Eleições
"Obama não teria vez"
Fernando
Cavalcanti
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| Antonio Lavareda: "O lulismo tem semelhanças
com o varguismo, o peronismo e o chavismo" |
A legislação brasileira permite que os governantes façam
campanha no rádio e na TV desde sua posse. Já a oposição
só dispõe do mês e meio que precede a eleição.
Se as mesmas regras estivessem em vigor nos Estados Unidos, um senador desconhecido
e em primeiro mandato como Barack Obama jamais chegaria à Presidência,
como ocorreu no ano passado. A conclusão é do sociólogo Antonio
Lavareda, de 58 anos. Com uma bagagem de 76 campanhas políticas acumuladas
desde 1985, ele já analisou 5 000 pesquisas de intenção de
voto e é considerado um dos maiores estrategistas do país. Nesta
semana, lança Emoções Ocultas e Estratégias Eleitorais (Editora Objetiva), no qual disseca as eleições ocorridas nos últimos
vinte anos. Recém-filiado ao PSDB, para tentar se candidatar ao Parlamento
do Mercosul, Lavareda falou ao editor Felipe Patury e à repórter
Sandra Brasil sobre o livro e as perspectivas políticas para 2010.
O
NOVO ELEITOR
O brasileiro está mais educado. Desde a redemocratização,
o analfabetismo caiu pela metade e o número de pessoas com mais de oito
anos de estudo duplicou. O eleitor também está mais experimentado.
Uma pessoa de 42 anos pode já ter votado sessenta vezes. Portanto, é
mais exigente. Em 1989, um dos fatores apontados nas pesquisas para a escolha
de Fernando Collor era o fato de ele ser novo na política. Isso não
ocorre mais, porque o eleitor passou a exigir experiência e biografia.
DESVIOS
DA LEGISLAÇÃO ELEITORAL
As leis eleitorais estão
repletas de absurdos. Um exemplo: uma mesma coligação dará
ao seu candidato a prefeito um tempo de TV cinco vezes maior do que ao que postula
a Presidência. Isso acontece porque quem disputa o Planalto divide o tempo
de TV com quem concorre a governador, senador e deputado. Os candidatos a prefeito
não o dividem com ninguém. Outro: cantores não podem mais
aparecer nas campanhas. Se essa regra valesse em 1989, perderíamos uma
das peças mais bonitas do nosso marketing político: o coral do Lula
lá. O pior é a restrição do período de
campanha eleitoral, que prejudica as oposições. Os governantes fazem
propaganda desde que tomam posse. Já a oposição só
tem um mês e meio para se apresentar. Se fosse assim nos Estados Unidos,
Barack Obama não seria presidente. Senador de primeiro mandato, ele simplesmente
não conseguiria se tornar conhecido. O ideal seria acabar com o programa
eleitoral gratuito e distribuir seu tempo em comerciais que seriam veiculados
por um prazo mais estendido.
Antonio
Ribeiro
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Collor e Lula, em 1989
Os mais pobres foram decisivos na
eleição do primeiro, há vinte anos, e do segundo, em 2006 |
POLARIZAÇÃO
Depois
da Constituição de 1988, esperava-se que houvesse um grande número
de candidatos no primeiro turno das eleições e que as alianças
ficassem para o segundo turno. O efeito foi o contrário. As pesquisas introduziram
uma lógica de viabilidade eleitoral no início do processo. Já
no primeiro turno, o brasileiro leva em conta não só sua preferência
como a rejeição que sente em relação a outros candidatos.
Isso contribuiu para diminuir o número de candidaturas. Na eleição
de 1989, havia 21 nomes no primeiro turno. Em 2006, foram oito, dos quais só
o presidente Lula e o tucano Geraldo Alckmin eram competitivos.
LULISMO
Dos partidos brasileiros, o PT é o que tem a maior taxa de preferência:
entre 25% e 30% do eleitorado. O lulismo é ainda maior. Não chega
aos 82% de aprovação de Lula, mas alcança 55% da população.
Faço essa estimativa com base nos votos que ele teve no primeiro turno
de 2006. O lulismo é fruto da fragilidade partidária. Nesse contexto,
os líderes carismáticos assumem um papel que é dos partidos:
traduzir a política. O lulismo tem semelhanças com o varguismo,
o janismo e o malufismo. Também se parece com o peronismo argentino e o
chavismo venezuelano.
CLASSE C
A classe média
emergente encorpou na gestão Lula. Ninguém sabe ainda qual será
seu comportamento político. A tendência é que assuma os valores
da classe B. Mas, em 2010, pode ser que ainda aja como as classes D e E. Mesmo
que isso ocorra, não é seguro que ela modifique a eleição
presidencial. Todas as classes sociais votaram de forma semelhante em 1994, 1998
e 2002. Nessas ocasiões, os vitoriosos ganharam em todos os segmentos de
renda e escolaridade. Só houve alteração em 1989 e 2006.
Em 1989, Collor perdeu na faixa superior a cinco salários mínimos
e entre os que tinham chegado ao ensino médio. Em 2006, Lula perdeu entre
os que ganhavam mais de dez mínimos e chegaram à universidade.
OS
TEMAS DE 2010
O tema da campanha de Dilma Rousseff, do PT, está
claro: a continuidade. Ciro Gomes (PSB) seguirá nessa linha. O tema de
Marina Silva (PV) será o desenvolvimento sustentável. O que está
em aberto é qual será o norte do PSDB, que só poderá
ser definido quando o partido resolver se seu candidato será o governador
paulista José Serra ou o mineiro Aécio Neves. O candidato tucano
será o anti-Lula ou o pós-Lula? O interessante é que o PSDB
nem sempre disputa com seu nome mais forte. Em 2002, Serra era fraco, porque era
identificado com Fernando Henrique Cardoso, que tinha muita rejeição.
Era preferível que apoiasse alguém de um partido aliado. Em 2006,
Serra era o mais forte, mas o candidato foi Alckmin. O PSDB perdeu de novo. ■ |