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Edição 1 783 - 25 de dezembro de 2002
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E Gil vai zinzilular

Apesar do tumulto nos bastidores,
a formação do ministério de Lula
tem uma boa cara

Maurício Lima


Ernesto Rodrigues/AE
Gilberto Gil, ao aceitar a Cultura no governo Lula: chiadeira dos aliados

A composição do ministério do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva tem chamado a atenção por duas características. A primeira é a boa qualidade de suas escolhas. A outra é a confusão que o processo de seleção tem gerado. Na semana passada, a indicação do músico e compositor Gilberto Gil para a pasta da Cultura mostrou como as negociações têm sido atrapalhadas. Numa conversa com jornalistas, Gil resolveu aceitar o Ministério da Cultura sem que o presidente eleito tivesse feito o anúncio oficial. O compositor acrescentou que havia aceitado o cargo depois de conseguir a autorização de Lula para continuar fazendo 25 shows por ano – ou seja, Gil lulou e poderá zinzilular, soltando a voz pelo país. O artista, que fatura em torno de 50.000 reais por apresentação, disse que não poderia viver com o salário de ministro, de 8.500 reais. O compositor baiano acabou causando desconforto para aliados de Lula. O grupo que articulou propostas para a área da Cultura no programa de governo do PT discordou da escolha. Artistas ouvidos pela imprensa se dividiram. Metade deles acusou o governo Lula de não ter a mínima idéia do que seja política de Estado para a área cultural. Até quinta-feira, o cantor ainda não tinha sido anunciado oficialmente, mas o mal-estar já estava instalado.


José Paulo Lacerda/AE
Michel Temer: as duas alas do PMDB podem ser contempladas no governo Lula


O episódio foi mais um exemplo das dificuldades que Lula vem tendo para acomodar os representantes dos diversos grupos que o apoiaram na eleição. Nem mesmo seus correligionários dão trégua. Na semana passada, o novo presidente do Banco Central petista, o ex-banqueiro Henrique Meirelles, foi sabatinado no Senado. O que se viu ficará nos anais das sessões surrealistas da Casa. Meirelles, bem-aceito pelo mercado, também agradou aos integrantes dos partidos conservadores. Já os aliados de Lula se revezaram nas perguntas duras ao ex-banqueiro. A senadora Heloísa Helena, da ala radical do PT, preferiu se ausentar do plenário do Senado para não ter de votar contra o nome de Meirelles, que ela não engole de forma alguma. Com os partidos aliados, o relacionamento também não tem sido fácil. Lula finalmente conseguiu dobrar o ex-governador Leonel Brizola, que queria para ele mesmo uma vaga no ministério de Lula. Já o PT estava temeroso de uma participação tão direta de Brizola no governo. Lideranças petistas temiam que declarações bombásticas do ex-governador pudessem provocar embaraços à administração de Lula. O impasse foi resolvido com a indicação do deputado Miro Teixeira para a pasta das Comunicações.


José Paulo Lacerda/AE
Miro Teixeira: fidelidade a Brizola, trānsito no Congresso e dentro do PT


Agora, o maior desafio de Lula, porém, é acertar o apoio da geléia do PMDB. O partido, que pode dar maioria parlamentar ao governo petista, estava praticamente fechado com Lula na quinta-feira da semana passada. O que, em se tratando de PMDB, não é garantia de compromisso irrevogável. Pelo acordo inicial, o PMDB ficaria com dois ministérios. Um para a ala liderada por Michel Temer, que deu apoio incondicional ao governo Fernando Henrique Cardoso e esteve com José Serra no primeiro e no segundo turnos da eleição. A segunda pasta iria para o grupo que fez campanha para o PT, composto de alguns governadores eleitos e opositores de FHC. Se se confirmar o apoio, será a primeira vez que o PMDB ficará unido em torno de um projeto presidencial desde o governo Sarney. A grande dificuldade para o acerto definitivo é que, por causa das divisões internas, a legenda não tem interlocutores que falem pelo partido inteiro. Apesar desse tipo de contratempo, o resultado final do ministério tem sido bom. O anúncio de Meirelles para a presidência do BC ajudou a derrubar o dólar na semana passada. A confirmação oficial do jurista Márcio Thomaz Bastos para o Ministério da Justiça é inquestionável. O processo é lento e difícil, mas a equipe saiu melhor que a encomenda.


   
 
   
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