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O BC do PT será
igual ao BC de FHC
O presidente
do Banco Central,
Henrique Meirelles, é aprovado
pelo Senado, compromete-se
com uma política monetária
realista e doma as expectativas
Denise Ramiro
e Lucila Soares
Dida Sampaio/AE
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| Meirelles
na sabatina do Senado: combate à inflação é tarefa técnica, e não
ideológica |

Veja também |
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O Brasil
terminou o ano com os juros mais altos desde maio de 1999. Na semana passada,
o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu elevar
a taxa básica, de 22% para 25%. Com isso, o Brasil continua sendo
o número 2 do mundo em matéria de juros reais mais altos.
Perde apenas para a Turquia. O juro real é calculado subtraindo
a inflação da taxa básica definida pelo Banco Central.
Os técnicos do banco explicaram que o aumento se deveu à
alta da inflação nas últimas semanas e à expectativa
de que os preços tenham combustível para subir mais nos
primeiros meses de 2003. Com o anúncio da nova taxa básica
de juros, um bolo amargo às vésperas das festas de fim de
ano, o dólar recuou e ficou abaixo de 3,50 reais, com tendência
de queda ainda maior. Os indicadores internacionais que medem o risco
de investir em títulos brasileiros também caíram
aos níveis mais baixos desde junho. A interpretação
geral é a de que o aumento dos juros é um remédio
tradicional, um tanto bruto e indesejável, mas inevitável
quando se trata de controlar surtos inflacionários como o que paira
sobre a economia brasileira.
Colocar
os juros básicos da economia em 25% foi a última mexida
na taxa feita pelo BC sob o comando de Armínio Fraga. A interpretação
unânime do mercado, porém, é a de que ela já
foi feita como uma antecipação da política monetária
do BC do PT e de seu novo presidente, Henrique Meirelles, sabatinado e
aprovado pelo Senado na semana passada. "O governo Lula tem um compromisso
implacável com o combate à inflação. Vamos
perseguir essa meta com vigor, e esperamos que a sociedade entenda que
essa prioridade e esse mandato do Banco Central serão perseguidos
com determinação, sem hesitação", disse Meirelles
na quinta-feira. Ele foi ainda mais explícito sobre como funcionará
o BC sob o governo do PT. Ele adiantou que o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva vai encaminhar ao Congresso uma proposta de funcionamento
autônomo do Banco Central, com mandatos fixos para o presidente
e os diretores. A idéia é que a duração desses
mandatos não seja coincidente com a do presidente da República,
de modo a deixar claro que as funções da autoridade monetária
independem da coloração ideológica do ocupante do
Palácio do Planalto. "O órgão que vou dirigir é
o guardião da moeda", disse Meirelles. "A contribuição
que o BC pode dar ao crescimento econômico é a manutenção
da estabilidade de preços."
Ana Marques/Folha Imagem
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| Heloísa
Helena: oposição e lágrimas |
A visão moderna e sadia do papel do Banco Central expressa por
Meirelles agradou aos agentes do mercado. "O caminho mais curto para controlar
a inflação é mesmo promover um aumento forte da taxa
agora", diz Octavio de Barros, economista-chefe do BBV. Segundo ele, a
combinação de taxas de juro elevadas e austeridade fiscal
abrirá espaço para que os juros comecem a cair de forma
sustentada a partir do fim do segundo trimestre de 2003. A sintonia de
política econômica entre o atual e o futuro governo, pregada
constantemente pelo ministro da Fazenda, Pedro Malan, nos últimos
dois anos, incomodou algumas lideranças petistas. A senadora Heloísa
Helena foi a válvula de escape desse descontentamento. Para evitar
o dissabor de ter um voto contra Meirelles vindo do próprio partido
governista, o PT decidiu afastar Heloísa Helena da sabatina do
presidente do BC. Para escapar de uma punição da cúpula
partidária, a senadora alagoana concordou, mas não escondeu
sua amargura. Ela chorou diante das câmeras de televisão.
A decisão
de aumentar os juros num país em que as taxas já estão
entre as mais altas do mundo parece um contra-senso. Principalmente quando
se leva em conta a gravidade dos efeitos colaterais da medida. Juros mais
altos desestimulam empresas a produzir e consumidores a comprar
uma situação que dificulta a retomada do crescimento econômico
e empurra para um horizonte mais distante a redução do desemprego
no país. Um segundo efeito negativo é o aumento da dívida
interna, que está em 630 bilhões de reais, dos quais 45%
estão atrelados à taxa básica de juros estabelecida
pelo BC. "O aumento dos juros acaba anulando os ganhos obtidos com o esforço
de ajuste fiscal", diz o economista e sócio da consultoria Global
Invest Fernando Pinto Ferreira. A estimativa é que um aumento de
3 pontos porcentuais na taxa signifique ao longo de um ano um custo adicional
de 8 bilhões de reais. Por fim, uma política continuada
de juros altos, em vez de sinalizar força e disposição
da autoridade monetária, pode ser interpretada como fraqueza, como
a admissão de que o risco país é realmente alto,
e, por isso, o governo se dispõe a pagar taxas elevadas. Por isso,
juro alto não pode ser uma política, mas uma arma a ser
usada num golpe duro e rápido.
Reuters
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| Malan
na despedida do Congresso: vitória na defesa da estabilidade
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A idéia
que tem prevalecido no debate econômico mundial nos últimos
tempos é que a inflação é o mais perigoso
inimigo do crescimento econômico sustentado e da melhoria da distribuição
de renda. Para defender a estabilidade dos preços e evitar a aceleração
inflacionária, a maioria dos especialistas considera, por isso,
que a alta dos juros é uma medida correta. "A inflação
compromete mais profundamente as perspectivas de retomada do crescimento
que a alta de juros", diz Gustavo Loyola, ex-presidente do BC, atualmente
na consultoria Tendências. Ela atrapalha o planejamento e estimula
a especulação em detrimento da produção. E
ainda é um imposto que incide principalmente sobre os mais pobres.
Para alguns economistas, a alta deveria até ter vindo antes. "O
BC achou que a alta do dólar era passageira e não subiu
os juros suficientemente", critica Carlos Thadeu de Freitas, do Instituto
Brasileiro de Mercado de Capitais e ex-diretor do BC. Para Gustavo Loyola,
quando se trata de política monetária, é melhor usar
um remédio forte em prazo mais curto do que tentar doses homeopáticas
durante meses a fio.
Vidal Cavalcante/AE
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| Agitação
na bolsa de mercadorias em São Paulo na semana passada: dólar em queda
livre na quinta-feira |
A aposta
atual do mercado é que o novo choque dos juros deverá brecar
a voracidade pela remarcação dos preços. Os juros
mais altos inibem o consumo e, portanto, diminuem o espaço para
mais aumentos de preço, o que é fundamental neste momento.
O Índice Geral de Preços ao Mercado (IGP-M), da Fundação
Getúlio Vargas, que mede principalmente os preços no comércio
atacadista, já acumulou 24,7% de alta até a metade de dezembro
e é um recorde dos últimos oito anos. Desde então,
o IGP-M já começou a dar sinais de desaceleração,
mas o IPCA, o índice oficial do governo que mede a inflação
ao consumidor, continua preocupando. Todas as projeções
para os primeiros meses do ano que vem são de preços em
elevação. Um foco inesperado de pressão inflacionária
é o aumento da demanda dos consumidores por serviços e produtos
registrado nos últimos dois meses. Os sinais ainda são discretos,
mas começam a ser observados. Odair Abate, economista-chefe do
Lloyds TSB, chama a atenção para algumas questões
que vêm levando ao aquecimento do consumo, algo inesperado numa
economia com taxas medíocres de crescimento. Entre essas razões
está o aumento da circulação de dinheiro na economia.
Muita gente que viajava para o exterior passou a gastar dinheiro no Brasil
em razão da alta do dólar. Além disso, em 2002 muitos
trabalhadores tiveram rendimento extra com o pagamento das perdas do FGTS,
o fundo de garantia do tempo de serviço. Essa injeção
inesperada de recursos na economia levou a um crescimento do produto interno
bruto (PIB) nos últimos três meses de 2002 da ordem de 3,5%
uma taxa espantosa mas suficiente apenas para que a média
anual de crescimento da economia brasileira fique na casa do 1%. Para
2003, o mercado avalia que o dólar continuará em queda,
a inflação vai resistir na casa dos dois dígitos
por alguns meses, mas acabará cedendo sob o peso dos juros altos.
Não é o melhor dos mundos. Porém, para quem esperava
o caos há apenas alguns meses, chega a ser um presente de Natal.
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