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Edição 1 783 - 25 de dezembro de 2002
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Falta mulher na Índia

O infanticídio de meninas está causando
o desequilíbrio entre os sexos no país

 
Fotos AP
Casamento coletivo na cidade de Bhopal: as mulheres pagam dote

A tecnologia é uma bênção para a Índia – mas não em todos os aspectos. Apesar de um terço do total de 1 bilhão de habitantes viver na miséria, o país é um centro de excelência em computação. Por outro lado, a mistura de recursos modernos com costumes milenares produz efeitos de extrema perversidade. Os aparelhos de ultra-sonografia utilizados nos exames pré-natais, por exemplo. No Brasil, eles ajudam as mães a acompanhar o desenvolvimento do feto, prevenindo problemas. Na Índia, são usados para identificar o sexo do bebê e isso possibilita o aborto caso seja uma menina. Tradicionalmente, os casais indianos preferem filhos e muitas famílias matam as meninas logo que nascem. O resultado desse infanticídio em massa já se faz sentir na composição da população. O número de mulheres em relação ao de homens não pára de cair. O censo de 2001 mostra que existem 927 garotas para cada 1.000 meninos até 6 anos de idade em todo o país. Dez anos atrás, a proporção era de 945 meninas para cada 1.000 meninos na mesma faixa etária. Pesquisa recente do Banco Mundial aponta que o número de mulheres entre 18 e 22 anos na Índia é 6% menor que há duas décadas.

 
Rapaz de 16 anos com sua noiva: bodas precoces

Os costumes na Índia sempre foram desfavoráveis às mulheres. Ao se casar, a indiana passa a ser uma espécie de empregada da família do marido. A lei não permite que as mulheres se casem antes dos 18 anos, mas são freqüentes os matrimônios de homens mais velhos com meninas de apenas 8 ou 9 anos. Por tradição, a família da noiva paga um dote generoso ao futuro marido. São comuns os casos em que os parentes do marido torturam a noiva para forçar seus pais a pagar um dote maior. Em situações mais extremas, ela é morta e o caso é registrado como "acidente doméstico".

Tamanha é a escassez de mulheres que muitos pais não apenas estão dispensando os dotes tradicionais como passaram a oferecer "recompensas" às famílias que tiverem garotas dispostas a se casar com seus filhos. "Antigamente, estávamos acostumados a dizer que a noiva precisava pertencer a determinada classe social e ter uma família adequada aos padrões exigidos pela sociedade", conta o fazendeiro Mahendra Singh, de 54 anos, que está em busca de uma noiva para seu filho de 22 anos. "Agora, diante das dificuldades, não nos importamos mais com isso." Mesmo com a falta de meninas no país, não há indícios de que os costumes vão mudar. "Os indianos até dizem que são a favor do nascimento de mais garotas, contanto que seja na casa do vizinho", diz Richa Tanwar, diretor do setor de estudos da mulher da Universidade Kurukshetra, em Haryana. O infanticídio de meninas está incorporado ao dia-a-dia dos indianos. No sul do país, as recém-nascidas são envenenadas com a seiva de um cacto da região. Algumas famílias seguem um ritual que consiste em afogar o bebê em uma banheira cheia de leite. A tecnologia está permitindo que matem as próprias filhas bem antes de nascerem.

   
 
   
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