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Sérgio
Abranches
Sobre
presidentes
e mudanças
"Fernando
Henrique será lembrado pelas
mudanças fundamentais e paradigmáticas
que serão apropriadamente registradas pela
história, independentemente do que faça o
governo Lula"
Ilustração Ale Setti
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Em política, existem mudanças de primeira, segunda e terceira
ordens. As de primeira ordem são cosméticas, não
alteram fundamentos nem conceitos. As de segunda ordem são essenciais,
mudam os fundamentos das políticas. As de terceira ordem são
paradigmáticas, rompem com os padrões estabelecidos.
Todo governo é forçado a fazer muitas mudanças de
primeira ordem e algumas de segunda. As mudanças de terceira ordem
só ocorrem quando há a coincidência entre a oportunidade,
a capacidade política e intelectual e a deliberação
de promovê-las.
Fernando Henrique Cardoso termina seu governo condenado por muitos como
se tivesse sido um presidente cosmético ou tivesse cometido erros
fundamentais e paradigmáticos. Não foi assim. Erros todos
os governos cometem. Fernando Henrique será lembrado pelas mudanças
fundamentais e paradigmáticas que serão apropriadamente
registradas pela história, independentemente do que faça
o governo Lula.
Três mudanças no paradigma dominante são indiscutíveis
e indisputáveis. No padrão de comportamento econômico,
do inflacionismo para a valorização da estabilidade. No
padrão de convivência política e institucional, do
clientelismo manipulador e intrinsecamente autocrático para um
padrão de convivência democrática institucionalizada
e de ampla, total e irrestrita liberdade de opinião, manifestação
e imprensa, para benefício principalmente de seus adversários
e do controle social.
No modelo de política social na educação e na saúde,
reduzindo o clientelismo assistencialista, descentralizando e mudando
o conceito de provisão, antes de doação, para vê-lo
como direito de cidadania. A era do cartão magnético, da
transferência direta de rendas se imporá pela transparência
e porque essa modalidade de política pública libera o cidadão
carente das amarras do coronelismo e do populismo. Existem problemas gravíssimos,
ainda, de qualidade, gestão e respeito ao cidadão nos hospitais
públicos brasileiros. Há problemas sérios de qualidade
no ensino público. O modelo de ensino universitário, corporativista
e excludente, não sofreu mudança sequer cosmética.
O maior avanço foi no controle de qualidade. Mas, na saúde
e na educação de base, a ruptura paradigmática se
deu no governo FHC.
Houve erros conceituais. Na reforma da Previdência, por exemplo,
cuja proposta inicial era puramente cosmética e de dificílima
aprovação. Pedia sacrifícios correntes demais, para
benefícios futuros desprezíveis. Na operação
da convivência multipartidária, indispensável no presidencialismo
de coalizão, quando, por exemplo, deixou que se rompesse a coalizão,
no início do segundo mandato, reduzindo a capacidade decisória
do governo no Legislativo, quando era previsível que ele seria
muito mais difícil que o primeiro.
O fim da administração Fernando Henrique foi marcado por
outra ruptura: a eleitoral. O pleito de 2002 foi o que os politicólogos
chamam de eleição crítica, que altera o padrão
de voto e muda radicalmente o curso das escolhas partidárias. Foi
o que tivemos: a vitória do presidente Luiz Inácio representou
uma guinada no voto de amplas faixas das classes média e alta para
a esquerda e de setores populares, antes prisioneiros do voto de cabresto
nos candidatos das oligarquias, para o PT. Foi um voto na direção
inversa à de 1989, 1994 ou 1998, mesmo levando em consideração
que Lula, na campanha, tenha buscado um discurso mais ao centro e conciliador.
O governo nascido dessa ruptura eleitoral será radicalmente distinto
do antecessor, apesar da aparência de similitude inesperada na área
macroeconômica. O novo presidente, por sua história e vocação,
pode promover inúmeras mudanças paradigmáticas nas
políticas públicas, sem afrontar os princípios fundamentais
da convivência democrática e pluralista. As mais importantes
seriam dos modelos previdenciário e trabalhista e a implantação
de um novo conceito de rede de proteção social. Na Previdência,
acabando com o paradigma de privilégios. Na área trabalhista,
para revolucionar o corporativismo. No social, criando uma rede de proteção
radicalmente focalizada nos despossuídos e, principalmente, na
maioria despossuída que tem cor, negra. A oportunidade para implantar
um novo paradigma social, previdenciário e trabalhista está
dada pela ruptura eleitoral. Ao novo presidente caberá mobilizar
a capacidade e ter a deliberação de fazê-lo.
Sobre isso escreverei no ano que vem, sob nova Presidência. Feliz
ano-novo e os melhores votos para o novo governo, que começa em
meio a muita esperança e tendo pela frente grandes desafios.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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