Ecologia
Ainda há esperança
Shawn Then/EFE
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SEM METAS
Obama e Jintao: incerteza sobre acordo
em Copenhague |
O mundo está
diante de uma questão: quanto cada país está disposto a ceder
em seus interesses particulares em favor da saúde coletiva na missão
de conter o ritmo do aquecimento atmosférico? Essa pergunta deveria ser
respondida daqui a duas semanas, na reunião de cúpula que levará
representantes de 192 países a Copenhague, capital da Dinamarca. Os mais
otimistas, que já previam um futuro brilhante, levaram um banho de água
fria. A posição manifestada pelos dois maiores emissores de gases
do efeito estufa da face da Terra, Estados Unidos e China, envolveu o evento em
uma bruma de incertezas. Os dois presidentes, Barack Obama e Hu Jintao, reunidos
para selar um acordo de cooperação econômica Ásia-Pacífico,
na semana passada, anunciaram que seus representantes não levarão
metas numéricas para a reunião. Juntos, os países respondem
por 40% das emissões de carbono que enfumaçam o planeta. Uma comparação
ajuda a entender o tamanho do impasse. Se a reunião fosse um jogo de xadrez
(e não será diferente disso), os compromissos dos EUA e da China
seriam o tabuleiro. Todo o resto se desenrolará tendo suas propostas como
base. Diante disso, outra pergunta se impôs. Será possível
salvar a reunião de Copenhague e obter um acordo que limpe os céus
do mundo?
A boa notícia é que nem tudo está perdido.
A ideia de que tudo se resolveria numa única reunião só ocorreu
aos mais ingênuos. A complexidade das questões científicas
e econômicas envolvidas na discussão leva o assunto para muito além
da mera vontade de abraçar as árvores e salvar o planeta. O que
se discute é a melhor maneira de fazer isso sem paralisar economias movidas
a carbono. Embora já não se tenha esperança de compromissos
formais neste ano, é possível, sim, que saia de Copenhague um acordo
político, em que os países desenvolvidos confirmem a necessidade
de redução das suas emissões e sejam estabelecidos mecanismos
de financiamento para que as nações em desenvolvimento façam
o mesmo. Os números concretos virão numa reunião seguinte.
Se isso acontecer, já não será pouca coisa. Um compromisso
sério dos principais emissores de reduzir seus índices de poluição
é um avanço em relação ao Protocolo de Kioto, que
fracassou, entre outras razões, pela não ratificação
dos Estados Unidos. Faltando duas semanas, é possível que as pressões
que neste momento estão ocorrendo no mundo inteiro consigam fazer efeito.
No meio das vozes que se levantam, está a do sul-africano Kumi Naidoo,
44 anos, o novo presidente do Greenpeace Internacional. Ele conversou com VEJA,
por telefone, para explicar a posição de sua organização.
A ligação foi feita em etapas. Kumi estava viajando da África
do Sul para a Inglaterra. O trecho entre Amsterdã e Londres, de avião,
levaria duas horas apenas. Ele o fez em seis horas, de trem. A política
do Greenpeace determina que, se houver escolha, se deve optar pelo meio de transporte
de menor emissão de carbono. No caminho, conversou com o repórter
Ronaldo Soares.
Marco Okhuizen/Greenpeace
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EM PÉ
DE GUERRA
Naidoo: o Greenpeace vai levar navios e ativistas à convenção
do clima |
RESULTADOS DE COPENHAGUE
O
fracasso nas negociações, ou o estabelecimento de metas tímidas,
é tudo de que o mundo não precisa agora. Precisamos de alvos ambiciosos.
Precisamos reforçar a mensagem de urgência para o problema ambiental.
Recursos devem ser mobilizados para ajudar na adaptação de países
em desenvolvimento. Se os políticos se empenhassem, poderia haver o financiamento
anual dos 100 bilhões de dólares necessários para isso. Se
os países foram capazes, de um dia para o outro, de mobilizar trilhões
de dólares para socorrer os bancos, certamente será possível
mobilizar uma fração desse dinheiro para socorrer o meio ambiente
e os pobres. Infelizmente, os países não têm caminhado nessa
direção.
FALTA COMPROMISSO
A maioria dos países
que assinaram o Protocolo de Kioto não o aprovou no Parlamento. Os Estados
Unidos, na era Bush, negavam as mudanças climáticas. Continuaremos
sustentando que é preciso um tratado que seja levado a sério. É
o que mostra a história dessas reuniões globais. Se você pegar
a Eco-92, no Rio, e observar o que foi prometido e o que foi feito, se 20% do
que foi acordado tiver sido realizado, é muito. O não cumprimento
de um acordo significa uma traição não só ao meio
ambiente e às populações pobres, mas também à
democracia, porque a maioria da população mundial quer que os governos
atuem com urgência para resolver a questão do clima. Isso vale inclusive
para os Estados Unidos, onde 54% da população quer isso. O problema
hoje no mundo é que há muitos políticos e poucos líderes.
Isso é especialmente delicado num momento como o que vivemos, com a ocorrência
simultânea de crise financeira, de combustíveis, do clima, da alimentação.
É parte do nosso desafio fazer com que os governos ouçam nossos
conselhos, porque eles demoraram muito em concordar conosco e em adotar ações
para preservar o planeta.
ESFORÇO CONCENTRADO
Precisamos
de um compromisso formal de todos os países em Copenhague. Vamos continuar
pressionando nas próximas duas semanas, até o último minuto,
para que a conferência não fracasse. Levaremos dois de nossos navios
para lá. Centenas de ativistas, de várias partes do mundo, estarão
presentes. Há quem diga que não é realista acreditar num
acordo, mas prefiro dizer que não é realista aceitar a destruição
do planeta. Quando o Greenpeace afirmava, mais de vinte anos atrás, que
o clima estava mudando, chamavam-nos de alarmistas. Diziam que não éramos
realistas.
OPINIÃO PÚBLICA
Recentemente, os ministros das
Ilhas Maldivas promoveram uma reunião embaixo dágua, para
chamar atenção sobre o problema do clima. As pessoas estão
fazendo coisas para mostrar que não se pode continuar sem fazer nada. Trata-se
do maior desafio que a humanidade já enfrentou. Eu entendo as dificuldades
que temos para chamar atenção sobre a questão do clima. Quando
você pensa em outros desafios, como violações dos direitos
humanos ou pobreza, consegue ver e entender imediatamente do que se trata. Está
bem claro do que se trata. Mas com as mudanças climáticas os efeitos
se dão muito mais lentamente, e é mais difícil fazer com
que as pessoas entendam a urgência do tema. E é também difícil
explicar isso do ponto de vista científico. Quando se fala em mudanças
climáticas, fala-se em reduzir as emissões em 20% ou 40%, em coisas
que precisamos fazer até 2020 ou 2050, em 350 partes por milhão,
em geral temas muito complicados para que as pessoas comuns entendam e se mobilizem.
DESENVOLVIMENTO
X PROTEÇÃO
Vivemos num mundo em que 1,6 bilhão
de pessoas simplesmente não têm acesso à energia elétrica.
É um crime contra a humanidade. Isso significa que crianças em idade
escolar não têm luz para estudar em casa. Que famílias inteiras
preparam seus alimentos em condições degradantes. Ou seja, o atual
caminho de desenvolvimento econômico deixou cerca de 25% da população
do planeta sem nenhuma possibilidade de se desenvolver. Se quisermos dar a todas
as pessoas do mundo o mesmo estilo de vida dos países desenvolvidos, serão
necessários oito planetas Terra. Como isso é impossível,
precisamos melhorar a qualidade do crescimento que temos. Porque o que observamos
é um crescimento sem equidade, que não é compartilhado em
recursos, em bem-estar. Vejo este momento, em que as crises financeira e climática
se deram ao mesmo tempo, como uma oportunidade para pensar numa ambiciosa economia
verde. |