PUBLICIDADE

Home  »  Revistas  »  Edição 2140 / 25 de novembro de 2009



Índice    Seções    Panorama    Brasil    Geral    Internacional    Economia    Guia    Artes e Espetáculos    ver capa
Perfil

Ativista da beleza

Ronald Lauder, herdeiro de marca de cosméticos, fundou um
museu em Nova York e defende a causa israelita. De passagem
pelo Brasil, falou sobre Ahmadinejad e arte


Kalleo Coura

Lailson Santos

INDIGNAÇÃO
Para Lauder, Lula erra em receber
o presidente do Irã, Ahmadinejad


O americano Ronald Lauder, de 65 anos, é um homem de múltiplos interesses. Herdeiro da indústria de cosméticos Estée Lauder, a terceira maior empresa do ramo nos Estados Unidos, dono de uma fortuna estimada em 2,5 bilhões de dólares e ex-diplomata, Lauder é mais conhecido atualmente como filantropo, ativista da causa judaica e um dos principais colecionadores de arte do mundo. O bilionário também tem o maior acervo pessoal de armaduras medievais e da Renascença. A mais antiga foi forjada em 1360. Nesse tipo de coleção, se a peça tiver marcas de golpes – sinal de que foi usada em batalha –, seu valor aumenta. "Sempre fui diferente. Eu era o único a usar terno e gravata todos os dias na escola", disse Lauder a VEJA durante sua visita de dois dias a São Paulo, na semana passada. Presidente do Congresso Mundial Judaico, ele esteve no país para conhecer a comunidade israelita paulista e expressar sua contrariedade em relação ao encontro dos presidentes Lula e Mahmoud Ahmadinejad, do Irã, previsto para esta segunda-feira, em Brasília. Lauder argumenta que, ao receber o iraniano, o governo brasileiro legitima um regime que financia grupos terroristas como Hamas e Hezbollah. O bilionário também acredita que Ahmadinejad é potencialmente mais perigoso que Adolf Hitler, porque tem a oportunidade de obter a bomba atômica e já deixou claro seu sonho de varrer Israel do mapa. "Se o Brasil age como se negócios fossem tão importantes quanto princípios éticos, significa que passou do limite aceitável", diz o bilionário.

No ano passado, Lauder esteve na Venezuela para pedir ao presidente Hugo Chávez moderação no trato com a população judaica. O governo chavista mandou revistar duas vezes a escola Hebraica de Caracas sob a alegação absurda de que havia armas no local. Obviamente, nada foi encontrado, mas o objetivo foi cumprido: intimidar a comunidade. Desde o início da década, o número de judeus no país baixou de 27.000 para 14.000. "Parece-me que Chávez acatou meu pedido, porque a pressão sobre os judeus diminuiu", diz Lauder, que até a década de 80 só frequentava sinagogas em datas especiais. Sua metamorfose em um fervoroso ativista ocorreu quando foi nomeado embaixador dos Estados Unidos na Áustria. Nessa função, sensibilizou-se com o fato de os judeus do Leste Europeu, ainda sob o jugo comunista, serem obrigados a praticar sua religião quase que às escondidas. Lauder, então, fundou uma entidade filantrópica voltada para crianças judias e, depois da queda da Cortina de Ferro, criou uma rede de canais de TV que abrange sete países. Neste ano, um terço dessa empresa foi vendido à Time Warner por 241,5 milhões de dólares. Também como embaixador na Áustria, Lauder começou a incrementar o seu acervo de pinturas e esculturas alemãs e austríacas produzidas entre 1900 e 1930. Dessa paixão nasceu a decisão de fundar, em 2001, um museu de arte em Nova York.

Erich Lessing/Album Art/ Latinstock

DE OURO E PRATA
Lauder comprou o Retrato de Adele Bloch-Bauer I,
de Gustav Klimt, por 135 milhões de dólares


O objetivo de Lauder era criar um museu pequeno, em que a visita não durasse mais do que uma hora. "Depois desse tempo, ninguém observa mais nada", diz o colecionador. O museu, batizado de Neue Galerie (Nova Galeria, em alemão), tem como principal obra o Retrato de Adele Bloch-Bauer I, uma pintura em óleo, prata e ouro de Gustav Klimt, finalizada em 1907 após três anos de trabalho. Até recentemente, a obra, roubada pelos nazistas na década de 30, fazia parte do acervo da Galeria Belvedere, em Viena. Depois de uma batalha judicial de cinco anos, retornou à herdeira dos Bloch-Bauer, Maria Altmann. Em 2006, ela vendeu o quadro a Lauder por 135 milhões de dólares. Foi o maior valor pago até então por uma obra de arte. "O Retrato... é a nossa Mona Lisa. Valeu cada centavo", afirma o magnata. O fato de ser presidente do Congresso Mundial Judaico e um defensor muitas vezes intransigente das políticas de Israel, ao menos no que se refere ao conflito com os palestinos, faz com que as críticas a Lauder sejam quase sempre associadas a tais temas.

A Neue Galerie, por exemplo, é frequentemente acusada de privilegiar obras produzidas por judeus ou que já pertenceram a eles. "Na verdade, temos poucas obras de judeus, simplesmente porque eles não foram tão relevantes para o período artístico que nos interessa", diz Lauder. Somente 5% do acervo da Neue Galerie pertenceu a famílias judias que, nos anos 30, foram saqueadas pela SS de Hitler. De qualquer forma, o que está exposto no museu é apenas uma parcela da coleção de Lauder, cujo tamanho ele não revela – justificando a desconfiança de alguns críticos de que, paradoxalmente, algumas das obras teriam sido roubadas por nazistas e deveriam ser devolvidas aos herdeiros dos donos originais. Em se tratando de um bilionário e ativista, acusações como essas podem ser facilmente atribuídas ao olho gordo. Segundo Lauder, há outros bons motivos para invejá-lo. "Eu não tenho rugas ao redor dos olhos", diz o sessentão, que explica esse milagre citando os cremes que usa diariamente – fabricados pela sua indústria de cosméticos, óbvio. O nova-iorquino casado e pai de dois filhos não perde uma chance de fazer propaganda. E aproveita para contar que a Estée Lauder estuda entrar no mercado brasileiro em breve.

EDIÇÃO DA SEMANA
ACERVO DIGITAL
PUBLICIDADE
OFERTAS



Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados