
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Acabou
a farra
Embora
alguns Estados resistam
ao ajuste, a Lei de Responsabilidade
Fiscal pegou
Marcelo
Carneiro
Aprovada
em maio de 2000, a Lei de Responsabilidade Fiscal foi um dos primeiros
mecanismos da legislação brasileira a prever punições
para um espécime comum na política nacional: o administrador
público esbanjador. Uma ousadia e tanto num país onde proliferam
os tipos que adoram inaugurar grandes obras às vésperas
das eleições e deixar a conta para o sucessor, inchar a
folha de pagamento ou gastar mais do que arrecadam. Havia, porém,
uma incógnita. Uma lei prevendo até pena de prisão
para políticos irresponsáveis com as finanças públicas
seria mesmo cumprida? Desde a sanção, já se sabia
que o teste de fogo da LRF, como ficou conhecida, aconteceria no fim deste
ano, quando pela primeira vez governadores no término de seu mandato
teriam de apresentar balanços ajustados à nova lei. A boa
notícia é que, passados quase três anos, a maior parte
dos Estados brasileiros se encontra em situação financeira
bem mais controlada. Ainda há casos preocupantes, como o do Rio
de Janeiro, onde o caixa está tão baixo que falta dinheiro
até para pagar o 13º dos servidores. Mas, no geral, a disposição
das autoridades em controlar o cofre mostrou que a lei veio para ficar.
Talvez seja cedo para dizer que o tipo de político descrito acima
seja uma espécie em extinção, mas já se percebe
uma saudável mudança. Quando Jorge Viana assumiu o governo
do Acre, em 1999, sucedendo a Orleir Cameli, os salários estavam
atrasados havia cinco meses e os prédios públicos estavam
caindo aos pedaços. Quase 70% da receita era engolida pela folha
de pagamento e o Estado afundava em dívidas. Hoje, o Acre reduziu
para 55% seus gastos com pessoal, abaixo do limite de 60% exigido pela
lei. A arrecadação de ICMS, o principal imposto com que
contam os Estados para incrementar sua receita, aumentou quatro vezes,
gerando recursos para investimentos em uma série de projetos ambientais.
O exame das contas públicas mostra uma melhora generalizada. Em
1997, a dívida total dos Estados era quase quatro vezes maior que
suas receitas, um claro indicador de descalabro financeiro. Já
no fim de 2000, esse número havia caído para 1,9, abaixo
do limite de duas vezes previsto pela LRF. Ao fim de 2001, apenas seis
Estados Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Goiás, Rio Grande
do Sul, Mato Grosso e Maranhão ainda estavam acima desse
limite. Mesmo entre eles, houve um esforço para obter a melhoria
das contas, que no entanto não se mostrou suficiente. "A maior
parte dos governadores herdou uma péssima situação.
Alguns saíram do péssimo para o ruim, mas poderiam ter chegado
ao bom", diz o economista Edson Ronaldo Nascimento, um dos principais
estudiosos da Lei de Responsabilidade Fiscal.
A relação dos governadores que fizeram a lição
de casa, assim como a dos que ainda precisam melhorar, não tem
cor partidária. Se o petista Jorge Viana conseguiu ajustar as contas
do Acre, seu colega Olívio Dutra, do Rio Grande do Sul, ainda enfrenta
problemas para ficar no azul. O Estado continua acima do limite de gastos
com pessoal. No Espírito Santo, que há alguns meses já
não vem pagando alguns empréstimos, o governador eleito,
Paulo Hartung, pediu ao Tribunal de Contas um relatório sobre o
caixa do Estado. Descobriu, entre outras coisas, que no último
ano da gestão do governador José Ignácio as despesas
com pessoal aumentaram quase 20%, enquanto a arrecadação
cresceu menos de 1%. A expectativa da equipe de transição
do futuro governo é que Ignácio deixe um abacaxi de 800
milhões de reais para ser descascado pelo sucessor. Se isso acontecer,
Ignácio pode ser a primeira autoridade a ir para a cadeia por descumprir
a LRF. A pena para o governante que deixar dívidas é de
até quatro anos.
O Rio de Janeiro é outro Estado que vive uma situação
complicada. A própria governadora, Benedita da Silva, admite que
dificilmente conseguirá pagar em dia o 13º de todos os 400.000
servidores, e tem enfrentado manifestações de funcionários.
Há também um problema adicional. Caso o Estado não
consiga adequar-se à lei, o Tribunal de Contas e a Justiça
terão de definir quem são os culpados pela infração:
o ex-governador Anthony Garotinho, que administrou o Estado até
abril deste ano, ou Benedita da Silva, que era sua vice. Antes aliados,
hoje ambos se acusam de ter perdido o controle das finanças estaduais.
Outros governadores que também estavam com a corda no pescoço
contaram com uma mãozinha para enquadrar-se. Em Minas Gerais, Itamar
Franco só conseguiu cumprir o limite de gastos com pessoal graças
a uma instrução normativa do Tribunal de Contas do Estado
que excluiu o pagamento dos inativos do cálculo com despesas de
pessoal. Com essa medida, Itamar, que gasta 73% da receita com a folha
de pagamento, conseguiu baixar para 48%, adequando-se ao limite da legislação.
É claro, porém, que é uma redução fictícia,
que só funciona no papel afinal, o Tesouro de Minas continua
arcando com o pagamento dos inativos. Não foi à toa, portanto,
que o governador teve problemas para pagar o funcionalismo. Só
conseguiu, aliás, graças a outra mãozinha, do governo
federal, que há duas semanas assinou uma medida provisória
ressarcindo o governo de Minas por gastos com a conservação
de rodovias federais. Ajudas desse tipo sempre fizeram parte da relação
da União com governadores gastadores. Na última década,
houve quatro planos de refinanciamento das dívidas dos Estados,
nenhum deles cumprido pelos governadores. Os Estados endividavam-se novamente
e voltavam a pedir socorro. A Lei de Responsabilidade Fiscal, ao forçar
o bom desempenho financeiro dos governos estaduais, começa a mudar
essa história.
|
A
turma que fez a lição de casa
Antonio Milena
 |
Tasso Jereissati: reduziu de 57% para 50% o gasto com pessoal
no Ceará, um
dos menores porcentuais do país |
Ana Araujo
 |
Almir Gabriel: cumpriu todas as metas
do ajuste fiscal e, em apenas um ano, aumentou em 30% a receita
do Pará |
Claudio Rossi
 |
Jorge Viana: aumentou quatro vezes a arrecadação
de ICMS no Acre e acabou com os atrasos de salário |
Cesar Borges: concedeu reajuste ao funcionalismo na Bahia, mas manteve
o limite de gastos com pessoal
|
|
A
turma que ainda precisa melhorar
Antonio Milena
 |
Itamar
Franco: só com a ajuda do TCE
de Minas conseguiu adequar o gasto com servidores à lei
|
Claudio Versiani
 |
José Ignácio: aumentou as despesas com pessoal
no Espírito Santo e não conseguiu incrementar
a receita do Estado |
Liane Neves
 |
Olívio
Dutra: está acima do limite de gastos com pessoal no
Rio Grande do Sul
e tem um alto índice de endividamento
|
Benedita:
administra um déficit mensal de 160 milhões de reais
no Rio e estima que fechará o ano com um rombo de 1,2 bilhão
no caixa do governo
|
|
|
 |
|
 |

|
 |