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"Estamos
vulneráveis"
O presidente do Conselho de
Segurança de Clinton diz
que
os EUA estão inseguros, mas
um ataque ao Iraque não vai
diminuir o risco do terrorismo
Tania Menai, de Nova York
Samuel ("Sandy") R. Berger, 57 anos, foi para o presidente americano Bill
Clinton o que Henry Kissinger fora para Richard Nixon mais de vinte anos
antes, durante a Guerra do Vietnã. Não apenas por Berger
e Kissinger terem ocupado o mesmo cargo, o de presidente do Conselho de
Segurança Nacional, mas pela influência que ambos exerceram
sobre seus respectivos chefes. Entre 1997 e o ano 2000, Berger montou
a estratégia de intervenção americana em Kosovo,
comandou a deposição da ditadura militar no Haiti e, a pedido
de Clinton, cuidou para que os efeitos da crise financeira na Ásia
se espalhassem com menor força destrutiva pelo mundo. Afastado
da política, Berger é hoje sócio do ex-embaixador
americano no Brasil Anthony Harrington na Stonebridge International, empresa
de consultoria estratégica baseada em Washington. Pai de três
filhos adultos, viaja semanalmente a Nova York, sua cidade natal, onde
falou a VEJA.
Veja Há certa decepção no Brasil e em
toda a América Latina com a receita de desenvolvimento que os americanos
venderam aos governos da região nos anos 90. O senhor acha que
os líderes americanos estão cientes dessa realidade?
Berger
Durante os anos 80 e 90, muitos governos na América Latina promoveram
políticas corretas inspiradas em nós que visavam à
promoção do crescimento. Mesmo com a aplicação
dessas medidas corretas, a renda per capita não cresceu no continente.
Claro que esse fracasso se tornou um desafio para todos nós. Fomos
obrigados a repensar e redefinir o que acreditamos seja o caminho para
o desenvolvimento. Agora vemos que é preciso adaptar as políticas
econômicas que julgamos serem capazes de promover o crescimento
a outras que contemplem também as reformas sociais.
Veja Há três semanas, o presidente eleito Lula
se encontrou com o presidente George W. Bush em Washington. O que se pode
esperar desse encontro?
Berger
Estou
feliz com a vinda de Lula. O presidente eleito do Brasil é uma
prova da vitalidade da democracia brasileira. A imagem que temos dele
é a de um homem que perdeu diversas eleições, mas
mesmo assim manteve sua fé no sistema político democrático.
Estou bastante esperançoso. Acho que a transição
entre o presidente Fernando Henrique Cardoso e Lula tem sido suave e com
mútua cooperação. É estimulante saber que
o presidente eleito disse, durante sua campanha, que pretende dar continuidade
às políticas que estimulam crescimento e mais oportunidades.
A reforma social não é interessante só para o Brasil,
mas também para os Estados Unidos. Trata-se do quinto maior país
do mundo, da 11ª economia global, que representa metade da América
do Sul. Quando eu estava na Casa Branca, já considerávamos
que o entendimento entre Brasil e Estados Unidos era uma das conquistas
mais importantes para a estabilidade do mundo. Nosso foco agora é
na guerra contra o terrorismo, mas ainda assim espero que possamos colaborar
para o sucesso do novo presidente e estreitar ainda mais a relação
com o Brasil. Por sinal, vocês sabem fazer eleições
com muito mais eficiência do que nós. Apuraram seus votos
em menos de dez horas. Não somos capazes de fazer o mesmo. Gostaria
de mandar para o Brasil as pessoas da Flórida envolvidas com eleições,
para que aprendam como se faz.
Veja Como o senhor aconselharia o presidente eleito Lula
a agir em relação às Forças Armadas Revolucionárias
da Colômbia (Farc), a guerrilha que desestabiliza o país
vizinho do Brasil?
Berger
Não acho apropriado dar conselhos a Lula. As Farc exercem influência
destrutiva na Colômbia e, de modo geral, não têm apoio
dos colombianos. Por isso, acho que é papel dos Estados Unidos
apoiar o presidente da Colômbia em sua tentativa de reconquistar
o poder sobre todo o território de seu país.
Veja Os países da América Latina, incluindo
o Brasil, devem se engajar na guerra mundial liderada pelos Estados Unidos
contra o terrorismo?
Berger
Sim. Muitos dos países da América Latina têm sido
vítimas do terrorismo. Obviamente, existem vários tipos
de terrorismo. É perigoso juntá-los no mesmo grupo, mas
temos de concordar com o princípio de que ter civis inocentes como
alvo não deve ser justificável. Há iniciativas que
podemos realizar em conjunto, como o controle dos fundos que apóiam
financeiramente o terrorismo e que circulam pelo continente. Podemos compartilhar
dados obtidos pelos respectivos serviços nacionais de inteligência.
Veja O que esperar do novo Departamento de Segurança
Interna americano, cujo orçamento é de 38 bilhões
de dólares?
Berger
Essa é a maior reorganização do governo americano
desde 1947, quando foi criado o Departamento de Defesa. É um passo
útil, mas não suficiente. No começo, envolverá
mudanças burocráticas gigantescas, na medida em que 170.000
pessoas de 22 agências diferentes vão se juntar sob um comando
único. A idéia é que isso resulte numa integração
maior e numa série de normas comuns relacionadas à segurança
nacional.
Veja Seria a primeira vez que mais burocracia resultaria
em maior eficiência, não?
Berger
Espero que a nova organização diminua a burocracia. Hoje
temos dezenas de agências. Elas não trabalham muito afinadas.
Então, pelo menos na teoria, elas serão agrupadas e funcionarão
com maior coordenação. Isso deverá levar cerca de
um ano para fazer diferença na prática. Cercados por dois
oceanos imensos e dois países amigos, os Estados Unidos costumavam
se sentir invulneráveis. Os ataques de 11 de setembro fizeram o
país reconhecer suas fragilidades. Confiávamos bastante
em que sempre haveria alarmes e avisos claros de um ataque aos Estados
Unidos. Mas, como vimos, quando os inimigos são terroristas esses
avisos podem não vir. Por isso, temos de enxergar nossa segurança
nacional do ponto de vista da vulnerabilidade, e não apenas baseados
em avisos e ameaças.
Veja Por que os Estados Unidos acham que devem invadir o
Iraque?
Berger
Saddam Hussein representa uma ameaça para a região e para
o mundo, mas não acredito que a principal ameaça seja relacionada
ao terrorismo. Claro que não se pode descartar a idéia de
que ele dará armas biológicas ou químicas para a
Al Qaeda ou alguma outra organização. É algo possível.
Mas não é uma característica de Saddam dar armas
para grupos sobre os quais não tem controle e que historicamente
têm sido bastante hostis a ele. Ele era uma ameaça antes
de 11 de setembro e é uma ameaça depois de 11 de setembro.
Por quê? Porque sua ambição ainda é dominar
a região do Golfo. Ele tentou nos anos 80, com a guerra contra
o Irã, e nos anos 90, ao invadir o Kuwait. Estou particularmente
preocupado com as armas nucleares no Iraque porque podem mudar a dinâmica
da região de uma forma muito perigosa. Dito isso, não acho
que temos necessidade de apressar o ataque, como se está fazendo.
Veja Quais são os riscos que uma guerra contra Saddam
poderia trazer?
Berger
Nos
Estados Unidos, discute-se muito sobre a capacidade de Saddam de usar
armas químicas e nucleares durante o conflito. Um dos pontos que
precisam ser mais discutidos é o risco de uma resposta hostil antiamericana.
Esse risco existe e deve ser examinado com muito cuidado. Existe também
a possibilidade de que o ataque ao Iraque acirre de tal forma as tensões
a ponto de desencadear uma nova guerra entre árabes e israelenses.
Todos esses riscos devem fazer parte das considerações do
governo antes de ele determinar um ataque. Por isso, acho importante só
agirmos com claro e amplo apoio internacional. Uma ação
da comunidade internacional contra Saddam levantaria menos resistências.
Se a ação militar se tornar necessária, melhor que
seja pela intransigência de Saddam. Não pela impaciência
dos americanos.
Veja É possível que muitos americanos estejam
apoiando a guerra contra o Iraque apenas por medo de Saddam Hussein e
de suas armas?
Berger
Acho que a cobertura intensiva da televisão e da imprensa de questões
ligadas à guerra ao terrorismo não é exagerada. É
da natureza da mídia gravitar em torno de assuntos excitantes.
Sem dúvida, a guerra contra o terror produz interesse. Mas acho
que temos de reconhecer que, da maneira como as coisas estão sendo
colocadas, parece que deter o terror é a pauta única de
nossa política externa quando não é. Ainda
temos interesses globais e relações fortes em nosso próprio
continente que não dizem respeito ao combate a terroristas. Não
podemos dar a impressão ao mundo de que somos um país com
uma única preocupação.
Veja Quando os americanos voltarão a se sentir seguros?
Berger
Não estou certo se algum dia poderemos voltar a nos sentir "seguros".
Podemos, sim, nos sentir "mais seguros". Acredito que continuaremos vulneráveis
ainda por um bom tempo, visto que há uma rede de terroristas mirando
diretamente os Estados Unidos. A fase militar da luta contra o terror
acabou. O que precisa ser feito agora é mais sutil, exige a cooperação
de outros países. Parte de nossa segurança depende da maneira
como nos relacionaremos com o restante do mundo. Não podemos dividir
o mundo entre nós e os bárbaros. Temos de deixar claro que
nosso poder não será usado apenas para nos proteger, mas
para garantir o bem-estar mundial. Do ponto de vista moral essa é
a coisa certa a ser feita; ela faz parte da guerra contra o terrorismo.
Essa postura define a visão que o mundo terá dos Estados
Unidos.
Veja O que o senhor acha do temor que muitos americanos têm
de ser alvo da espionagem oficial, realmente algo inédito na história
dos Estados Unidos?
Berger
Muita gente está apreensiva com a idéia de ter uma operação
de espionagem doméstica, que possa tornar-se intrusa e interferir
na liberdade dos indivíduos. Penso que temos de buscar um ponto
de equilíbrio. É fundamental que haja cruzamento de dados
para evitar novos ataques antes que seja tarde demais. O FBI, pelo que
se sabe, não tomou conhecimento de importantes movimentações
de suspeitos. Caso os agentes tivessem trocado informações
com a CIA, talvez o 11 de setembro pudesse ter sido evitado. Em resumo,
o FBI "não sabia o que não sabia e não sabia o que
sabia". Isso tem de acabar.
Veja Durante o governo Clinton, vocês imaginaram que
um ataque daquela magnitude poderia ser concebido?
Berger
Ao longo dos oito anos de mandato, o presidente Clinton focou crescentemente
a atenção no terrorismo. Em 1995, ao discursar nas Nações
Unidas, alertou para o desafio global contra o terrorismo. No ano seguinte,
no mais importante discurso do país, ele disse que o terrorismo
é a ameaça da nossa geração. Em 1998, quando
nossas embaixadas na África foram atacadas, pela primeira vez a
comunidade de inteligência conseguiu atribuir um ataque à
Al Qaeda de Osama bin Laden. Fizemos um enorme esforço para capturá-lo,
mas não tivemos, infelizmente, as informações necessárias
para isso. As circunstâncias eram difíceis. O Paquistão
era um aliado do Talibã. Todos os governos da região também.
Obviamente, o 11 de setembro mudou a correlação de forças
na região e o mundo passou a encarar a ameaça de forma diferente.
Veja Que diferença faz Osama bin Laden estar vivo
ou morto?
Berger
O destino de Laden precisa estar em nossas mãos. Isso pode levar
seis meses ou dois anos. Mas a lição de 11 de setembro tem
de ser uma lição de derrota para os terroristas, e não
um prêmio à ousadia. Enquanto Osama bin Laden estiver vivo
e livre, ele simbolizará o uso do poder destrutivo capaz de confrontar
o mundo civilizado. Esse não pode ser o último capítulo.
Nos anos 90, durante o governo Clinton, capturamos alguns dos principais
terroristas em atividade no mundo. Em certos casos, eram pessoas procuradas
havia doze anos. O responsável pelo primeiro ataque ao World Trade
Center, em 1993, foi capturado em 1995. Temos de ser persistentes. Seja
qual for seu papel operacional, Laden é o símbolo de um
dos ataques mais brutais que o mundo já viu. Isso não pode
passar sem que ele e seu grupo sofram severas conseqüências.
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