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Tropeço
no passado
Líder republicano no Senado faz elogios
à
discriminação racial nos Estados Unidos
AP
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| Senador
Trent Lott tenta se explicar: palavras "terríveis"
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Os
Estados Unidos são atormentados por um pecado do passado: a segregação
racial. Ela foi colocada fora da lei quatro décadas atrás,
mas o racismo ainda é um tema explosivo no país, apesar
de todos os esforços para obter a igualdade entre brancos e negros.
Há duas semanas, o mais importante líder do Partido Republicano,
o senador Trent Lott, tropeçou no próprio passado. No aniversário
de 100 anos do ex-senador Strom Thurmond, ao qual compareceu também
o presidente republicano George W. Bush, Lott empolgou-se ao fazer elogios
ao aniversariante, que foi candidato à Presidência em 1948.
"Quando ele concorreu à Presidência, nós (do Estado
do Mississippi) votamos nele. Se o resto do país tivesse feito
o mesmo, nós não teríamos tido tantos problemas ao
longo de todos esses anos." O saudosismo de Lott chocou a todos: a principal
bandeira de Thurmond, quando ele foi candidato a presidente, era a total
segregação racial.
Nos Estados do Sul, que Thurmond representava, o apartheid racial era
oficial. O centenário senador até mudou de idéias
anos depois. Votou a favor de um feriado nacional para lembrar o líder
negro Martin Luther King, empregou negros em seu gabinete e matriculou
sua filha em uma escola mista de brancos e negros. Mas, pelo que falou,
Lott tem saudade do "velho" Thurmond. Os comentários do líder
republicano foram a manifestação mais próxima de
apoio a teses racistas feita por qualquer grande figura política
americana nas últimas décadas. Diante da comoção
e da repercussão na imprensa, Lott já pediu desculpas sete
vezes pelas infelizes declarações. Disse, com razão,
que elas eram "terríveis" e "insensíveis". Mas dificilmente
ele conseguirá se eleger líder do Senado no próximo
6 de janeiro. Segundo pesquisa do jornal Washington Post e da rede
de televisão ABC, 51% dos entrevistados acham que Lott não
pode ser o líder do governo no Senado. Nessas circunstâncias,
nenhum cacique republicano e muito menos o presidente Bush
ousaria sair em sua defesa.
As chamadas "políticas afirmativas" de cotas para minorias nas
universidades e na administração pública fizeram
com que a classe média negra dobrasse nos últimos vinte
anos. Em 1945, 10% dos negros americanos eram de classe média
hoje eles são 50%. Entre todos os países com grande população
negra das Américas, os Estados Unidos são o melhor para
um negro viver. Mas o apartheid americano é de memória muito
recente. Os Estados Unidos exibiam uma separação racial
bem vergonhosa, amparada pela legislação, que durou até
o começo da década de 60. Os negros eram proibidos de morar
em determinados bairros e de estudar em escolas reservadas para os brancos.
Só podiam ocupar os assentos reservados para eles na traseira de
ônibus e trens, mesmo que existissem lugares vazios nos bancos da
frente. Nos anos 20, a organização racista Ku Klux Klan
tinha 4 milhões de membros, defendendo "o desenvolvimento da raça
branca, da fé cristã e a soberania americana contra influências
estrangeiras".
Com a pressão exercida pelo movimento pelos direitos civis, as
leis começaram a mudar, e hoje os americanos criaram um regime
de cotas, uma espécie de "reserva de mercado" em universidades,
sindicatos e empresas para as minorias. A Ku Klux Klan encolheu tanto
que hoje reúne apenas 5.000 fanáticos. Vários mártires
do movimento negro contribuíram para a visibilidade da luta pela
igualdade de direitos, como o Prêmio Nobel da Paz em 1964, o pastor
Martin Luther King, que reuniu 250.000 manifestantes em Washington e foi
morto a tiros em 1968. Avanços têm acontecido, mas as estatísticas
ainda demonstram que há muito que fazer. Mais da metade dos americanos
presos é negra, apesar de eles constituírem apenas 12% da
população total. A mortalidade infantil entre os negros
ainda é duas vezes maior que entre as crianças brancas.
Luther King entrou para a história falando de um sonho de igualdade
que ainda está longe de se concretizar.
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