encontrados em cavernas
no deserto da Judéia (à esq.), em 1947. O texto
não menciona Jesus, mas descreve rituais muito parecidos
com os praticados pelos primeiros cristãos
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Das relíquias
relacionadas a Jesus, a mais intrigante é uma peça de linho
com 4,36 metros de comprimento por 1,10 de largura, o chamado Santo Sudário.
Diz a tradição católica que a peça serviu
de mortalha para o corpo do filho de Deus, assim que o desceram da cruz.
O pano tem as marcas nítidas de um rosto com barba e manchas condizentes
com as chagas de Cristo. A relíquia, guardada em Turim, é
conhecida e venerada desde 1350. Curiosamente, foi o avanço da
tecnologia que tornou sua autenticidade polêmica. No final dos anos
80, o tecido foi analisado por três equipes independentes e datado
com radioatividade. A conclusão foi unânime: o pano tinha
sido produzido na Idade Média, entre 1260 e 1390. O diagnóstico
não encerrou o assunto. Estudos mais recentes encontraram vários
indícios de que seria muito mais antigo. Primeiro, foram traços
de sangue humano no tecido. Depois, submetido a exames tridimensionais
por computador, mostrou que só se poderia ter aquela imagem se
o sudário realmente envolvesse um corpo. O achado mais instigante
são vestígios de pólen nas tramas do tecido. São
de uma flor típica do Oriente Médio, que floresce numa época
condizente com a da crucificação. A Igreja Católica,
que havia aceitado a conclusão dos especialistas de 1988, hoje
considera o sudário um assunto em aberto que exige novas e apuradas
análises científicas. Não é considerado oficialmente
como autêntico. A conclusão sobre o manto é que nada
há de certo sobre ele.
Há
também informações novas sobre a crucificação.
A cruz era um castigo reservado no Império Romano às classes
baixas, aos escravos e aos estrangeiros. Nunca se soube exatamente como
era feita a crucificação. O mistério esclareceu-se
com os estudos realizados com o esqueleto de um homem de aproximadamente
30 anos, descoberto em Jerusalém, que foi crucificado no século
I. Seu nome, escrito no ossário, era Yehochanan. O mais impressionante
é o prego de 11 centímetros transfixado em seu calcanhar.
Daí se conclui que o condenado foi preso à cruz com dois
pregos, cada um num pé. Pelos furos, imagina-se que foi fixado
à cruz com as pernas abertas, cada uma colada a um lado da barra
vertical. Os braços não foram pregados, mas provavelmente
amarrados pelos punhos nas traves. Por que até agora só
se encontrou um esqueleto se milhares de judeus foram crucificados pelos
romanos? A explicação é que fazia parte da punição
deixar que o corpo fosse comido pelos abutres e pelos cães, de
modo a não sobrar nada para a família enterrar. "Yehochanan
provavelmente pertencia a uma família influente, que intercedeu
junto às autoridades pelo seu sepultamento", disse a VEJA o arqueólogo
Gidon Avni, diretor de escavações e pesquisa do departamento
de antiguidades de Israel.
Descobertas
arqueológicas como essas reviraram os rumos das pesquisas bíblicas
inúmeras vezes. Estima-se que mais de 5.000
acadêmicos estejam neste momento pesquisando as Escrituras, só
nos Estados Unidos. Um exemplo notável do trabalho de garimpagem
em textos antigos foi o realizado com os Manuscritos do Mar Morto,
coleção de documentos produzidos entre 200 a.C. e 70 d.C.
descoberta em 1947 numa caverna no deserto da Judéia. Por décadas,
enquanto era examinada por uma centena de especialistas de todo o mundo,
correram soltas especulações de que talvez Jesus e João
Batista fossem membros da seita monástica judaica que produziu
os documentos, os essênios. Neste ano, finalmente, foi concluída
a edição dos manuscritos. Não se encontrou neles
referência direta a Jesus ou Batista. Mas isso está longe
de ser uma decepção, visto que ajudaram a conhecer melhor
o modo de vida das pessoas naquela época e a compreender as mudanças
pelas quais o sentimento religioso passou. Isso é, também,
uma forma de dissipar o mistério e conhecer melhor a figura de
Jesus.
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