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Edição 1 783 - 25 de dezembro de 2002
A semana Banco Central
 

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O BC do PT será
igual ao BC de FHC

O presidente do Banco Central,
Henrique Meirelles, é aprovado
pelo Senado, compromete-se
com uma política monetária
realista e doma as expectativas

Denise Ramiro e Lucila Soares

 
Dida Sampaio/AE
Meirelles na sabatina do Senado: combate à inflação é tarefa técnica, e não ideológica



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O Brasil terminou o ano com os juros mais altos desde maio de 1999. Na semana passada, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu elevar a taxa básica, de 22% para 25%. Com isso, o Brasil continua sendo o número 2 do mundo em matéria de juros reais mais altos. Perde apenas para a Turquia. O juro real é calculado subtraindo a inflação da taxa básica definida pelo Banco Central. Os técnicos do banco explicaram que o aumento se deveu à alta da inflação nas últimas semanas e à expectativa de que os preços tenham combustível para subir mais nos primeiros meses de 2003. Com o anúncio da nova taxa básica de juros, um bolo amargo às vésperas das festas de fim de ano, o dólar recuou e ficou abaixo de 3,50 reais, com tendência de queda ainda maior. Os indicadores internacionais que medem o risco de investir em títulos brasileiros também caíram aos níveis mais baixos desde junho. A interpretação geral é a de que o aumento dos juros é um remédio tradicional, um tanto bruto e indesejável, mas inevitável quando se trata de controlar surtos inflacionários como o que paira sobre a economia brasileira.

Colocar os juros básicos da economia em 25% foi a última mexida na taxa feita pelo BC sob o comando de Armínio Fraga. A interpretação unânime do mercado, porém, é a de que ela já foi feita como uma antecipação da política monetária do BC do PT e de seu novo presidente, Henrique Meirelles, sabatinado e aprovado pelo Senado na semana passada. "O governo Lula tem um compromisso implacável com o combate à inflação. Vamos perseguir essa meta com vigor, e esperamos que a sociedade entenda que essa prioridade e esse mandato do Banco Central serão perseguidos com determinação, sem hesitação", disse Meirelles na quinta-feira. Ele foi ainda mais explícito sobre como funcionará o BC sob o governo do PT. Ele adiantou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai encaminhar ao Congresso uma proposta de funcionamento autônomo do Banco Central, com mandatos fixos para o presidente e os diretores. A idéia é que a duração desses mandatos não seja coincidente com a do presidente da República, de modo a deixar claro que as funções da autoridade monetária independem da coloração ideológica do ocupante do Palácio do Planalto. "O órgão que vou dirigir é o guardião da moeda", disse Meirelles. "A contribuição que o BC pode dar ao crescimento econômico é a manutenção da estabilidade de preços."


Ana Marques/Folha Imagem
Heloísa Helena: oposição e lágrimas


A visão moderna e sadia do papel do Banco Central expressa por Meirelles agradou aos agentes do mercado. "O caminho mais curto para controlar a inflação é mesmo promover um aumento forte da taxa agora", diz Octavio de Barros, economista-chefe do BBV. Segundo ele, a combinação de taxas de juro elevadas e austeridade fiscal abrirá espaço para que os juros comecem a cair de forma sustentada a partir do fim do segundo trimestre de 2003. A sintonia de política econômica entre o atual e o futuro governo, pregada constantemente pelo ministro da Fazenda, Pedro Malan, nos últimos dois anos, incomodou algumas lideranças petistas. A senadora Heloísa Helena foi a válvula de escape desse descontentamento. Para evitar o dissabor de ter um voto contra Meirelles vindo do próprio partido governista, o PT decidiu afastar Heloísa Helena da sabatina do presidente do BC. Para escapar de uma punição da cúpula partidária, a senadora alagoana concordou, mas não escondeu sua amargura. Ela chorou diante das câmeras de televisão.

A decisão de aumentar os juros num país em que as taxas já estão entre as mais altas do mundo parece um contra-senso. Principalmente quando se leva em conta a gravidade dos efeitos colaterais da medida. Juros mais altos desestimulam empresas a produzir e consumidores a comprar – uma situação que dificulta a retomada do crescimento econômico e empurra para um horizonte mais distante a redução do desemprego no país. Um segundo efeito negativo é o aumento da dívida interna, que está em 630 bilhões de reais, dos quais 45% estão atrelados à taxa básica de juros estabelecida pelo BC. "O aumento dos juros acaba anulando os ganhos obtidos com o esforço de ajuste fiscal", diz o economista e sócio da consultoria Global Invest Fernando Pinto Ferreira. A estimativa é que um aumento de 3 pontos porcentuais na taxa signifique ao longo de um ano um custo adicional de 8 bilhões de reais. Por fim, uma política continuada de juros altos, em vez de sinalizar força e disposição da autoridade monetária, pode ser interpretada como fraqueza, como a admissão de que o risco país é realmente alto, e, por isso, o governo se dispõe a pagar taxas elevadas. Por isso, juro alto não pode ser uma política, mas uma arma a ser usada num golpe duro e rápido.

 
Reuters
Malan na despedida do Congresso: vitória na defesa da estabilidade

A idéia que tem prevalecido no debate econômico mundial nos últimos tempos é que a inflação é o mais perigoso inimigo do crescimento econômico sustentado e da melhoria da distribuição de renda. Para defender a estabilidade dos preços e evitar a aceleração inflacionária, a maioria dos especialistas considera, por isso, que a alta dos juros é uma medida correta. "A inflação compromete mais profundamente as perspectivas de retomada do crescimento que a alta de juros", diz Gustavo Loyola, ex-presidente do BC, atualmente na consultoria Tendências. Ela atrapalha o planejamento e estimula a especulação em detrimento da produção. E ainda é um imposto que incide principalmente sobre os mais pobres. Para alguns economistas, a alta deveria até ter vindo antes. "O BC achou que a alta do dólar era passageira e não subiu os juros suficientemente", critica Carlos Thadeu de Freitas, do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais e ex-diretor do BC. Para Gustavo Loyola, quando se trata de política monetária, é melhor usar um remédio forte em prazo mais curto do que tentar doses homeopáticas durante meses a fio.

 
Vidal Cavalcante/AE
Agitação na bolsa de mercadorias em São Paulo na semana passada: dólar em queda livre na quinta-feira

A aposta atual do mercado é que o novo choque dos juros deverá brecar a voracidade pela remarcação dos preços. Os juros mais altos inibem o consumo e, portanto, diminuem o espaço para mais aumentos de preço, o que é fundamental neste momento. O Índice Geral de Preços ao Mercado (IGP-M), da Fundação Getúlio Vargas, que mede principalmente os preços no comércio atacadista, já acumulou 24,7% de alta até a metade de dezembro e é um recorde dos últimos oito anos. Desde então, o IGP-M já começou a dar sinais de desaceleração, mas o IPCA, o índice oficial do governo que mede a inflação ao consumidor, continua preocupando. Todas as projeções para os primeiros meses do ano que vem são de preços em elevação. Um foco inesperado de pressão inflacionária é o aumento da demanda dos consumidores por serviços e produtos registrado nos últimos dois meses. Os sinais ainda são discretos, mas começam a ser observados. Odair Abate, economista-chefe do Lloyds TSB, chama a atenção para algumas questões que vêm levando ao aquecimento do consumo, algo inesperado numa economia com taxas medíocres de crescimento. Entre essas razões está o aumento da circulação de dinheiro na economia. Muita gente que viajava para o exterior passou a gastar dinheiro no Brasil em razão da alta do dólar. Além disso, em 2002 muitos trabalhadores tiveram rendimento extra com o pagamento das perdas do FGTS, o fundo de garantia do tempo de serviço. Essa injeção inesperada de recursos na economia levou a um crescimento do produto interno bruto (PIB) nos últimos três meses de 2002 da ordem de 3,5% – uma taxa espantosa mas suficiente apenas para que a média anual de crescimento da economia brasileira fique na casa do 1%. Para 2003, o mercado avalia que o dólar continuará em queda, a inflação vai resistir na casa dos dois dígitos por alguns meses, mas acabará cedendo sob o peso dos juros altos. Não é o melhor dos mundos. Porém, para quem esperava o caos há apenas alguns meses, chega a ser um presente de Natal.

   
 

 

 

   
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