
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
O
mestre invisível

Veja também |
|
|
|
Que
modelo de carro Jesus dirigiria? A campanha está nas ruas, nos
Estados Unidos, em comerciais de televisão e cartazes espalhados
por estações do metrô. "Escolher um carro merece uma
reflexão cristã. Essa decisão tem menos a ver com
mecânica do que com ética, obediência, caridade e amor
ao próximo", diz o texto de um dos cartazes da campanha que conclama
os americanos a comprar modelos de carro que poluam menos, pois eles "têm
um enorme impacto sobre todas as criaturas do Senhor". Financiada pela
Rede Ambiental Evangélica, a campanha usa explicitamente
um versículo do Novo Testamento, "Ama o próximo como a ti
mesmo", para tornar sua mensagem ecológica mais eficiente. A filosofia
de Jesus Cristo, mais de 2.000 anos depois de sua existência, narrada
pelos evangelistas, é ainda a mais poderosa compilação
de ensinamentos morais, normas de conduta e exemplos de vida a influenciar
o cotidiano dos povos civilizados do planeta seja qual for sua
cultura. De forma infinitamente mais sutil que a campanha ambiental dos
evangélicos americanos, Jesus está presente mesmo aonde
a hierarquia religiosa das denominações cristãs não
chegou.
AFP
 |
Solidariedade
A campanha mundial para salvar da morte por apedrejamento
a nigeriana Amina Lawal, acusada de adultério, é um movimento cristão
mesmo que laico na aparência |
"Acho um equívoco dizer que Jesus olharia determinado problema
moderno dessa ou daquela forma, seja a pobreza, seja a globalização",
disse a VEJA o padre George Coyne, jesuíta e astrofísico
de renome internacional que dirige o Observatório Astronômico
do Vaticano. "Mas os ensinamentos de Jesus estão na raiz da busca
de soluções para todos os grandes dilemas modernos." É
possível discernir no mundo contemporâneo um Jesus invisível
em movimentos sociais e políticos, em filosofias racionais e em
rituais aparentemente mais afeitos ao paganismo. Jesus está presente
até mesmo onde se enxerga apenas o ateísmo. Está
presente, quando não no nascimento, na prática de outras
religiões que competem com ele pela salvação das
almas, como é o caso do islamismo e do hinduísmo. A religião
fundada por Maomé no século VII tem como um de seus pilares
os ensinamentos do cristianismo. Mesmo precedendo Jesus em dois milênios
e a despeito de uma riquíssima e original literatura teológica,
a prática religiosa dos hindus modernos reverbera muito o cristianismo.
"O Mahatma Gandhi foi buscar nos primórdios do cristianismo a idéia
da resistência pacífica com que venceu o domínio inglês
na Índia, que já durava três séculos", escreveu
o estudioso David Flusser, morto há dois anos. A essência
do pensamento de Gandhi está na adaptação para a
luta política de libertação do ensinamento cristão
de oferecer a outra face.
As primeiras lutas sociais do fim do século XIX eram movidas a
cristianismo, uma raiz tão forte que mesmo o ateísmo marxista
não conseguiu destruir em 75 anos de comunismo na União
Soviética e seus satélites. "A utopia igualitária
de Che Guevara, sua ética da renúncia, sua disciplina doutrinária
são claramente manifestações cristãs, embora
sua violência seja imoral", escreveu o historiador americano Peter
Gay. Diversas organizações de esquerda no Brasil nasceram
nas naves das igrejas, protegidas da vigilância policial e embebidas
em ensinamentos cristãos. Ali se valeram da simpatia dos clérigos,
em parte pela nostalgia de poder dos tempos em que a Igreja se confundia
com o Estado, mas também pelo apego dos curas ao papel de revolucionário
político atribuído por alguns deles a Jesus. O Partido dos
Trabalhadores foi uma dessas organizações. Um dos tripés
do PT foi a chamada Teologia da Libertação os outros
dois foram os movimentos sindicais e os de intelectuais. Historicamente,
a colaboração entre esquerdistas e cristãos não
foi produzida apenas pelo apego mútuo às utopias. Os políticos
sempre encontraram no cristianismo um elemento mobilizador de massas.
Gerações de carolas esconjuraram o movimento hippie. O festival
de Woodstock, realizado em 1969, nos Estados Unidos, uma espécie
de apresentação de gala do hippismo ao mundo, pode ser visto
apenas como uma orgia movida a drogas e rock'n'roll. Woodstock, com sua
filosofia de "paz e amor", pode também ser interpretado como a
revitalização pelos jovens de antigos ensinamentos cristãos.
O escritor jesuíta Jack Miles identificou na famosa celebração
musical hippie diversos preceitos de Jesus. Entre eles: "Quem estiver
sem pecado atire a primeira pedra" ou "Não julgueis para não
serdes julgado" e, principalmente, quando se pensa na tonelagem de drogas
consumidas naqueles três dias, "O que entra pela boca não
torna o homem impuro, mas sim o que sai". Podem-se identificar aforismos
cristãos nas bandeiras de lutas pelos direitos humanos e nas pregações
ecológicas atuais. Jesus está presente quando se buscam
razões para condenar o trabalho infantil ("Vinde a mim as criancinhas,
pois é delas o Reino dos Céus"). As palavras de Jesus ecoam
na formulação e na aceitação universal dos
direitos do homem, nas campanhas contra a fome, nos movimentos de voluntariado
e nos pedidos de desculpas formais aos selvagens cujas terras foram tomadas
pelos colonizadores europeus. Estudiosos lembram que todo o racionalismo
anticlerical da Revolução Francesa foi feito, paradoxalmente,
em nome de uma filosofia derivada diretamente de Jesus: "liberdade, igualdade
e fraternidade".
 |
Carros
e crianças
O pacifismo e as tentativas de adivinhar o que Jesus faria
para combater os problemas do mundo atual mostram a permanência de
uma idéia simples e poderosa |
O
inglês Edward Gibbon (1737-1794), talvez o maior historiador de
todos os tempos, escreveu seu famoso livro A História do Declínio
e da Queda do Império Romano, sobre a constatação
fundamental de que o cristianismo amoleceu a espinha dorsal da Roma guerreira.
Gibbon estudou o Império Romano do segundo século da era
cristã até o que ele considera seu último suspiro,
em 1453, ano em que Constantinopla caiu em mãos dos turcos-otomanos.
Para a maioria dos historiadores, o Império Romano ruiu 1 000 anos
antes, quando o imperador Romulus Augustulus foi deposto pelos bárbaros
godos, no ano 476. Isso importa pouco na argumentação de
Gibbon. O vital nela é a idéia de que, ao aceitar Jesus,
os terríveis legionários romanos se enfraqueceram, "deram
a outra face", passaram a "amar os inimigos" e desistiram de "ajuntar
tesouros na terra, onde a traça e o caruncho os corroem". A persistência
de Jesus pelos séculos e pelas mais distintas formas de organização
social tem sua raiz nesse momento registrado pelo inglês Gibbon.
Ele não explica totalmente as razões do crepúsculo
dos conquistadores que antes dominaram o mundo, do Golfo Pérsico
ao Norte da África e quase toda a Europa, incluindo onde hoje ficam
Inglaterra e Alemanha. Mas ajuda a entender de onde o cristianismo tirou
a força de uma filosofia que atravessaria mais de vinte séculos.
Esse poder vem da originalidade absoluta para aqueles tempos da proposição
básica de Jesus: a paz e o amor ao próximo. "O cristianismo
operou uma ruptura completa. Primeiro, ao propor que a orientação
moral e ética deveria tomar o lugar da força. Em seguida,
deu outro choque ao mostrar que para os bons de coração
a morte era apenas o começo da vida eterna", diz Jack Miles. A
humanidade passou a girar em torno desses conceitos poderosamente simples,
ora negando-os, ora aceitando-os como verdade revelada, ora tentando prová-los
com os recursos da razão e da ciência. Ao pôr a perder
o Império Romano, na visão de Gibbon, Jesus operou sua maior
conquista, a do mundo.
|
|
 |
|
 |

|
 |