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Edição 1 783 - 25 de dezembro de 2002
A semana Naufrágio
 

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Transportados feito carga

Barco superlotado naufraga no
Rio Pará, provoca mortes e deixa
dezenas de desaparecidos

Na noite da última terça-feira, um barco de passageiros que fazia a rota Manaus–Belém naufragou no Rio Pará, próximo à cidade paraense de Barcarena, a 45 quilômetros de Belém. A tragédia matou pelo menos doze pessoas e deixou dezenas de desaparecidos. Segundo as autoridades locais, ela foi provocada pelo excesso de passageiros. A capacidade máxima permitida para o barco era de 140 pessoas. Calcula-se que a embarcação transportava muito mais que o dobro desse limite. E foi exatamente isso, o excesso de peso, que causou o acidente, que só não se transformou numa catástrofe de proporções maiores porque o navio afundou em um trecho rodeado de ilhas. Isso permitiu que vários passageiros conseguissem nadar em direção a terra firme. Outros sobreviveram graças ao uso de colete salva-vidas, ficando à deriva até a chegada do salvamento.

Por trás do excesso de peso estão a ganância dos barqueiros, que carregam as pessoas como se fossem carga, e a falta de fiscalização das autoridades, combinação que já provocou vários acidentes na região. Em 2002, foram registrados 63, com dezoito vítimas fatais, sem contar as do naufrágio da semana passada. A região amazônica combina ainda várias características que facilitam a ocorrência de tragédias. Como boa parte das rodovias locais está em péssimas condições, os rios tornam-se a melhor e, na maior parte das vezes, a única forma de transporte para milhares de pessoas. Segundo cálculos da Capitania dos Portos de Belém, cerca de 25.000 embarcações têm autorização para navegar na região. Outros 20.000 barcos clandestinos circulam livremente pelos rios. A imensidão desse pedaço do Brasil também aumenta o risco de naufrágios – o mesmo motivo, aliás, já provocou na Amazônia vários acidentes aéreos. O governo não dispõe de recursos para contratar fiscais em número suficiente para controlar uma área tão vasta. A verificação da documentação, das condições dos barcos, do roteiro planejado e da capacidade máxima permitida é feita apenas nos portos mais movimentados. O problema é que a maioria dos barcos faz paradas em pequenos portos não autorizados. É nessas operações clandestinas que tripulantes inescrupulosos permitem a entrada de um número ilimitado de pessoas nos barcos. Foi o que aconteceu na semana passada, segundo relatos de sobreviventes. Muitos contaram aos bombeiros que a tripulação do barco não atendeu ao aviso de outros barqueiros para que não fosse feita a travessia da baía do Rio Pará com tanto peso. Junte-se a todos esses fatores a precariedade das embarcações – algumas não passam por nenhum tipo de vistoria há anos – e surge o cenário perfeito para a ocorrência de naufrágios como o da semana passada.

   
 




Foto Pedro Martinelli
   
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