J. R. Guzzo
É nisso que dá
"O Brasil oficial de hoje faz um esforço concentrado
para mentir. 'Falar com alguma sinceridade é perigoso',
dizia Oscar Wilde.
'Falar com muita sinceridade é fatal'"
Ditaduras, pelo mundo afora e em qualquer época, têm
os seus próprios usos, costumes e manias. Há ditaduras, por exemplo,
que não gostam de portos, principalmente se são grandes. Cidades
com quilômetros de cais de frente para o mar, navios de outros países
e muito entra e sai tendem a ser mais abertas, com uma circulação
maior de gente, de ideias e de novidades; é mais difícil mantê-las
isoladas do resto do mundo, e ditaduras ficam inquietas com isso. Outras gostam
de avenidas bem largas, onde possam fazer desfiles e levar a passeio seus tanques
de guerra - além de tornarem mais fácil a movimentação
da tropa de choque da polícia, em caso de protesto público. Há
ditaduras que proíbem a reza do terço, as que determinam quais
roupas ou cortes de cabelo os cidadãos podem usar e as que só
permitem o acesso da população a livros, filmes, músicas
e espetáculos oficialmente aprovados pelo governo. Já houve ditaduras
que não deixavam as pessoas ter listas telefônicas, no tempo em
que elas existiam; eram consideradas segredo de estado. Os estilos podem variar,
mas todos os regimes totalitários, naturalmente, têm coisas essenciais
em comum, e essas não mudam nunca. Uma das que mais prezam é o
culto sistemático à mentira.
O Brasil oficial de hoje, cada vez mais, faz um esforço
concentrado para mentir. Um governo não se transforma em ditadura só
porque mente; é preciso fazer bem mais, e bem pior que isso, para chegar
lá. Mas quando copia com tanto empenho um dos métodos de ação
mais utilizados pelos regimes de força acaba ficando, sem dúvida,
mais parecido com eles. Nessa salada entra tudo. Há a mentira pura e
simples, em que se negam fatos que comprovadamente aconteceram - ou se garante
a existência de fatos jamais acontecidos. Há a ocultação
da verdade. Há a propagação de realizações
inexistentes. Há as explicações, justificativas e desculpas
falsas para erros que não foi possível esconder. Há mentiras
bem contadas e mentiras mal contadas, as que vêm disfarçadas como
equívocos e as que são ditas com as piores intenções
- no fundo, apenas mentiras, todas elas, como a população teve
mais uma oportunidade de constatar no recente episódio do apagão
geral, que deixou dezoito estados brasileiros sem luz nem energia durante quase
seis horas. Diversas modalidades de mentira que fazem parte do repertório
habitual do governo foram utilizadas na ocasião, mas ninguém ofereceu
um resumo melhor dessa maneira de governar do que a ministra Dilma Rousseff.
"Não vai ter apagão", havia garantido a ministra quinze dias antes;
disse que isso era "uma certeza". Quando o problema surgiu, ela sumiu. "Ciao",
foi tudo o que disse aos jornalistas até reaparecer, dois dias depois,
sustentando que não tinha falado em apagão na sua entrevista,
e sim que não haveria "racionamento". Mas falou - está gravado
na entrevista que deu ao programa Bom Dia, Ministro, da Radiobras, em
29 de outubro. Em seguida, sempre no procedimento-padrão do governo,
Dilma deu o caso "por encerrado". E a realidade dos fatos? Foi apagada da memória
oficial.
Consta que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficou
muito bravo, na hora do apagão, com assessores que lhe davam informações
falsas, jogavam a culpa uns sobre os outros e falavam de coisas que não
sabiam. Não se sabe se ficou mesmo, mas se ficou ele terá sentido
o gosto do seu próprio remédio. Como exigir, diante do exemplo
que vive dando, que os subordinados lhe digam a verdade? Dias antes do apagão,
Lula afirmou que o mensalão, um dos episódios materialmente mais
comprovados da história política brasileira, não existiu;
foi tudo uma tentativa de "golpe" contra ele. Na mesma linha, tem dito que as
críticas do ex-presidente Fernando Henrique a ele e a seu governo são
"nazistas" - e aproveitou para dizer que o apagão "do Fernando Henrique"
foi pior que o seu. (Um levantamento do jornal O Estado de S.Paulo mostra
que ao longo do seu governo Lula já mencionou esse fato 55 vezes. Aí
já é ideia fixa.) O presidente, além disso, teve mais um
belo exemplo do que costuma acontecer quando se vive cercado de bajuladores
em tempo integral. Sua prioridade não é dizer a verdade ao chefe;
é dizer o que acham que ele quer ouvir. Compreende-se - ninguém
faz carreira, nesse ramo de atividade, dizendo as coisas como elas são.
"Falar com alguma sinceridade é perigoso", dizia Oscar Wilde. "Falar
com muita sinceridade é fatal."
O presidente vai continuar ouvindo mais do mesmo. Não há
vocações para o suicídio no Palácio do Planalto.
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