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Edição 1 783 - 25 de dezembro de 2002
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De onde vieram?

Dona do Clarín é acusada de
adotar filhos
de desaparecidos,
seqüestrados na ditadura

 

AP

Ernestina Herrera: rica e influente

Aos 77 anos, Ernestina Herrera de Noble é uma das mais poderosas e influentes mulheres da Argentina. Viúva desde 1969, ela dirige o maior conglomerado de comunicações do país, que inclui o principal jornal argentino, o Clarín, uma rede de televisão, uma produtora de cinema, estações de rádio e outros jornais. Sua fortuna é calculada em 680 milhões de dólares, e ela vive na lista das argentinas mais elegantes. Ernestina é o pivô de uma polêmica que está eletrizando a Argentina. Um juiz determinou sua prisão na terça-feira da semana passada sob a acusação de irregularidades no processo de adoção de seus dois filhos. O mais grave: ambos seriam filhos de presos políticos desaparecidos durante a ditadura militar.

A Argentina detém o recorde macabro da repressão entre as ditaduras sul-americanas – 30.000 mortos em seis anos de regime militar. Um dos episódios mais revoltantes e cruéis dos tempos dos militares foi a entrega para adoção de mais de 400 crianças roubadas dos pais, que eram mortos logo depois na prisão. Até agora 67 jovens foram identificados como seqüestrados pelos algozes de seus pais. Todos tinham sido adotados, alguns por policiais e militares envolvidos com a repressão. Essas crianças chegaram à idade adulta com uma dolorosa suspeita: que seus pais adotivos podem ter sido os assassinos dos pais biológicos. O pedido de detenção de Ernestina foi apresentado pela organização Avós da Praça de Maio. Há 25 anos, os membros dessa sociedade tentam descobrir o paradeiro de seus netos.


O que há contra a dona do Clarín são alguns indícios, já investigados pela Justiça há vinte anos, sem que se chegasse a uma conclusão. O mais importante são as datas das adoções, que coincidem com a ditadura. Ela diz que um dos bebês foi abandonado numa caixa de papelão. O menino teria sido entregue pela própria mãe, mas os documentos existentes estão sob suspeita. É bem possível que Ernestina não saiba realmente a origem das crianças. A Justiça solicitou aos filhos da empresária, Marcela e Felipe, de 26 anos, a realização de um exame de DNA, para comprovar a verdadeira identidade. Mas eles se recusam. O juiz precisa agora decidir se vai obrigá-los a se submeter aos testes.


   
 
   
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