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Aviação
O último contato Diálogo
entre o Legacy e o controle aéreo ajuda a entender por que o jatinho
entrou em rota de colisão com o Boeing
 Rafael
Corrêa e Rosana Zakabi
Nas
investigações a respeito da queda do Boeing 737-800 da Gol, ocorrida
em 29 de setembro, após o choque com um jatinho executivo Legacy, permanece
o mistério sobre os motivos que levaram os dois aviões a trafegar
na mesma altitude. Como as duas aeronaves entraram em rota de colisão a
37.000 pés sobre a selva amazônica? Por que o piloto do jatinho não
desceu a 36.000 pés depois de passar por Brasília, em direção
a Manaus, como previa seu plano de vôo original? As respostas podem estar
no último diálogo travado pelo rádio entre a tripulação
do Legacy e o centro de controle aéreo do Cindacta 1. O jatinho havia acabado
de mudar de área no espaço aéreo, passando do setor de controle
4 para o setor 5, e encontrava-se a vinte minutos de Brasília. Seguindo
procedimentos de rotina, o controlador do Cindacta 1 pediu ao piloto que trocasse
a freqüência de rádio usada para sua comunicação.
Seguiu-se o seguinte diálogo, em jargão aeronáutico:
Legacy Brasília, N600 transfering.
Controlador N600
squalk identification, maintaining flight level 370, under radar surveillance.
Legacy Roger.
Traduzindo: na primeira frase, o Legacy
(a sigla N600 refere-se ao prefixo do avião) confirma que mudou a freqüência
de rádio. A seguir, o controlador pede ao piloto que identifique a aeronave
por meio do transponder, aparelho que transmite os dados sobre altitude, velocidade
e direção para o controle em terra. Na mesma frase, o controlador
orienta o piloto a manter a altitude de 37.000 pés, sob o regime chamado
em português de "vigilância radar". Ao responder "Roger", o piloto
quis dizer que estava ciente das orientações.
Quando um avião voa sob o regime de "vigilância radar", segundo o
manual dos controladores da Aeronáutica, o piloto fica dispensado de informar
ao controle aéreo sua posição. Isso não é necessário
porque, nesse caso, a aeronave é monitorada o tempo todo em terra. O piloto
do Legacy, provavelmente, entendeu que não precisava entrar em contato
com o controle aéreo ao passar por Brasília se sua altitude
fosse inadequada, ele seria alertado imediatamente pelo rádio. "O correto
seria o controlador complementar sua frase, avisando que a altitude de 37.000
pés valia apenas até Brasília", diz o major-brigadeiro Renato
Cláudio Costa Pereira, secretário-geral da Organização
de Aviação Civil Internacional entre 1997 e 2003 e ex-presidente
da Comissão Latino-Americana de Aviação Civil. "Ao que parece,
houve um problema de comunicação entre o piloto e o controle", ele
completa. Depois que o Legacy passou
por Brasília, o controle aéreo perdeu o contato por rádio
com ele. O Cindacta 1 tentou cinco vezes falar com o piloto, sem sucesso. Há
a hipótese de a tripulação do Legacy ter deixado o rádio
em volume muito baixo. Por outro lado, segundo pilotos e controladores que conhecem
os céus da Amazônia, a comunicação na área situada
entre Brasília e Manaus apresenta falhas relativamente freqüentes.
"Os aviões chegam a ficar sem contato com o controle por até quinze
minutos, como acontece também entre Manaus e Caracas", diz o comandante
da Varig Élnio Borges, diretor do Sindicato Nacional dos Aeronautas. Nessas
áreas, há ocasiões em que os controladores precisam repetir
várias vezes a mesma informação para que o piloto consiga
entendê-la. "Nesse caso, uma alternativa é fazer uma 'ponte' com
outros aviões, ou seja, tentar contato por rádio com aeronaves que
sobrevoam a mesma área", diz Borges. Segundo os pilotos e controladores,
as falhas de comunicação ocorrem porque as antenas são muito
distantes umas das outras. "Para o sistema funcionar bem, como nas áreas
próximas às grandes capitais, seria necessário instalar mais
antenas na região amazônica", diz Borges.
A sucessão de erros que derrubou o Boeing prosseguiu quando, minutos depois
de o Legacy passar por Brasília, seu transponder se tornou inoperante.
A partir desse momento, o controle de terra não conseguiu mais enxergar
com exatidão a que altitude voava o Legacy. O equívoco seguinte
partiu dos computadores do Cindacta 1, que corrigiram automaticamente a indicação
de altitude do avião no monitor do controlador, informando os 36.000 pés
previstos no plano de vôo para aquele trecho. Os controladores, embora sem
as informações do transponder, acreditaram nessa informação
na verdade, o Legacy permanecia a 37.000 pés, conforme autorização
recebida antes de sobrevoar Brasília. Cerca de quarenta minutos depois,
o jatinho se chocava com o Boeing. Segundo as primeiras informações
da análise das caixas-pretas, o avião da Gol nem chegou a planar:
caiu em parafuso, começou a se desintegrar a 6.000 pés e atingiu
o solo, matando 154 pessoas. O Legacy, com a ponta da asa e parte da cauda avariadas,
conseguiu pousar numa base da força aérea. A conclusão final
sobre os erros que levaram à tragédia será útil para
tornar o tráfego aéreo e os vôos ainda mais seguros no espaço
aéreo brasileiro. |